Com a “Super Quarta” de 4 de maio, quando Fomc e Copom definem juros, o que deve acontecer com o dólar?
Nos EUA, um aumento de 0,5% nos juros do país já está precificado pelos mercados globais.
No Brasil, o Banco Central vai decidir sobre o aumento da taxa Selic, que hoje está em 11,75%. O mercado espera que suba para 12,75%.
A partir dessas movimentações, qual o futuro do dólar? Ainda existe janela para investir?
Fed e dólar: a possível depreciação do real
Com a alta esperada dos juros americanos, especialistas do mercado estão de olho no ritmo que a escalada de juros ganhará e sobre a redução do balanço patrimonial pelo BC americano.
Dependendo da sinalização do Fed, espera-se uma maior depreciação do real em relação ao dólar. Mais oito altas de juros são esperadas (10 projetadas no total), chegando próximo a 3% no final do ciclo, que deve se estender até 2023.
“Para o restante do mundo, Brasil incluso, como emergente especialmente interessado, as decisões do Fed refletem em migração do capital para os papéis do tesouro americano, considerado o investimento mais seguro do mundo. Isso quer dizer que haverá menos liquidez, com impacto na bolsa brasileira e também no dólar, que tende a se valorizar frente ao real”, comenta Alexandre Viotto, head de câmbio da EQI Investimentos e colunista do EuQueroInvestir.
Copom: fim do ciclo do aperto monetário?
Por aqui, a partir da decisão do Copom, o mercado espera uma definição sobre se o ciclo de aperto monetário irá se encerrar agora ou se será estendido até junho.
“Enquanto aqui estamos chegando no final do aperto ou muito próximo dele, lá (nos EUA) eles estão recém-iniciando o ciclo. As notícias por lá tendem a ser piores do que as daqui por um bom tempo, durante um ano mais ou menos”, explica Denys Wiese, head de renda fixa da EQI.
“O real deve seguir volátil. E as taxas de juros aqui no Brasil e lá fora vão ditar para onde vai a cotação do câmbio nas próximas semanas”, comenta Viotto, head de câmbio da EQI Investimentos.
Fed e dólar: janela de investimento em dólar se fechou?
Depois de um período de valorização frente ao dólar nos últimos meses, “o que deve acontecer agora é que as coisas tendem a voltar ao normal e se estabilizar”, explica Alexandre Viotto, head de câmbio da EQI Investimentos.
A explicação, segundo o especialista, é o carry trade.
“O real foi a estrela entre as moedas emergentes, por conta justamente do diferencial de juros entre o mercado local e os países desenvolvidos. A gente teve taxa de juros de 0% a 0,25% nos EUA, enquanto aqui a Selic está em 11,75%. Isso tornou o país muito atrativo e trouxe dólares para o Brasil, valorizando o real”, diz.
No entanto, ele explica que com o Fed dando como certa a alta de juros em 0,5 ponto porcentual, tendo um discurso hawkish, e por aqui Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central brasileiro, afirmando que o ciclo de alta de juros está chegando ao fim, o cenário se inverte.
“Isto confirma que o que segurava o real era mesmo o diferencial de taxa de juros (carry trade), que por sinal ainda é grande. Só que o mercado é ansioso e trabalha com perspectivas, estando duas, três, até quatro casas na frente da realidade. Então, o que vemos é que os analistas já estimam que o dólar não estava no preço correto. O preço dele é muito mais próximo de R$ 5, talvez até um pouco mais alto que isso”, finaliza.
- Leia também: É o fim da janela para o dólar? Confira a opinião do especialista da EQI Investimentos.
BTG Pactual: dólar a R$ 4,92 no segundo trimestre
Segundo projeções do BTG Pactual até o dia 2 de maio, o pior cenário para o dólar no segundo trimestre de 2022 seria de R$ 4,92. Já a mais otimista considerava R$ 4,63 e o cenário base ficaria a R$ 4,78.
Ainda de acordo com o relatório, divulgado em abril de 2022, até o final deste ano, o valor médio da moeda seria de R$ 4,79.

Gráfico taxa de câmbio: Fonte BTG Pactual
Investir em dólar a R$ 5 ainda vale a pena?
O que vai acontecer com o dólar frente ao real nos próximos meses é algo que nenhum especialista em câmbio se arrisca a “cravar”.
