O novo Livro Bege, relatório periódico do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) sobre as condições econômicas dos Estados Unidos, traz um recado central: o petróleo mais caro virou o fio condutor da inflação no país. Segundo o documento, os preços mais altos do petróleo “permearam todos os relatórios distritais”, ou seja, apareceram nas avaliações dos 12 distritos do Fed. Mas o que chama a atenção nesse relatório da autoridade monetária, é o fato de que o impacto da Inteligência Artificial já se faz presente no mercado de trabalho por lá.
Segundo o documento, a maioria dos distritos viu pouca ou nenhuma mudança no emprego. A oferta de mão de obra foi considerada adequada, embora persista a escassez de trabalhadores especializados, técnicos e de ofícios qualificados.
Um ponto chama atenção: cinco distritos relataram que empresas reduziram quadros por rotatividade natural, adiaram contratações ou projetaram menos vagas após ganhos de produtividade com investimentos em inteligência artificial.
Nos salários, cinco distritos descreveram crescimento moderado, quatro, modesto e dois, leve. Parte da pressão vem da inflação, com trabalhadores pedindo reajustes para cobrir o custo de vida, e do aumento dos gastos com benefícios. Em Boston, recrutadores observaram que os trabalhadores buscavam novos empregos porque os aumentos ficaram abaixo da inflação.
Impacto do petróleo
Com relação ao preço do petróleo, as empresas relataram preços elevados do diesel e disseram que as sobretaxas de combustível estão repassando os custos ao longo da cadeia de suprimentos. Em Kansas City, o diesel e o frete foram apontados como as principais preocupações, por pressionarem as margens de lucro. Em Cleveland, o varejo enfrenta demanda menor por causa dos combustíveis mais caros, e em Richmond o consumo segue sólido, mas é corroído pela alta da gasolina. Em Boston, o óleo de aquecimento residencial subiu de forma acentuada em relação ao ano anterior, o que aumenta a preocupação com os custos do inverno.
No balanço geral de preços, três distritos classificaram o crescimento como robusto e oito, como moderado. Três desses oito notaram que as pressões sobre os preços dos insumos estavam se intensificando. Além disso, quatro distritos relataram aceleração no ritmo de aumento em relação ao período anterior.
Atividade econômica: pouco movimento
O Livro Bege aponta ainda que dois distritos registraram crescimento moderado, três, modesto, quatro, leve, e três não viram mudança significativa. Dallas liderou, puxado por uma indústria que cresceu de forma robusta e generalizada. Outros seis distritos relataram crescimento modesto a moderado na manufatura, enquanto cinco observaram pouco ou nenhum avanço no setor.
O consumo ficou praticamente estável na maior parte do país, e mais da metade dos distritos afirmou que os gastos foram sustentados por famílias de alta renda. Em Dallas, apesar de vendas sólidas no varejo, houve relatos de clientes de menor renda mais cautelosos. As vendas de automóveis ficaram estáveis ou um pouco menores em cinco dos seis distritos que informaram dados.
O turismo continuou a crescer, mas empresas de Boston, Minneapolis e São Francisco notaram queda nas vendas para turistas canadenses
Margens apertadas e preços em alta
Empresas voltadas ao consumidor final relataram margens menores, já que clientes sensíveis a preço resistem aos reajustes. A resposta tem sido aumentar preços de forma seletiva, oferecer incentivos pontuais e ajustar cardápios para cortar custos.
Companhias de vários distritos citaram incerteza persistente com energia e tarifas e esperam novas altas nos próximos meses, conforme contratos atuais vencerem e for preciso renegociar acordos de hedge e de entrega.
A maioria dos distritos disse que as empresas mantêm visão positiva para os próximos meses, mas com expectativa de crescimento moderado, maior ênfase na indústria e incertezas persistentes. O Livro Bege é um dos documentos acompanhados pelo mercado para calibrar apostas sobre a política monetária do Fed, e o quadro de inflação em aceleração com atividade fraca tende a manter o debate sobre juros no centro das atenções.
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