O ouro atingiu novos recordes históricos ao ultrapassar a marca de US$ 4.700 por onça-troy, consolidando uma trajetória de valorização que vem se desenhando ao longo dos últimos anos. Longe de ser um movimento pontual, a alta do metal precioso reflete transformações estruturais na economia global, marcadas pelo aumento das tensões geopolíticas, pela perda de confiança nas moedas fiduciárias e por uma migração global em direção a ativos reais.
Segundo o analista da EQI Research, Nicolas Merola, o atual comportamento do ouro é resultado de uma combinação de fatores que se reforçam mutuamente e vêm sustentando uma tendência de alta quase ininterrupta.
Escalada geopolítica e a erosão da confiança global
O principal motor da valorização do ouro, segundo Merola, é o agravamento dos conflitos e das disputas políticas entre grandes potências. “Quando você tem aumento de tensões entre nações, a primeira coisa que cai é a confiança”, afirma o analista. Esse abalo não afeta apenas relações diplomáticas, mas compromete a estabilidade das economias e das próprias moedas fiduciárias.
Na avaliação de Merola, a confiança é um elemento central para a sustentação do sistema financeiro internacional. “Quando não existe confiança, automaticamente não existe demanda por essas moedas”, explica. Nesse ambiente, o ouro surge como um ativo singular, capaz de atravessar fronteiras políticas e econômicas sem sofrer restrições.
“O ouro continua sendo neutro numa relação internacional. Ele é amplamente aceito, negociado e presente em todas as economias”, destaca. Em um mundo cada vez mais polarizado e menos integrado, essa neutralidade se torna uma vantagem estratégica, reforçando o papel do metal como reserva de valor global.
Ouro dispara como ativo neutro em um cenário de desglobalização
A crescente fragmentação do comércio internacional e o avanço de políticas protecionistas ampliam a relevância do ouro. Para Merola, o metal se consolida como uma alternativa globalizada dentro de um mundo em processo de desglobalização.
“A gente não sabe se, no futuro, será possível usar a moeda chinesa para comprar nos Estados Unidos, ou o dólar para comprar na China. O ouro, por outro lado, continua sendo aceito em qualquer lugar”, afirma. Essa característica faz com que o metal preserve valor mesmo em cenários de ruptura das cadeias econômicas e financeiras tradicionais.
Desequilíbrio entre oferta e demanda sustenta a alta
Outro fator estrutural por trás da valorização do ouro é o descompasso entre oferta e demanda. Com o aumento da instabilidade global, a busca pelo metal cresce de forma acelerada, enquanto a produção responde de maneira muito mais lenta.
Embora preços mais elevados tenham viabilizado novos projetos de mineração ao redor do mundo, o analista lembra que a expansão da oferta enfrenta limitações relevantes. “São operações industriais que demoram a ser implementadas e autorizadas, principalmente por questões ambientais”, explica.
Assim, mesmo com o avanço da produção, o ritmo é insuficiente para acompanhar o crescimento da demanda, criando um cenário estruturalmente favorável à valorização do metal.
Bancos centrais lideram mudança estrutural na demanda
A alta do ouro começou a ganhar força com uma mudança relevante no comportamento dos bancos centrais. Segundo Merola, instituições monetárias passaram a aumentar suas reservas em ouro como resposta à crescente instabilidade do sistema financeiro internacional.
Um ponto de inflexão foi o congelamento de parte das reservas russas mantidas nos Estados Unidos, episódio que representou uma quebra significativa de confiança. “Os bancos centrais passaram a comprar ouro como alternativa à moeda americana e aos títulos da dívida dos EUA”, afirma.
Esse movimento reduziu a dependência histórica dos títulos do Tesouro americano e reforçou o papel do ouro como ativo estratégico nas reservas internacionais.
Investidores ganham espaço e reduzem peso da joalheria
Além dos bancos centrais, investidores institucionais e pessoas físicas vêm assumindo um papel cada vez mais relevante na demanda por ouro. Historicamente, cerca de 60% do metal era destinado à produção de joias, mas essa participação vem diminuindo com a escalada dos preços.
“O encarecimento do ouro torna as joias menos acessíveis para consumo, enquanto aumenta o interesse do investidor que busca proteção patrimonial”, explica Merola. Esse fenômeno é especialmente visível em países como China e Índia, onde o ouro tem forte apelo cultural como forma de poupança e preservação de riqueza.
A demanda também cresce por meio de instrumentos financeiros, como ETFs lastreados em ouro, que vêm registrando fluxos significativos nos últimos anos.
Dólar, inflação e a migração para ativos reais
A relação entre o ouro e o dólar segue relevante, embora não seja o único fator em jogo. Historicamente, períodos de enfraquecimento da moeda americana favorecem o metal precioso, e esse padrão tem se repetido recentemente.
“O dólar vem se desvalorizando, tanto por políticas públicas dos Estados Unidos quanto pelo ruído geopolítico, e isso acaba impulsionando o ouro”, afirma Merola. Ainda assim, ele ressalta que o movimento atual é mais amplo.
“O mundo está saindo de ativos monetários e migrando para ativos reais”, diz. Em um ambiente de inflação persistente e incerteza política, investidores buscam proteção em ativos tangíveis, como commodities e ações, o que ajuda a explicar o bom desempenho de diferentes classes de ativos ao redor do mundo.
Perspectivas: o único freio seria a paz
Para Merola, os gatilhos que sustentam a valorização do ouro continuam se acumulando. Conflitos comerciais, guerras regionais, disputas territoriais e políticas protecionistas surgem em sequência, reforçando a demanda por ativos seguros.
“Hoje é muito mais fácil prever o que teria que acontecer para essa alta não continuar do que o contrário”, afirma. Na visão do analista, o único fator capaz de reverter essa tendência de forma consistente seria um cenário de paz econômica e geopolítica global.
“Essa paz é fácil de explicar, mas muito difícil de realizar”, conclui. Enquanto não houver sinais claros de apaziguamento dos conflitos, o ouro deve seguir ocupando um papel central na estratégia de proteção dos investidores em um mundo marcado pela incerteza.






