O governo brasileiro publicou nesta sexta-feira (26) duas novas regulamentações detalhando a implementação do novo arcabouço de garantias para empréstimos consignados privados CLT.
As normas estabelecem que tomadores poderão oferecer até 10% do saldo do FGTS, 100% da multa rescisória do FGTS e até 35% das verbas rescisórias como garantia — mas as duas primeiras modalidades se aplicam apenas a novas originações, não migrando automaticamente para a carteira existente.
A segunda regulamentação introduz uma distinção comercial relevante: empréstimos originados sem garantias permanecem sem teto de juros, enquanto aqueles que utilizam o novo pacote de garantias ficam sujeitos a taxa máxima de 1,99% ao mês, ou 2,99% no custo efetivo total (CET).
“O teto veio em um nível tão baixo que, com base em nossas conversas com grandes bancos, bancos médios e fintechs, acreditamos que a originação usando as novas garantias pode ser bastante limitada”, afirmaram os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, do BTG Pactual.
Garantias cobrem fração pequena do empréstimo
O principal problema é matemático. Com ticket médio dos empréstimos entre R$ 3 mil e R$ 4 mil no Pine, as novas garantias cobrem apenas cerca de 20% do valor concedido — o que limita a redução nas perdas esperadas e torna difícil rentabilizar uma operação a 1,99% ao mês.
“O ticket médio de quase R$ 3 mil a R$ 6 mil torna a relevância das três garantias em relação ao total do empréstimo geralmente não muito significativa”, destacaram Rosman, Buchpiguel e Pascale.
Em teoria, se o Pine reduzisse o tamanho dos empréstimos para R$ 1 mil para o mesmo perfil de cliente, as garantias representariam cerca de 70% do valor concedido.
Nesse cenário, assumindo redução de 50% nas perdas esperadas dado o risco de execução das garantias, o resultado ainda seria “relativamente em linha com a redução da taxa de juros, considerando a taxa média atual do Pine de 4,2% ao mês versus o novo teto de 1,99%”, calcularam os analistas.
Risco de maior concorrência no horizonte
O BTG identifica dois riscos principais para o Pine. Primeiro, se participantes relevantes decidirem originar com garantias à taxa tabelada de 1,99% sem reduzir substancialmente os tickets, isso poderia se tornar um vento contrário para as originações do banco — embora o BTG avalie esse risco como menor com base em suas conversas com o mercado.
Segundo, se a execução das garantias funcionar de forma eficiente ao longo do tempo, a vantagem operacional do Pine em navegar os gargalos do produto perderia relevância.
“O que poderia realmente pressionar a rentabilidade para esses players, em nossa visão, é que os gargalos operacionais sejam resolvidos, permitindo que bancos maiores com relacionamentos mais fortes com clientes, como incumbentes e Nubank, comecem a operar de forma mais agressiva nesse produto”, alertaram Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale.
A notícia de hoje sinaliza que esse processo pode já estar em curso.
BTG reitera compra após queda de 25%
Apesar do cenário mais desafiador, o BTG mantém recomendação de compra para o Pine. O banco já acumula queda de aproximadamente 25% desde a máxima recente e negocia a cerca de 4,2 vezes o lucro estimado para 2026, com resultado esperado para quase dobrar no ano.
“Esse múltiplo parece baixo demais para um banco com forte momentum de lucros, capital em melhora, ROE elevado e um produto no qual a execução operacional parece ser uma vantagem competitiva real”, concluíram os analistas.
Um ponto positivo da regulamentação é que os 35% das verbas rescisórias podem ser usados como garantia para a carteira existente — aliviando preocupações de que todos os colaterais estariam disponíveis apenas para novas originações com o teto de juros. No curto prazo, o BTG espera impacto limitado, assumindo que a execução das garantias não funcionará de forma perfeita desde o primeiro dia.
Contudo, à medida que as garantias se mostrarem eficazes, bancos como o Nubank (ROXO34) podem se tornar mais presentes nas originações de baixo ticket, intensificando a competição no segmento.
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