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Fitch vê inadimplência elevada e crédito restrito no varejo brasileiro até 2027

Fitch vê inadimplência elevada e crédito restrito no varejo brasileiro até 2027

A mediana dos créditos vencidos há mais de 90 dias entre as varejistas que operam serviços financeiros atingiu 14,4% no primeiro trimestre

O varejo brasileiro deve continuar enfrentando um cenário desafiador para as operações de crédito ao consumidor ao longo de 2026. A avaliação é da Fitch Ratings, que projeta a manutenção de elevados índices de inadimplência e uma recuperação apenas gradual a partir de 2027, em um contexto marcado pelo alto endividamento das famílias, juros elevados e pressão sobre a renda dos consumidores.

Segundo a agência de classificação de risco, a mediana dos créditos vencidos há mais de 90 dias entre as varejistas que operam serviços financeiros atingiu 14,4% no primeiro trimestre de 2026. O índice representa um patamar cerca de 50% superior ao registrado antes da pandemia de Covid-19.

Na avaliação da Fitch, a melhora da inadimplência é improvável ainda neste ano, principalmente devido à expectativa de manutenção de taxas de juros elevadas por um período mais prolongado. Além disso, fatores como a inflação persistente e o crescimento das apostas online seguem reduzindo a renda disponível das famílias para o consumo.

Oferta de produtos sem garantia

Outro fator que contribuiu para a deterioração dos indicadores foi a expansão da oferta de produtos de crédito sem garantia, especialmente cartões de crédito e empréstimos pessoais destinados a consumidores com maior perfil de risco. A agência destaca que a concentração nessas modalidades torna as carteiras mais vulneráveis a oscilações do ambiente econômico.

Para 2027, o cenário-base da Fitch prevê uma melhora gradual. A expectativa é de que a mediana da inadimplência do setor recue para a faixa entre 12% e 13%, considerando um ambiente sem choques externos relevantes, inflação próxima de 4% e redução das taxas médias de juros em relação a 2026.

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Apesar da perspectiva de melhora, a agência alerta que esse cenário poderá ser comprometido caso as empresas ampliem significativamente a concessão de crédito ou caso a inflação e os juros recuem em ritmo inferior ao esperado. Como fator de proteção, a Fitch destaca os níveis de provisão para perdas com créditos inadimplentes. No primeiro trimestre deste ano, a mediana da cobertura por provisões para devedores duvidosos (PDD) alcançou 104% da carteira vencida há mais de 90 dias, indicando uma gestão considerada adequada dos riscos pelas financeiras ligadas ao varejo.

Estratégias variam entre as empresas

Entre as empresas classificadas pela Fitch, o Mercado Livre, por meio do Mercado Pago, foi o que apresentou a expansão mais significativa da carteira de crédito. Ao final do primeiro trimestre de 2026, o portfólio somava cerca de R$ 76 bilhões na América Latina, sendo aproximadamente 25% referentes ao mercado brasileiro. A operação registrou inadimplência entre 17% e 18%, acima da média dos concorrentes, mas manteve margem positiva entre 18% e 23% e cobertura de provisões próxima de 150%.

A Guararapes, controladora da Riachuelo, apresentou a maior taxa de inadimplência entre as empresas avaliadas, de 18,3%, embora o indicador represente melhora em relação ao pico superior a 24% registrado em 2023. A Midway Financeira, braço financeiro da companhia, mantém provisões equivalentes a cerca de 90% da carteira inadimplente.

A C&A também apresentou evolução positiva, reduzindo o índice de atrasos para aproximadamente 13%, após registrar níveis próximos de 20% no início das operações de sua financeira. A empresa mantém cobertura superior a 100% sobre os créditos vencidos e, assim como a Guararapes, adota uma política mais conservadora na concessão de crédito, preservando carteiras praticamente estáveis.

Na Havan, a estratégia também tem sido de cautela. A carteira de crédito está em torno de R$ 4 bilhões, abaixo da média dos últimos três anos. A companhia reduziu limites de crédito e o número mínimo de parcelas para parte dos clientes, mantendo a inadimplência próxima de 9%, em linha com seu histórico, e cobertura superior a 110%.

Entre as empresas não classificadas pela Fitch, Magazine Luiza e Grupo Casas Bahia reportaram índices de inadimplência próximos de 8%, com carteiras de crédito estáveis. O Magazine Luiza se destaca pela elevada cobertura da carteira vencida, superior a 150%, resultado atribuído ao relacionamento histórico com consumidores de baixa renda e à experiência em análise e cobrança de crédito.

A exceção entre os principais varejistas é a Pernambucanas, por meio da Pefisa, que registrou inadimplência superior a 90 dias de 22%, a mais elevada entre as empresas citadas, apesar do crescimento modesto de 4% na concessão de crédito no primeiro trimestre. A cobertura de provisões gira em torno de 80%, abaixo da média do setor.

Conservadorismo deve prevalecer

Diante desse cenário, a Fitch avalia que as financeiras ligadas ao varejo brasileiro deverão manter uma postura conservadora na originação de crédito ao consumidor. A estratégia tende a priorizar ajustes nos limites concedidos, reprecificação dos riscos e preservação da qualidade das carteiras, deixando em segundo plano iniciativas de expansão mais acelerada das operações.

Para a agência, enquanto persistirem juros elevados, inflação pressionada e restrições na renda das famílias, o foco das varejistas continuará sendo a rentabilidade e a qualidade dos ativos, em vez do crescimento do crédito.

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