O BTG Pactual elevou o preço-alvo da Petrobras (PETR3; PETR4) para R$ 65 por ação ao fim de 2027 e reiterou a recomendação de compra. A estatal segue como a ação preferida do banco no setor de petróleo e gás no Brasil.
Para a PETR4, cotada a R$ 49,20, o novo alvo indica potencial de valorização de 32%, que chega a 43% com os dividendos projetados. Na PETR3, a R$ 54,70, a alta estimada é de 19%. Nos recibos negociados em Nova York (ADR), o alvo foi para US$ 26.
A revisão chega com a campanha presidencial iniciada oficialmente em agosto e com petróleo e combustíveis em alta. A combinação recolocou a companhia no centro do debate político e reacendeu dúvidas sobre preços, investimentos e eficiência.
“Acreditamos que a Petrobras entra neste debate a partir de uma posição muito mais forte do que em ciclos eleitorais anteriores”, escreveram os analistas Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual.
A mudança aparece nas planilhas. O banco elevou em cerca de 12% as estimativas de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) para 2026 e 2027, a US$ 68,603 bilhões e US$ 63,759 bilhões.
O lucro líquido projetado para 2026 subiu 21%, para US$ 33,694 bilhões, e ficou 17% acima do consenso de mercado. Para 2027, a estimativa é de US$ 25,885 bilhões, alta de 20% sobre a projeção anterior.
Produção passa da meta
A Petrobras produz em média 2,68 milhões de barris por dia no acumulado de 2026, acima da meta de 2,4 milhões a 2,6 milhões. O novo modelo do BTG, feito plataforma por plataforma, projeta 2,73 milhões neste ano, 2,84 milhões em 2027 e 2,88 milhões em 2028.
Três fatores explicam o salto. O primeiro é a produtividade dos poços do pré-sal, com alguns em Búzios passando de 30 mil barris por dia cada. O segundo é a autorização para operar acima da capacidade nominal.
O caso mais claro é o FPSO (unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência) Almirante Tamandaré. A plataforma produziu cerca de 263 mil barris por dia em julho, para capacidade nominal de 225 mil, e tem aval para chegar a 270 mil.
O terceiro fator é a entrada em operação de novas unidades. Outras três plataformas chegam a Búzios nos próximos trimestres, o que deve manter o ritmo dos últimos meses.
Com esse desempenho, o BTG vê como cada vez mais provável uma revisão da meta de 2026 no curto prazo, como ocorreu em 2023. A curva de cinco anos deve ser ajustada com o plano estratégico, no fim de novembro.
Refino segue lucrativo, apesar do ruído
A Petrobras processa de 1,8 milhão a 1,9 milhão de barris por dia nas refinarias. Com os preços atuais e as subvenções em vigor, o BTG calcula preço realizado de cerca de US$ 135 por barril no diesel e US$ 101 na gasolina.
Com a nova subvenção, o diesel pode chegar a US$ 167. Diferente de 2013 e 2014, a estatal não é mais responsável por importar grandes volumes para abastecer o país, e o custo de extração caiu de US$ 14,6 por barril em 2014 para US$ 9,0.
O episódio recente da gasolina, contudo, arranhou a confiança dos investidores. A Petrobras anunciou alta adicional de R$ 0,19 por litro e voltou atrás poucas horas depois, sem explicação detalhada.
Ao mesmo tempo, o governo autorizou subvenção extra ao diesel de até R$ 1,00 por litro. O ganho para a estatal depende da regulamentação final e da parcela que ficar com a companhia.
“Acreditamos que a administração segue coordenando de perto com o governo para preservar uma rentabilidade adequada e limitar o impacto dos preços internacionais sobre os consumidores, embora isso reduza a previsibilidade das decisões comerciais”, avaliaram Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual.
Restam duas perguntas para os próximos meses. A primeira é se a Petrobras vai reajustar os combustíveis depois das eleições; a segunda, se o governo manterá as subvenções durante o período eleitoral.
Para Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual, essa hipótese ainda fica fora da conta: “Acreditamos que um ajuste de preços após as eleições é possível, mas não o incorporamos ao nosso cenário-base”.
Para 2027, o banco trabalha com preços parecidos com os atuais, independentemente do crack spread (diferença entre o preço do derivado e o do petróleo). A leitura é que a estatal só acompanha os preços internacionais de longe.
