A pandemia da covid-19 esvaziou salas por todo o mundo e agora, com a situação aparentemente melhorando, o setor de educação volta a visualizar um “mar mais calmo”. O segundo trimestre de 2021 mostrou uma recuperação para a maioria dessas companhias, mas, aparentemente, algumas mudanças vieram para ficar.
É o caso do EAD, o ensino à distância. De forma geral, todas as companhias viram esse tipo de serviço galgando fatias da representatividade de suas receitas.
A Cogna (COGN3), por exemplo, viu seu ensino superior digital, operado pela sua subsidiária Kroton, crescer 12,4% na base anual, com o número total de alunos saltando de 603,5 mil para 694,8 mil – apesar de o ensino presencial ter apresentado redução de 28,5% na mesma comparação, saindo de 317,8 mil para 225,7 mil.
“A Cogna apresentou sinais de que a reestruturação da Kroton e seus resultados podem começar a contribuir positivamente para o retorno da rentabilidade da holding”, afirmou a analista Melina Constantino, do BB BI.
A companhia optou em 2020 por priorizar o ensino digital e por reorganizar seu braço presencial, fechando campus e enxugando gastos.
Com isso, a Cogna, um dos principais nomes do setor de educação – e muito buscada por investidores pessoa física -, registrou uma melhora de margens Ebtida, que saiu de 22,5% entre abril e junho de 2020 para 27,9% no mesmo período deste ano.
O resultado operacional ajustado ficou em R$ 329,5 milhões no segundo trimestre deste ano, ante R$ 120,6 milhões no mesmo período do ano passado. Isso se deu mesmo com queda da receita, que saiu de R$ 1,3 bilhão para R$ 1,2 bilhão.
A Cogna conseguiu, então, reverter o prejuízo e fechar o trimestre lucrando R$ 6,5 milhões – em parte, a analista do BB BI aponta que o resultado se deu também com menores provisões
Para o futuro, as ações desta companhia estão sob um olhar de cautela. A volta às aulas presenciais pode voltar a diminuir margens, com maiores custos como manutenção e serviços de terceiros.
Ser Educacional (SEER3), Ânima (ANIM3) e Yduqs (YDUQ3) avançam nos cursos de medicina
A Ser Educacional (SEER3), a Ânima (ANIM3) e a Yduqs (YDUQ3) tiveram destaques semelhantes em seus balanços: as três viram seus braços digitais avançarem, bem como os de curso de medicina.
“Os cursos de medicina e o EAD estão se tornando mais representativos no consolidado”, afirmou a analista Mariana Ferraz da Eleven sobre a Ser. O ensino à distância, porém, apesar de crescer rapidamente, ainda representa uma quantia pequena da receita líquida desta empresa – foi 13% do total levantado no primeiro semestre.
O ticket médio e as margens melhoraram com a maior distribuição dos cursos da área da saúde, comumente mais caros, e também pelo avanço do EAD.
A Ser Educacional fechou o segundo trimestre com uma receita de R$ 385,7 milhões, sendo de R$ 692,4 no semestre. Em parte, porém, esse resultado teria sido impulsionado, para a analista Eleven, pela aquisição da Unifasc.
A companhia está, de qualquer forma, pronta para o futuro. “Busca o crescimento orgânico, com tecnologia, experiência do aluno e produção de conteúdo de cursos digitais e livres. Pressiona as margens no curto prazo, mas direciona a Ser para sua perenidade”, afirmou Ferraz.
A Ânima também foi impulsionada pela consolidação da compra da Laureate – que assim como a Unifasc conta com cursos de medicina – o que aumentou o ticket médio em 4,6% na base anual. “A Inspiralli, vertical de medicina do grupo, ganhou ainda mais força com a integração dos ativos da Laureate”, explicou Ferraz. A base de alunos desta subsidiária cresceu 365% na base anual, chegando a R$ 242,2 milhões de receita, dos R$ 586 milhões totais.
A compra da Laureate, porém, aumentou também o endividamento da Ânima, para o que a Eleven chama a atenção: a empresa chegou a um múltiplo de alavancagem (dívida líquida/Ebitda) de 4,6 no fim de junho, após emitir R$ 2,5 bilhões em debêntures. A analista, porém, acredita que a companhia conseguirá se desalavancar através do seu projeto de crescimento.
Por último, o braço de cursos de medicina da Yduqs (YDUQ3) também foi responsável por impulsionar o resultado, bem como o ensino digital. “Esses dois setores continuam crescendo de forma expressiva e, combinados, já representam 47% do total da receita, de R$ 1,16 bilhão, e 66% do Ebitda, de R$ 348,9 milhões”, disse Melina Constantino, do BB BI.
Segundo a especialista, os negócios premium da companhia, com 42,1% de crescimento no ano, e o ensino digital, com 46,2%, “mais do que compensaram queda de 0,8% no ensino presencial”. Além disso, ela pontua que a empresa fecha junho com baixo endividamento e maior capex.
Cruzeiro do Sul vai no caminho contrário e vê ticket médio cair
Se as três empresas acima foram impulsionadas pelo maior ticket médio, avançando sobre os cursos de medicina, a Cruzeiro do Sul não conseguiu a mesma performance e foi mais parecida com a Cogna. Apesar de ter avançado sobre o EAD, que agora representa 63,3% dos seus 366,3 mil alunos, a receita regrediu com o menor ganho por estudante: ficou em R$ 478,2 milhões, ante R$ 482 milhões no segundo trimestre de 2020.
“Ainda sente os efeitos da pandemia e apresentou leve queda da receita líquida no trimestre, de 0,8% no ano, com segmento presencial ainda afetado”, afirmou a Eleven.
Apesar disso, a casa segue otimista com o case, com a companhia oferecendo um EAD diferenciado e de melhor qualidade – tendo investido em 37 polos hub de EAD, com estrutura de laboratórios para os cursos de engenharia, nutrição, farmácia, biomed e gastronomia – e com caixa ainda do IPO realizado no começo deste ano.