O brasileiro está se endividando mais com os cartões de crédito. Segundo dados do Banco Central, no ano passado, o valor de utilização de crédito rotativo dos cartões de crédito dos brasileiros foi de R$ 41,1 milhões, um salto de 20% em comparação a 2018.
Nesta modalidade, a utilização acontece quando o cliente deixa de pagar a fatura do cartão na data de vencimento. Outra situação é quando paga o valor mínimo ou parcial, entrando no chamado “rotativo do cartão”.
De acordo com o Banco Central, do valor total de empréstimo no cartão de crédito, R$ 25,1 milhões são de faturas atrasadas. Em 2018, esse valor foi de R$ 19,9 milhões.
Maior uso
Em uma pesquisa realizada pelo Guiabolso, aplicativo de gestão financeira, ficou constatado que quanto menor é a renda do consumidor, maior é o seu uso, proporcionalmente, do limite disponível.
A pesquisa dividiu os cartões em três grupos: Gold, relativo aos usuários que têm renda de R$1 mil a R$7 mil; Platinum, onde a renda é de R$7 mil a R$15 mil; e Black, para os clientes com renda acima de R$15 mil.
Enquanto, para a faixa salarial mais baixa, 13% dos clientes utilizaram mais de 50% do limite disponível, à faixa mais alta de renda, esse percentual foi de 10%.
“A diferença pode parecer pequena, mas estamos falando de 30% a mais de pessoas na faixa salarial mais baixa que comprometem acima de 50% do seu limite do cartão de crédito”, disse o diretor de Produto e Tecnologia do Guiabolso, Julio Duran.
Armadilhas
Segundo Duran, o crédito liberado pelo emissor do cartão é o resultado da análise da renda do cliente, somado ao seu relacionamento com o banco e o seu histórico de pagamentos.
Para ele, o problema no orçamento acontece quando o consumidor passa a contar com o limite de crédito do cartão para dar conta dos seus gastos.
“O risco de ter um limite muito grande é ‘ter corda para se enforcar’ e cair no rotativo, que é um crédito caro”, diz Duran.
Taxas
Com certeza, essa modalidade de empréstimo pesa no orçamento das famílias. A taxa de juros média do crédito rotativo do cartão, fechou 2019 em 318,9 % a.a.
Apenas no mês de dezembro, a taxa subiu 0,6% em relação a novembro.
No ano, o aumento foi de 33,5 pontos percentuais. Para efeito de comparação, a taxa média de um empréstimo pessoal não-consignado foi de 103,04% a.a., segundo dados do Banco Central.
“O banco avalia os riscos de emprestar o dinheiro e não o risco para o orçamento do cliente. A instituição espera que, uma vez que o cliente é considerado bom pagador, se houver uma emergência, ele vai parcelar a fatura. Essas empresas contam, sim, que uma hora o cliente vai extrapolar e cair no rotativo”, diz o planejador financeiro pela Planejar, Janser Rojo.
Descontrole
De acordo com Rojo, o maior uso proporcional do limite por pessoas que têm renda mais baixa mostra que, como neste caso, a quantidade de crédito oferecida também é menor, é mais fácil consumi-la.
Além disso, ele pontua que, em geral, quanto mais baixa é a faixa salarial, menor costuma ser a educação financeira dessas famílias.
“Quem ganha menos pode acabar sendo mais dependente do uso do cartão”, concorda Julio Duran.
Essa dependência, em geral está ligada à falta de conhecimento dos reais custos de um crédito que está, literalmente, à mão.
“Hoje os gastos com o cartão de crédito são muito rápidos e parecem inofensivos. É uma corrida no aplicativo de transporte, um pedido de delivery em outra plataforma e, quando você vê, a fatura do mês te surpreende”, disse Duran, do Guiabolso.
Então, a facilidade e agilidade no acesso aos créditos rotativos, como o cartão de crédito e o cheque especial, são os fatores que mais contribuem para uma utilização irresponsável desse tipo de empréstimo, dizem os especialistas.






