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Petrobras chega mais forte ao debate eleitoral, avalia BTG, que eleva projeções

Petrobras chega mais forte ao debate eleitoral, avalia BTG, que eleva projeções

Produção de 2,68 milhões de barris por dia supera a meta anual, e a revisão do número pode sair já em outubro, avalia o banco

O BTG Pactual elevou o preço-alvo da Petrobras (PETR3; PETR4) para R$ 65 por ação ao fim de 2027 e reiterou a recomendação de compra. A estatal segue como a ação preferida do banco no setor de petróleo e gás no Brasil.

Para a PETR4, cotada a R$ 49,20, o novo alvo indica potencial de valorização de 32%, que chega a 43% com os dividendos projetados. Na PETR3, a R$ 54,70, a alta estimada é de 19%. Nos recibos negociados em Nova York (ADR), o alvo foi para US$ 26.

A revisão chega com a campanha presidencial iniciada oficialmente em agosto e com petróleo e combustíveis em alta. A combinação recolocou a companhia no centro do debate político e reacendeu dúvidas sobre preços, investimentos e eficiência.

“Acreditamos que a Petrobras entra neste debate a partir de uma posição muito mais forte do que em ciclos eleitorais anteriores”, escreveram os analistas Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual.

A mudança aparece nas planilhas. O banco elevou em cerca de 12% as estimativas de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2026 e 2027, a US$ 68,603 bilhões e US$ 63,759 bilhões.

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O lucro líquido projetado para 2026 subiu 21%, para US$ 33,694 bilhões, e ficou 17% acima do consenso de mercado. Para 2027, a estimativa é de US$ 25,885 bilhões, alta de 20% sobre a projeção anterior.

Produção passa da meta

A Petrobras produz em média 2,68 milhões de barris por dia no acumulado de 2026, acima da meta de 2,4 milhões a 2,6 milhões. O novo modelo do BTG, feito plataforma por plataforma, projeta 2,73 milhões neste ano, 2,84 milhões em 2027 e 2,88 milhões em 2028.

Três fatores explicam o salto. O primeiro é a produtividade dos poços do pré-sal, com alguns em Búzios passando de 30 mil barris por dia cada. O segundo é a autorização para operar acima da capacidade nominal.

O caso mais claro é o FPSO (unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência) Almirante Tamandaré. A plataforma produziu cerca de 263 mil barris por dia em julho, para capacidade nominal de 225 mil, e tem aval para chegar a 270 mil.

O terceiro fator é a entrada em operação de novas unidades. Outras três plataformas chegam a Búzios nos próximos trimestres, o que deve manter o ritmo dos últimos meses.

Com esse desempenho, o BTG vê como cada vez mais provável uma revisão da meta de 2026 no curto prazo, como ocorreu em 2023. A curva de cinco anos deve ser ajustada com o plano estratégico, no fim de novembro.

Refino segue lucrativo, apesar do ruído

A Petrobras processa de 1,8 milhão a 1,9 milhão de barris por dia nas refinarias. Com os preços atuais e as subvenções em vigor, o BTG calcula preço realizado de cerca de US$ 135 por barril no diesel e US$ 101 na gasolina.

Com a nova subvenção, o diesel pode chegar a US$ 167. Diferente de 2013 e 2014, a estatal não é mais responsável por importar grandes volumes para abastecer o país, e o custo de extração caiu de US$ 14,6 por barril em 2014 para US$ 9,0.

O episódio recente da gasolina, contudo, arranhou a confiança dos investidores. A Petrobras anunciou alta adicional de R$ 0,19 por litro e voltou atrás poucas horas depois, sem explicação detalhada.

Ao mesmo tempo, o governo autorizou subvenção extra ao diesel de até R$ 1,00 por litro. O ganho para a estatal depende da regulamentação final e da parcela que ficar com a companhia.

“Acreditamos que a administração segue coordenando de perto com o governo para preservar uma rentabilidade adequada e limitar o impacto dos preços internacionais sobre os consumidores, embora isso reduza a previsibilidade das decisões comerciais”, avaliaram Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual.

Restam duas perguntas para os próximos meses. A primeira é se a Petrobras vai reajustar os combustíveis depois das eleições; a segunda, se o governo manterá as subvenções durante o período eleitoral.

Para Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual, essa hipótese ainda fica fora da conta: “Acreditamos que um ajuste de preços após as eleições é possível, mas não o incorporamos ao nosso cenário-base”.

Para 2027, o banco trabalha com preços parecidos com os atuais, independentemente do crack spread (diferença entre o preço do derivado e o do petróleo). A leitura é que a estatal só acompanha os preços internacionais de longe.