Enquanto as definições sobre as taxas de juros no Brasil e nos EUA ainda estão em pauta, especialistas reforçam que em relação ao real, não temos, para esse ano, nenhum embasamento para a valorização de nossa moeda.
Isso porque a retração do Produto Interno Bruto (PIB), a inflação alta e o aumento de gastos públicos por conta das eleições são drivers que não contribuem para a alta do real.
“É preciso aproveitar momentos favoráveis para o câmbio. Nesse sentido, considero o dólar de R$ 4,60 a R$ 5,20 uma boa janela de oportunidade. Vale lembrar que, no começo do ano, a expectativa era dólar a R$ 5,60”, afirma Gustavo Strauch head da EQI Internacional.
Entenda o que aconteceu com o dólar nos últimos meses
Acompanhe o que aconteceu com o dólar no primeiro trimestre de 2022.
Por que o dólar caiu tanto?
Foram inúmeras as razões pelas quais o real valorizou frente ao dólar em 2022.
Entre elas, o diferencial de juros e a perda de competitividade de outros países emergentes como a Rússia, conforme explica Alexandre Viotto.
Segundo ele, basicamente, os motivos que balizaram o mercado foram dois. O primeiro foi o diferencial da taxa de juros aqui no Brasil frente a dos EUA e dos demais países desenvolvidos.
Essa diferença já foi bem pequena quando a Selic estava na casa de 2% e a taxa de juros estava em zero nos EUA. E com a inflação, a situação ficava ainda pior do ponto de vista do diferencial de juros.
“Esse foi um dos principais motivos, senão o principal, pelo real ter sido a moeda que mais perdeu valor frente às outras moedas durante a pandemia. Principalmente, frente às moedas fortes como dólar e euro”, observa.
No entanto, segundo Viotto, quando o Banco Central brasileiro começou a subir os juros, isso aconteceu de forma rápida, fazendo com que o diferencial de juros daqui com o do exterior subisse de novo, passando de dois dígitos agora.
“Isso tornou o Brasil super atrativo, mesmo com os riscos locais, uma vez que essa é uma diferença ‘cavalar’”, comenta.
O Head de Câmbio da EQI lembra ainda das questões geopolíticas que fizeram com que países competidores como Rússia e Turquia ficassem menos atrativos ao investidor estrangeiro.
“Quando os investidores olham para países como Brasil, Rússia, África do Sul, México e Turquia, por exemplo, eles colocam todos em uma única cesta. Dentre eles, o Brasil teve o diferencial de juros maior em relação à taxa livre de risco dos EUA. Além disso, o Brasil não tem problemas geopolíticos, o que o tornou a bola da vez”.
Real: moeda foi a que mais se valorizou frente ao dólar em 2022
Além dos fatores apontados por Viotto, um levantamento da consultoria Economatica, na penúltima semana de março, mostrou que o real é a moeda que mais se valorizou em relação ao dólar, com variação de 13,41%.
Segundo o levantamento que comparou 25 moedas, desde o início de 2022 até o dia 23 de março, a moeda americana perdeu força em 10 países.
Atrás do Brasil, as moedas que mais se valorizaram foram:
- África do Sul (7,59%);
- Chile (6,48%);
- Colômbia (5,31%);
- Peru (5,16%);
- Austrália (2,83%);
- Canadá (1,42%);
- México (0,93%);
- Noruega (0,49%);
- China (0,1%).
Já as cinco moedas que mais perderam força foram as dos seguintes países:
- Rússia (-29,77%);
- Turquia (-24,91%);
- Argentina (-6,18%);
- Japão (-4,74%);
- Suécia (-4,21%).
Câmbio em 2022: entenda a janela para dolarizar o investimento
Para Denys Wiese, Head de Renda Fixa da EQI, em 2022 se abriu uma boa janela para quem esperava o melhor momento para a dolarização.
“O dólar caiu nos últimos meses em função dos juros elevados no Brasil, o que atraiu muito capital estrangeiro. Outro fator foram as commodities, que estão com o preço lá em cima.
Já na competição com os outros países emergentes, o Brasil ganhou de ‘WO’, ou seja, o capital acabou vindo para cá, porque os demais concorrentes estão piores”, reitera Wiese.
No gráfico abaixo, é possível entender a janela para a dolarização. Na linha amarela, vemos o índice DXY, que mostra como dólar tem se valorizado frente a outras moedas, mas isso não está acontecendo frente ao real (linha branca).
