Além da realização de um sonho, a chegada dos filhos traz também grandes expectativas e responsabilidades. Nesse sentido, as preocupações são infinitas: carreira, amigos, sucesso nos projetos de vida e tudo mais que se deseja para os filhos tomam uma dimensão cada vez maior em nossas vidas. No entanto, algo ainda pouco difundido, e que facilitaria muito os primeiros passos dos pequenos na jornada pessoal é a educação financeira de pai para filho.
No Brasil, poucas famílias têm o hábito de falar sobre o orçamento doméstico, ou dividir o planejamento financeiro com os filhos. Crescemos ouvindo de nossos pais sobre a importância de poupar e dar valor ao dinheiro. Mas pouquíssimos de nós tiveram alguma orientação prática sobre como fazer isso, não é mesmo?
A importância da educação financeira de pai para filho
Segundo dados do Serasa Experian divulgados no início de julho, cerca de 62,5 milhões de brasileiros estavam endividados em maio desse ano. Entre esses devedores, 1,6 milhão correspondem a novos inadimplentes no Brasil.
A pesquisa ainda aponta que o valor médio da dívida, de R$ 3.900, é o maior dos últimos 12 meses. Em relação às categorias, bancos e cartões de crédito representam quase 30% do total das dívidas do país.
Outro dado preocupante diz respeito à falta de familiaridade que crianças e adolescentes têm com as finanças. É o que mostra o relatório divulgado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). Segundo dados, o Brasil ocupa a 17ª posição no ranking de competências financeiras de jovens entre 20 países pesquisados.
Educação financeira nas escolas brasileiras
A boa notícia é que a educação financeira passou a ser obrigatória nas escolas do Brasil.
Nesse sentido, a determinação do Ministério da Educação (MEC) previa a inclusão do tema nas salas de aula já no início de 2020. No entanto, a pandemia atrasou os planos, e somente em junho desse ano o assunto voltou à pauta.
No final do último semestre, o MEC anunciou que capacitará 500 mil professores para estimular a educação financeira nas escolas. Segundo o órgão, o treinamento oferecido aos professores dará foco a assuntos como consumo consciente, formação de poupança e hábitos financeiros saudáveis. Além disso, também haverá orientação no sentido de prevenção contra golpes e fraudes financeiras.
O Programa Aprender Valor, iniciado pelo Banco Central, está em fase de conclusão em 429 escolas localizadas em seis estados e 250 municípios. Primeiramente, os estados que sediarão o projeto piloto serão Ceará, Pará, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso do Sul, além do Distrito Federal. Depois de concluída a primeira fase, o projeto será adotado em todo o Brasil. Em relação aos alunos capacitados, a expectativa é de que o número passe de 14 mil para mais de 180 mil até o final do ano.
A princípio, a educação financeira não será uma disciplina, e sim um tema transversal. Ou seja, os conteúdos relativos ao assunto farão parte de outras disciplinas: português, matemática, geografia e história. O projeto Aprender Valor deverá ir até o final de 2022 ou início de 2023. Nesse sentido, o objetivo é levar a educação financeira a todas as escolas de ensino fundamental do país.
Lições sobre dinheiro para ensinar aos filhos, segundo Gustavo Cerbasi
Além de consultor financeiro, Gustavo Cerbasi, autor de livros como Investimentos Inteligentes, também é pai de três filhos. Segundo ele, para que a educação financeira tenha efeito em casa, o tema deve ser tratado de forma sutil. Isso significa trazer para o dia a dia exemplos que as crianças possam compreender e dos quais possam participar.
Nesse sentido, o autor destaca três pontos básicos sobre os quais conversa com os filhos frequentemente:
1 – O dinheiro serve para trazer realizações
Nesse sentido, Cerbasi enfatiza a diferença entre consumo e experiências trazidas pelo dinheiro. Por exemplo, em momentos festivos como aniversários, Dia das Crianças, entre outros, o importante é conscientizar os filhos sobre o significado da data. Não se trata de um dia de ganhar presentes, mas sim de entender e celebrar o significado que o momento proporciona.
Para Cerbasi, proporcionar autonomia para as crianças nessas datas (como deixá-las decidir o cardápio e o que será feito no dia) contribui para a valorização das experiências. Isso vale também para outras ocasiões, como viagens, por exemplo. Ou seja, o objetivo é fazer com que a criança preste mais atenção nas experiências do que no consumo. Dessa forma, ela consegue valorizar essas celebrações mais do que o consumo por si só.
2 – Disciplina e organização
Segundo Cerbasi, a mesma disciplina financeira ensinada em seus cursos é aplicada em casa. No entanto, é preciso ter o cuidado de traduzir as rotinas financeiras para os filhos. Nas palavras de Gustavo, trata-se de “teatralizar” o processo, para que os filhos entendam a importância dessas rotinas e saibam como aplicá-las.
Por exemplo, Cerbasi comenta que ele e a esposa tiram algumas horas no mês para discutirem o orçamento doméstico. Isso sempre é comunicado aos filhos, que inclusive são convidados a participar da conversa se quiserem. Para o consultor, estimular a participação dos filhos nesses assuntos desperta desde cedo o interesse sobre a organização financeira. Tudo feito de forma bem natural e explicativa, para que as crianças se sintam à vontade para fazer perguntas e contribuir com sugestões. Nas palavras de Cerbasi, é importante conhecer a “vida de adulto”, no sentido de cuidar do dinheiro e sempre utilizá-lo de forma correta.
3 – Celebrar e saber reconhecer o esforço
Para Cerbasi, o terceiro ponto está diretamente relacionado ao anterior. Ou seja, quando os filhos desejam comprar algo, é preciso fazê-los entender que isso custará dinheiro. Nesse caso, se eles recebem mesada, o ideal é ensiná-los a guardar parte do dinheiro. Isso para que entendam a importância de ajudar a pagar o celular, o novo game ou qualquer outro desejo de consumo.
Além disso, no momento da compra, é necessário lembrá-los de que isso é resultado de organização e disciplina. Dessa forma, eles saberão reconhecer o esforço, e celebrar a cada conquista financeira da família, sempre valorizando a concretização de projetos
E então? A educação financeira de pai para filho não é mesmo um excelente presente para o Dia dos Pais?