A Raízen (RAIZ4) deu um passo relevante em seu processo de reestruturação financeira ao apresentar o plano definitivo de recuperação extrajudicial, já com adesão de credores que representam 75,5% dos créditos incluídos.
Considerada a maior operação do tipo no país, a proposta combina múltiplos instrumentos financeiros e institucionais para reduzir alavancagem e reequilibrar a estrutura de capital.
Na avaliação do banco Safra, o plano reúne condições para reposicionar a companhia ao longo dos próximos anos, ainda que envolva diferentes riscos e escolhas estratégicas para os credores.
“Uma vez consolidado o plano, há chances materiais de a companhia reequilibrar sua estrutura de capital no médio e longo prazo, dado sua robustez operacional”, afirmam os analistas Yuri Machado e Roberto Pasqualini.
Adesão ao plano
A empresa informou nesta sexta-feira (12) que, após a submissão de seu plano, que abrange créditos financeiros e quirografários sujeitos à recuperação extrajudicial, no montante total de R$ 64,7 bilhões, excluídos os créditos intercompany (os créditos reestruturados), recebeu e protocolou novas adesões que elevaram o percentual de apoio ao plano de 75,45% para 80,15% dos créditos reestruturados.
Publicidade
Publicidade
“Esse apoio adicional ratifica a ampla adesão ao Plano como solução abrangente para a reestruturação do endividamento financeiro do Grupo Raízen, com o objetivo de equacionar suas necessidades de liquidez de curto e médio prazo e estabelecer uma estrutura de capital sustentável no longo prazo”, disse a Raízen.
O principal pilar da reestruturação é a injeção de até R$ 4 bilhões em capital novo, com participação decisiva da Shell, que se comprometeu com R$ 3,5 bilhões. O aporte é condição obrigatória para a conclusão da operação e servirá como base para recompor a estrutura financeira da companhia.
Os recursos serão combinados com a conversão de parte relevante da dívida em ações, criando um novo equilíbrio entre credores e acionistas. O preço de referência para essa conversão foi fixado em R$ 0,25 por ação.
“A injeção primária de capital pelos acionistas controladores é a âncora da reestruturação e reforça o compromisso com a sustentabilidade financeira da companhia”, dizem Machado e Pasqualini.
(Imagem: Divulgação/ Raízen)
Separação de negócios redefine a estrutura
Outro componente relevante do plano é a segregação das operações em duas unidades independentes: Raízen Combustíveis e Raízen Energia. A divisão será implementada até o fim de 2027 e terá impactos diretos na forma como investidores analisam risco e geração de caixa.
Cada unidade passará a operar com ativos, passivos e fluxos próprios, sem garantias cruzadas relevantes, permitindo uma avaliação mais clara das respectivas teses de crédito. A dívida reestruturada será distribuída proporcionalmente entre as duas operações.
“A separação em duas empresas cria maior transparência e permite avaliar individualmente os perfis de risco e alavancagem de cada unidade”, afirmam os analistas.
O plano oferece três alternativas de pagamento, com implicações distintas em termos de liquidez, risco e retorno. A opção A, considerada a principal, prevê a conversão de 45% da dívida em ações e 55% em novos títulos de dívida com vencimentos alongados.
Já a opção B impõe um haircut de 80% e pagamento apenas no longo prazo, enquanto a opção C prevê liquidação à vista para pequenos credores, com limite financeiro estabelecido.
“As opções apresentam um trade-off claro entre recuperação imediata de caixa, exposição ao risco de equity e alongamento de prazo com risco de execução”, destacam Machado e Pasqualini.
Quadro comparativo das opções
Condição tributária é fator crítico
Apesar da robustez da estrutura, o plano depende de condições relevantes para sua efetivação. A principal delas é a conclusão de um acordo tributário com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e a Receita Federal, envolvendo contingências estimadas em R$ 24,6 bilhões.
O prazo para cumprimento dessas condições vai até março de 2027, podendo ser estendido por até seis meses no caso específico da negociação tributária.
“O sucesso da transação tributária é o principal fator crítico para o fechamento da operação e pode influenciar diretamente o cronograma da reestruturação”, afirmam os analistas.
(Imagem: Divulgação/ Raízen)
Origem da crise mistura fatores internos e externos
O Safra aponta que a situação financeira da companhia é resultado da convergência de fatores estruturais e conjunturais. Entre eles, um ciclo de expansão agressivo financiado por dívida, deterioração macroeconômica com juros elevados, impactos climáticos sobre a produção de cana e volatilidade nas operações internacionais.
Nesse contexto, a companhia atingiu um nível de alavancagem de cerca de 5,3 vezes dívida líquida sobre EBITDA, pressionando seu balanço e exigindo uma solução abrangente.
“A reestruturação busca endereçar simultaneamente questões operacionais, financeiras e de governança, em um plano de múltiplas camadas”, concluem Machado e Pasqualini.