Corte de despesas é alavanca de médio prazo
Fora do cenário-base, o BTG identifica quatro alavancas de valor. A primeira é reduzir as despesas gerais, administrativas e de vendas (SG&A, na sigla em inglês), com compras mais eficientes, portfólio mais enxuto e desativação de ativos hibernados que queimam caixa.
Pelas contas do banco, um corte de US$ 3 bilhões por ano geraria valor presente líquido de US$ 23 bilhões, o equivalente a cerca de US$ 3 por ADR. A mudança, no entanto, não deve ser rápida, já que algumas medidas trazem gastos pontuais no início.
“Esperamos que o mercado adote uma postura cuidadosa até que as otimizações de custo se tornem visíveis”, apontaram Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual.
A segunda alavanca envolve os investimentos (capex). O banco vê pouco espaço para cortes na exploração e produção, onde a companhia já assumiu projetos do pré-sal com alguns dos barris de menor custo do mundo.
Um corte de US$ 1 bilhão a US$ 3 bilhões por ano elevaria o retorno médio do fluxo de caixa livre para o acionista (FCFE) de 2027 e 2028 de 14% para 15% a 16%. Adiar projetos rentáveis, porém, pode destruir valor.
Rodrigo Almeida e Gustavo Cunha, do BTG Pactual, deslocam a discussão para outro ponto: “Acreditamos que o debate sobre capex está mais ligado à possibilidade de a Petrobras aumentar os investimentos além dos projetos já em desenvolvimento”.
Fertilizantes, distribuição, petroquímica e transição energética são as áreas com maior potencial de revisão de prioridades. Um plano centrado em exploração e produção seria positivo se limitar gastos de menor retorno e preservar os projetos do pré-sal em andamento.
Venda de ativos e custo de capital
A terceira alavanca é a reciclagem do portfólio. O BTG estima que um novo programa de venda de ativos maduros, cada vez menos centrais para a estatal, poderia render de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões brutos.
O dinheiro poderia financiar novas fronteiras, como a Margem Equatorial, ou pagar dividendos extraordinários. O tema ganha peso se a exploração na região der certo e exigir um novo ciclo de desenvolvimento ao lado do pré-sal.
A quarta alavanca depende de previsibilidade. Mais clareza sobre os investimentos e adesão contínua à estratégia comercial de preços poderiam reduzir o Ke (custo de capital próprio), hoje pressionado pelo desconto político e de governança.
O efeito seria grande. O alvo de R$ 65 considera Ke de 17,5%; com 16,5%, o valor justo sobe para R$ 70 por ação, e com 14,5%, chega a R$ 84.
O banco lembra ainda que a Lei das Estatais, o estatuto mais rígido, o longo prazo de maturação dos projetos e a carteira extensa reduzem o risco de uma piora repentina na alocação de capital.
Plano estratégico deve reforçar o caixa
O plano estratégico, previsto para o fim de novembro, deve trazer produção maior e investimentos possivelmente mais altos, pressionados por câmbio e inflação. As premissas para petróleo e margens de refino também tendem a subir.
O plano atual usa câmbio de R$ 5,70 por dólar e Brent a US$ 63 por barril em 2026, enquanto o BTG trabalha com US$ 83. No diesel, o banco projeta crack spread de US$ 55 por barril neste ano, ante US$ 20 no plano.
O efeito líquido, portanto, deve ser positivo. Na visão do banco, a produção maior e o cenário mais favorável para o petróleo compensam com folga o aumento do capex.
Retorno acima das petroleiras globais
O BTG estima que a Petrobras gere cerca de US$ 22 bilhões de FCFE nos próximos 12 meses e pague em torno de US$ 15 bilhões em dividendos. Os valores equivalem a retornos de 16% e 11% sobre o valor de mercado.
Para 2027, os percentuais projetados são de 14% e 10%, contra médias de 10% e 8% entre as petroleiras globais. Shell e TotalEnergies, por exemplo, têm retorno com dividendos estimado em 7,8%.
Mesmo no preço-alvo, a ação ainda negociaria com retorno de 11% em FCFE e 8% em dividendos. A dívida líquida deve recuar de US$ 27,292 bilhões em 2025 para US$ 22,710 bilhões neste ano.
O petróleo segue como a variável central. Com Brent a US$ 50 em 2027, o retorno com dividendos cairia para 7,1%; a US$ 100, subiria para 14,6%.
Entre os riscos, o BTG aponta a exploração, a execução de novos projetos, a volatilidade das commodities e o câmbio. Pesa também a possível troca de comando a cada eleição presidencial, com reflexo sobre a autonomia da estatal para definir preços.






