Grupo bancário global, o Santander diz acreditar que o crescimento consolidado do Brasil em 2020 será de 1%. Para o ano seguinte, a instituição projeta 2%.
As previsões anteriores eram de 2% para este ano e 2,5% para o próximo período.
Economista-chefe do banco, a executiva Ana Paula Vescovi afirma que esses números levam em consideração o impacto do coronavírus no país.
“Temos perspectiva de recessão em vários países, visto que a economia mundial vai crescer menos”, disse em teleconferência na manhã esta terça-feira (17).
No caso do Brasil, há uma implicação: “a politica macroeconômica é restrita por não termos os fundamentos [econômico-financeiros] bem colocados”, frisou.
Ela pontua que “a consolidação fiscal foi iniciada, mas estamos no meio do caminho, e isso traz restrição, tanto na política fiscal quanto na monetária.”
O vírus, a âncora e o teto
De acordo com a executiva, o real efeito do coronavírus na economia ainda não pode ser mensurado. “O que vemos, agora, é um impacto primário pormenorizado por essa preocupação em manter uma âncora fiscal no país”, frisou.
A fala da economista é referente às medidas adotadas pelo ministério da Economia que ontem (16) anunciou R$ 147,3 bilhões para combate à pandemia. Ela entende que a equipe de Paulo Guedes propõe ações, mas sem ultrapassar o teto dos gastos.
“Acreditamos que temos que cumprir essa restrição [âncora fiscal], porque a politica monetária depende dela [teto dos gastos]”, declarou.
E acrescenta: “temos uma visão de que o BC [Banco Central] deve ser muito precavido, pois, do contrário, incorremos no risco de uma politica monetária contraproducente para o país.”
Para Ana Paula, está clara a restrição macroeconômica. “O Brasil poderia estar mais avançado nessa questão fiscal. Isso vai atrasar ainda mais por conta da crise do coronavírus”, disse, em referência às votações no Congresso, que poderão ser suspensas como medida preventiva.
Deslizamento de terra
Superintendente de economia do Banco, o executivo Maurício Oreng comparou o avanço do coronavírus e o cenário no Brasil como um deslizamento de terra.
A analogia diz respeito a uma área mexida, barrenta, quando ninguém sabe ao certo onde os objetos foram parar. “Tá tudo muito fluído”, disse.
E acrescentou: “nossa hipótese é que o surto vá diminuindo aos poucos e a normalização vem somente no quarto trimestre.”
Quanto às reformas que o país necessita, ele diz que é um ano complicado, dando a entender que elas podem não sair do papel ainda em 2020.
Condições globais
Para Oreng, as condições globais tendem a melhorar. Ele projeta que o câmbio feche o ano em R$ 4,30 e R$ 4 em 2021. “A China deve crescer 4% esse ano e 6% ano que vem. Já os EUA vão marcar 0% esse ano e 2% no próximo”, avaliou.
A conta corrente, por sua vez, vai refletir os eventos atuais, com déficit de 2,2% nesse biênio (2020/21). Já a demanda global vai recuar 0,6p.p. do crescimento desse ano, e a parte doméstica vai subtrair 0,4p.p.
“Ao longo do ano, a gente terá uma contração, media, de 0,3%. Para o próximo, as empresas e as famílias vão estar em situação mais debilitada”, frisou, projetando um IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 3% esse ano e 3,5% em 2021.