A Saks Global, referência histórica no varejo de luxo e dona da Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, tornou-se o centro de uma das maiores reestruturações recentes do setor ao recorrer ao Chapter 11. No primeiro parágrafo do pedido, o motivo é claro: endividamento. Segundo a análise de Gerson Brilhante, analista da Levante Inside Corp, a origem da crise está no “modelo de expansão por dívida”, especialmente após a aquisição da Neiman Marcus em 2024.
A operação, avaliada em cerca de US$ 2,7 bilhões, foi financiada majoritariamente com dívida de alto custo. Para Brilhante, essa decisão sobrecarregou o balanço justamente quando o varejo de luxo já enfrentava um ambiente mais hostil, com consumidores cautelosos e mudanças estruturais no hábito de compra.
O analista ressalta que a alavancagem elevada reduziu a margem de manobra da companhia. Em um setor sensível ao ciclo econômico, a combinação de juros altos e desaceleração do consumo tornou o modelo financeiro difícil de sustentar.
Chapter 11: reestruturação, não colapso
Apesar do impacto do anúncio, o pedido de Chapter 11 da Saks Global não representa o fim imediato da operação. Gerson Brilhante é direto ao afirmar que se trata de “um mecanismo legal que permite à empresa continuar operando enquanto reestrutura sua dívida e negocia com credores”.
A companhia assegurou aproximadamente US$ 1,75 bilhão em financiamento de emergência, incluindo linhas de debtor-in-possession. Esses recursos são fundamentais para manter o caixa operacional, pagar fornecedores e garantir a folha de pagamento durante o processo judicial.
Na leitura do analista, esse fôlego financeiro compra tempo. Tempo para reorganizar passivos, rever contratos e tentar reconstruir a confiança de parceiros comerciais, abalada pelos atrasos de pagamento e pela falta de estoque nas lojas.
Mudança estrutural no mercado de luxo
Além das decisões financeiras, a crise da Saks Global reflete fatores estruturais do mercado de luxo. Brilhante aponta que os consumidores migraram progressivamente para canais digitais e para a venda direta das marcas, reduzindo a relevância das grandes lojas de departamento.
Essa mudança pressiona margens e enfraquece o modelo tradicional, baseado em grandes espaços físicos e alto custo operacional. “Há mais concorrência online e menos dependência dos intermediários”, resume o analista, destacando que a transformação não é conjuntural, mas estrutural.
Nesse contexto, a fusão com a Neiman Marcus não gerou as sinergias esperadas. Ao contrário, expôs fragilidades de um setor que ainda busca se adaptar a um novo padrão de consumo, mais digital e seletivo.
O que o caso Saks Global ensina ao setor?
Para Gerson Brilhante, o caso da Saks Global serve como alerta. Decisões financeiras agressivas podem amplificar riscos quando o ambiente macroeconômico se deteriora. “A empresa se expôs a altos níveis de alavancagem em um momento desafiador”, observa.
A recuperação judicial abre espaço para ajustes profundos, mas não garante sucesso. O futuro dependerá da capacidade de reduzir dívidas, ajustar o modelo de negócios e responder às novas expectativas do consumidor de luxo.
Mais do que um episódio isolado, a reestruturação da Saks evidencia um ponto central: no varejo de luxo, escala e tradição já não bastam. Disciplina financeira e adaptação ao digital tornaram-se condições básicas de sobrevivência.






