O mercado global de celulose começa a dar sinais mais claros de entrada em uma fase de correção, com investidores migrando o foco do sentido do movimento para a intensidade da queda dos preços.
Segundo relatório do BTG Pactual, o ambiente permanece desafiador, especialmente na China, principal destino da commodity, onde a demanda segue enfraquecida e os compradores resistem a novos reajustes.
“As condições de mercado para celulose na China seguem desafiadoras”, afirmam os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo, citando dados da Fastmarkets.
Apesar de produtores sul-americanos tentarem sustentar preços entre US$ 600 e US$ 610 por tonelada, compradores reduziram volumes em cerca de 50% desde abril, recorrendo a estoques domésticos e operações de revenda.
China no centro da pressão
O desequilíbrio entre oferta e demanda fica mais evidente diante da baixa rentabilidade da indústria de papel e embalagem no país asiático. Com estoques elevados nos portos e margens comprimidas, consumidores indicam que os preços de importação precisariam cair pelo menos US$ 50 por tonelada para estimular novas compras.
“Esse impasse parece cada vez mais insustentável”, destacam os analistas.
Mesmo com medidas do lado da oferta — como paradas de produção, redução de volumes e migração para outros produtos — a demanda ainda não mostra sinais consistentes de recuperação.
Além disso, o cenário é agravado pela perspectiva de aumento de capacidade global. Projetos relevantes na China, Indonésia e América Latina devem ampliar a oferta nos próximos anos, reforçando a percepção de pressão estrutural sobre os preços.
Debate muda para tamanho da queda
Na avaliação do BTG, o mercado já reconhece que o ciclo de alta perdeu força.
“Vemos sinais cada vez mais claros de que o mercado de celulose está se aproximando do pico deste mini-ciclo”, afirmam Correa, Arazi e Gotardo.
A discussão agora gira em torno de quão profunda será a correção.
O banco projeta preços de celulose de fibra curta (BHK) na faixa de US$ 550 a US$ 570 por tonelada, com menor probabilidade de quedas mais acentuadas abaixo de US$ 500, devido à estrutura de custos da indústria. Ainda assim, os fundamentos de curto prazo permanecem fragilizados.
“O mercado de papel segue sobreofertado e a rentabilidade dos produtores permanece próxima dos níveis mais baixos do ciclo”, dizem os analistas. A fraqueza da demanda final e a compressão das margens continuam limitando qualquer reação mais firme dos preços.
Bolsa já precificou parte do cenário
Apesar da deterioração dos fundamentos, o BTG avalia que o mercado acionário já incorporou boa parte das preocupações.
“As ações do setor já sofreram forte reprecificação nos últimos meses”, apontam os analistas, destacando que o posicionamento dos investidores está leve e o sentimento próximo de mínimas de vários anos.
Nesse contexto, o potencial de novas quedas relevantes nas ações pode ser mais limitado, mesmo diante de revisões negativas de resultados no curto prazo.
“Acreditamos que a maior parte da pressão vendedora já ficou para trás”, afirmam.
A partir daqui, os fatores mais relevantes para o desempenho das empresas devem ir além do preço da celulose. O comportamento do real e o aumento da demanda por hedge cambial, especialmente com a aproximação do ciclo eleitoral no Brasil, passam a ganhar peso nas análises.
Dentro do setor, o BTG mantém preferência por Suzano (SUZB3) em relação à Klabin (KLBN11), destacando o posicionamento mais robusto no mercado global de celulose e a maior alavancagem à dinâmica cambial como fatores de diferenciação no atual cenário.