“Geralmente, essas duas linhas são correlacionadas, mas agora, abriu essa ‘boca de jacaré’, que é uma anomalia de mercado. E anomalias não permanecem por muito tempo”, reforça Wiese.
Gráfico janela para dolarização

Gráfico janela para dolarização. Fonte: EQI Investimentos
Para o Head da EQI, essa, portanto, essa é uma boa janela para quem quer dolarizar e desfrutar de um mercado muito maior e menos volátil que o brasileiro.
“Ganhar em dólar é bem diferente do que em real, uma moeda que se desvaloriza na ordem de 10 a 15% ao ano, não pelo IPCA, mas pela vida real das pessoas. Enquanto que o dólar não tem toda essa desvalorização no longo prazo”.
Quando vale a pena investir lá fora?
No entanto, Wiese aponta uma iminente inversão deste cenário, com a subida de juros nos EUA.
“À medida que os juros sobem, o diferencial entre Brasil e EUA vai ficando menor, o que nos faz perder a atratividade para o capital estrangeiro, que irá voltar para casa para explorar juros maiores”, observa.
O especialista em Câmbio da EQI, Alexandre Viotto, reforça que sempre é oportuno para a diversificação em dólar.
“Sou sempre favorável à dolarização do patrimônio, independentemente do patamar em que esteja a cotação, assim como quando o dólar estava a R$ 5,50. Na minha opinião, é sempre bom ter ativos em dólar para ficar bem protegido”, aponta.
Para ele, os investidores devem sempre procurar ampliar suas possibilidades de diversificação dentro do mercado financeiro. “Quem não investe no exterior está acessando apenas 2% do mercado financeiro mundial”, explica Viotto.
Quando é melhor deixar de comprar dólar?
Na visão do especialista de câmbio da EQI, o cenário do dólar deve ser acompanhado com atenção nos próximos meses.
“Os EUA já tem problemas demais e isso já está precificado. A gestão Biden tem sido muito complicada em vários setores.
Foram muitos os pacotes de ajuda, com apostas em segmentos não tão interessantes, deixando de lado as energias não-renováveis (citando a suspensão da produção de gás de xisto) sem fazer uma transição equilibrada.
E o americano tem pago o preço disso na bomba de gasolina, o que reflete na inflação, uma vez que o petróleo é a principal matéria-prima de todos os produtos que a gente compra. Se o preço sobe, toda a cadeia de produção sobe também”, esclarece.
Ainda de acordo Viotto, com a subida da taxa de juros americana para segurar a inflação, o movimento natural que seguirá nos próximos meses é do dinheiro dos investidores voltando para os EUA.
Variação do câmbio: o que acompanhar nos próximos meses?
O Head de Câmbio da EQI aponta os três principais fatores internos e externos que mais impactam na variação do dólar e que devem ser acompanhados de perto nos próximos meses.
“Devemos ficar de olho aqui no Brasil nas questões fiscais. No exterior, no Fed. Além desses, os preços de commodities”, resume.
Viotto explica que as commodities agrícolas e metálicas, por exemplo, são pauta de exportação no Brasil, Rússia e Ucrânia e devem sofrer com o conflito entre as duas nações. Além disso, o cenário também trará variações no preço do petróleo.
“Devemos acompanhar com cuidado também os movimentos do Fed com a expectativa de subida de juros e analisar as atas para saber o que os membros votantes do Fed dizem nas reuniões.
Aqui no Brasil, o foco será nas eleições e o fiscal que, apesar de estar relativamente controlado, não se pode descuidar”, avalia.
É o momento de ter uma assessoria em câmbio?
Para Alexandre Viotto, quando se fala em câmbio, é preciso entender que nenhum cenário está definido, ao contrário, há muitas variáveis que seguirão em pauta em 2022.
“Temos situações acontecendo, como a guerra Rússia x Ucrânia e as eleições no Brasil, por exemplo. Para um planejamento a médio e longo prazo, é preciso saber que a volatilidade do câmbio irá acontecer”, comenta.
Diante disso, para ele, está mais do que na hora de empresas e investidores se protegerem e estabelecerem uma estratégia para as operações de câmbio.
“Não se deve fazer o chamado ‘hedge religioso’: rezar para o dólar subir ou descer, é necessário ter a orientação de uma assessoria especializada”, recomenda.
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