Nova pesquisa da Schroders, divulgada com antecedência pela Valor Investe nesta segunda-feira (16), aponta que ao menos metade dos entrevistados (46%) têm a intenção de economizar mesmo depois que as restrições financeiras causadas pela pandemia de Covid-19 acabarem. O sentimento é ainda mais expressivo entre jovens investidores, entre 18 e 37 anos (52%).
O estudo global de investidores realizado pela Schroders mostra que, para 29% dos entrevistados, a pretensão é manter os níveis de investimentos. Enquanto 24% pretendem economizar menos.
Outro número surpreendente é que 58% dos investidores brasileiros querem colocar mais dinheiro em suas aplicações como um todo, mas do total, 47% afirmaram ter interesse em investir mais em ativos de baixo risco. Portanto, há uma tendência de que os investidores se tornem mais conservadores. Já 42% buscam aplicações em ativos de alto risco.
Daniel Celano, diretor-presidente da Schroders Brasil, afirma que as pessoas passaram mais tempo pensando em sua situação financeira no último ano. Por conta da maior incerteza sobre seus empregos, os investidores passaram a valorizar uma reserva maior.
“Isso ficou muito latente. A reserva era para durar três meses, mas a crise já tem mais de um ano”, disse à Valor Investe.
Planos de aposentadoria
Conforme a pesquisa, há também a ligação entre investimentos mais conservadores e a perspectiva dos planos de aposentadoria. No Brasil, 80% das pessoas não aposentadas querem economizar mais para esse período da vida.
O sentimento acontece pelos efeitos da pandemia. No entanto, a preocupação é menor em escala global. 67% dos entrevistados demonstraram querer economizar mais para a aposentadoria.
Entretanto, apesar dos altos números, o objetivo não é de se aposentar mais cedo. Entre brasileiros, 43% acreditam que irão se aposentar mais tarde. Já 29% pensam que vão se aposentar com a mesma idade. Por fim, 28% acreditam que vão deixar de trabalhar antes do previsto.
Sobre os que já estão aposentados, 58% dizem estar mais cautelosos ao gastar suas economias devido à pandemia. Outros 30% seguem tão cautelosos quanto antes, e 12% dizem estar menos cautelosos agora.
Melhores planos, maiores ganhos
Outra parte da pesquisa mostra que os investidores esperam ser recompensados melhor pelo esforço de economizar e suas boas escolhas de aplicações.
A confiança dos investidores globais atingiu seu nível mais alto desde o início do estudo, em 2016. Atualmente, a expectativa de retorno médio anual nos próximos cinco anos é de 11,3%. No ano passado, o retorno esperado era de 10,9%. Para os próximos 12 meses, a expectativa média de retorno é menor, de 9%.
Ao separar os investidores por níveis de conhecimento em finanças, aqueles que se classificam como especialistas ou avançados esperam retorno de 12,8%. Por outro lado, os investidores iniciantes esperam por retornos anuais médios de 8,9%.
Entre os intermediários, a expectativa de lucros é de 10,7% ao ano. A diferença aponta que, como diferentes níveis de conhecimento, a sensação de otimismo é alterada. Ou seja, a relação de cada investidor sobre suas próprias carteiras muda, especialmente em momentos de incertezas.
Brasileiros esperam mais lucro
No Brasil, a expectativa de retorno total anual médio do investidor para os próximos cinco anos também ficou mais otimista e subiu de 13,3% em 2020 para 14,6% em 2021.
Fonte: Valor Investe, com dados da Schroders
De acordo com a Valor Investe, as respostas deste ano foram surpreendentes. Ano passado, 67% dos entrevistados acreditavam que haveria retornos mais baixos por conta da pandemia.
Outro aspecto que clarifica as respostas dos investidores é que quanto mais jovens, maior é o retorno esperado. As maiores expectativas de lucro médio anual com as aplicações estão na faixa entre 38 e 50 anos, com 11,9%, mas cai para 9% para os entrevistados acima de 71 anos.
Daniel Celano explica que é natural que os mais velhos tenham expectativas menores de retornos. “A pessoa que está aposentada ou em vias de se aposentar vai ter uma carteira mais conservadora e com menos ativos de crescimento. Outro fator é que os mais velhos já viram ciclos do mercado antes e sabem que alta prolongada não é sustentável”, afirmou.
Conforme Celano, a forte recuperação de alguns ativos nos últimos meses também influencia as perspectivas atuais. “Como os investidores viram a alta recente, a expectativa de retorno fica ancorada para cima”, disse.
Além disso, há um aumento de preços generalizado em diversos países. Esse movimento na economia influencia os investidores a buscarem investimentos que pagam juros nominais acima das expectativas de inflação.
Economia “forçada”
A pesquisa também mostra que com as restrições de comércios e o isolamento social, muitas pessoas acabaram gastando menos. Com a economia “forçada”, 32% dos investidores globais disseram ter economizado mais que o planejado desde o início da pandemia. Já 47% pouparam o que já esperavam.
O estudo aponta que a redução dos gastos foi puxada por itens não essenciais, como alimentação fora de casa, lazer e viagens, com 59%.
Globalmente, investidores disseram que não conseguiram economizar tanto quanto planejado. Nesse aspecto, 45% citaram a redução de salários ou rendimentos do trabalho como o principal motivo, o que reflete os grandes desafios financeiros trazidos pela pandemia.
Além disso, 36% reportaram justamente mais gastos com lazer, alimentação e delivery. Ainda, 33% apontaram acontecimentos pessoais, como mudanças e chegada de mais filhos. Por fim, 10% perderam o emprego.
No Brasil, praticamente metade dos investidores (48%) poupou tanto quanto planejava, 27% pouparam mais do que esperavam e 25% pouparam menos que o planejado.
Em busca da segurança
Com a perspectiva das reduções de restrições e a eventual volta à normalidade, há quem esteja se preparando para aumentar gastos. Ao menos 35% já estão pensando nisso. A compra de um imóvel é a prioridade de 43% de quem pretende gastar mais.
Na avaliação da Schroders, a intenção de investir em imóveis demonstra como as pessoas estão em busca de ativos que remetem à segurança. Em seguida, com 35%, são citados os gastos com viagens de feriados, veículos e ocasiões especiais.
No Brasil, entretanto, a intenção de aumentar os gastos é menor em relação ao mundo, sendo apontada por 29% dos pesquisados. As incertezas que rondam a economia do país ajudam a explicar essa parcela menor, explica Celano.