Corte de despesas é alavanca de médio prazo

Fora do cenário-base, o BTG identifica quatro alavancas de valor. A primeira é reduzir as despesas gerais, administrativas e de vendas (SG&A, na sigla em inglês), com compras mais eficientes, portfólio mais enxuto e desativação de ativos hibernados que queimam caixa.

Pelas contas do banco, um corte de US$ 3 bilhões por ano geraria valor presente líquido de US$ 23 bilhões, o equivalente a cerca de US$ 3 por ADR. A mudança, no entanto, não deve ser rápida, já que algumas medidas trazem gastos pontuais no início.

“Esperamos que o mercado adote uma postura cuidadosa até que as otimizações de custo se tornem visíveis”, apontaram Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual.

A segunda alavanca envolve os investimentos (capex). O banco vê pouco espaço para cortes na exploração e produção, onde a companhia já assumiu projetos do pré-sal com alguns dos barris de menor custo do mundo.

Um corte de US$ 1 bilhão a US$ 3 bilhões por ano elevaria o retorno médio do fluxo de caixa livre para o acionista (FCFE) de 2027 e 2028 de 14% para 15% a 16%. Adiar projetos rentáveis, porém, pode destruir valor.

Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual, deslocam a discussão para outro ponto: “Acreditamos que o debate sobre capex está mais ligado à possibilidade de a Petrobras aumentar os investimentos além dos projetos já em desenvolvimento”.

Fertilizantes, distribuição, petroquímica e transição energética são as áreas com maior potencial de revisão de prioridades. Um plano centrado em exploração e produção seria positivo se limitar gastos de menor retorno e preservar os projetos do pré-sal em andamento.

Venda de ativos e custo de capital

A terceira alavanca é a reciclagem do portfólio. O BTG estima que um novo programa de venda de ativos maduros, cada vez menos centrais para a estatal, poderia render de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões brutos.

O dinheiro poderia financiar novas fronteiras, como a Margem Equatorial, ou pagar dividendos extraordinários. O tema ganha peso se a exploração na região der certo e exigir um novo ciclo de desenvolvimento ao lado do pré-sal.

A quarta alavanca depende de previsibilidade. Mais clareza sobre os investimentos e adesão contínua à estratégia comercial de preços poderiam reduzir o Ke (custo de capital próprio), hoje pressionado pelo desconto político e de governança.

O efeito seria grande. O alvo de R$ 65 considera Ke de 17,5%; com 16,5%, o valor justo sobe para R$ 70 por ação, e com 14,5%, chega a R$ 84.

O banco lembra ainda que a Lei das Estatais, o estatuto mais rígido, o longo prazo de maturação dos projetos e a carteira extensa reduzem o risco de uma piora repentina na alocação de capital.

Plano estratégico deve reforçar o caixa

O plano estratégico, previsto para o fim de novembro, deve trazer produção maior e investimentos possivelmente mais altos, pressionados por câmbio e inflação. As premissas para petróleo e margens de refino também tendem a subir.

O plano atual usa câmbio de R$ 5,70 por dólar e Brent a US$ 63 por barril em 2026, enquanto o BTG trabalha com US$ 83. No diesel, o banco projeta crack spread de US$ 55 por barril neste ano, ante US$ 20 no plano.

O efeito líquido, portanto, deve ser positivo. Na visão do banco, a produção maior e o cenário mais favorável para o petróleo compensam com folga o aumento do capex.

Retorno acima das petroleiras globais

O BTG estima que a Petrobras gere cerca de US$ 22 bilhões de FCFE nos próximos 12 meses e pague em torno de US$ 15 bilhões em dividendos. Os valores equivalem a retornos de 16% e 11% sobre o valor de mercado.

Para 2027, os percentuais projetados são de 14% e 10%, contra médias de 10% e 8% entre as petroleiras globais. Shell e TotalEnergies, por exemplo, têm retorno com dividendos estimado em 7,8%.

Mesmo no preço-alvo, a ação ainda negociaria com retorno de 11% em FCFE e 8% em dividendos. A dívida líquida deve recuar de US$ 27,292 bilhões em 2025 para US$ 22,710 bilhões neste ano.

O petróleo segue como a variável central. Com Brent a US$ 50 em 2027, o retorno com dividendos cairia para 7,1%; a US$ 100, subiria para 14,6%.

Entre os riscos, o BTG aponta a exploração, a execução de novos projetos, a volatilidade das commodities e o câmbio. Pesa também a possível troca de comando a cada eleição presidencial, com reflexo sobre a autonomia da estatal para definir preços.