O Ibovespa pode ter um “voo de galinha” em reação ao fim da guerra no Irã, mas a situação fiscal do Brasil tende a limitar uma alta mais consistente, segundo análise do Santander baseada em reuniões recentes com investidores institucionais. Na visão do banco, o cenário atual combina alívio externo com fragilidade doméstica, resultando em um mercado sem direção clara.
De acordo com o levantamento, o Brasil não é hoje uma posição consensual entre investidores globais. Hedge funds mantêm exposição reduzida, enquanto fundos long-only demonstram baixa convicção, refletindo cautela diante do ambiente macroeconômico.
“O posicionamento em Brasil segue leve e a convicção ainda é baixa entre grande parte dos investidores”, afirmam os analistas Aline de Souza Cardoso e Ygor Bastos de Araujo.
Posicionamento limita queda, mas também reduz força de alta
O baixo nível de exposição, por um lado, reduz o risco de vendas mais intensas no mercado local. Por outro, a ausência de fluxo comprador relevante dificulta a formação de uma tendência mais positiva para a bolsa.
“Esse cenário reduz o risco de movimentos bruscos de saída, mas também limita o suporte natural de compra para os ativos”, destacam Cardoso e Araujo.
Na prática, o mercado brasileiro tende a responder mais a mudanças de percepção macro do que a fluxos estruturais, tornando-se dependente de gatilhos adicionais para ganhar tração.
Riscos globais seguem no radar
Os investidores também demonstraram preocupação com o ambiente externo, especialmente com a possibilidade de reversão do rali global liderado por empresas de tecnologia e inteligência artificial.
“A preocupação é que uma eventual correção nos ativos ligados à inteligência artificial possa gerar aversão ao risco e pressionar mercados emergentes de forma ampla”, afirmam os analistas.
Esse risco reforça a percepção de que o Brasil dificilmente conseguiria se descolar de movimentos globais negativos, mesmo com valuations considerados atrativos.
Fiscal doméstico é principal fragilidade
No cenário local, o principal ponto de atenção segue sendo a trajetória fiscal. O aumento de gastos em um contexto pré-eleitoral eleva o risco de deterioração simultânea de variáveis como juros, inflação e prêmio de risco.
“A expansão fiscal aumenta a vulnerabilidade do Brasil, com potencial impacto conjunto sobre juros, inflação e prêmio de risco das ações”, dizem Cardoso e Araujo.
Esse fator ajuda a explicar o ceticismo dos investidores quanto à capacidade de o mercado sustentar uma alta mais prolongada, mesmo diante de eventos positivos no exterior.
Alívio externo pode ser apenas tático
Embora o fim das tensões no Oriente Médio e a reabertura do Estreito de Ormuz sejam vistos como positivos, a percepção predominante é que esse tipo de gatilho tem efeito limitado no tempo.
“Um ambiente externo mais benigno pode ajudar taticamente, mas dificilmente sustenta uma alta consistente sem melhora no cenário doméstico”, concluem os analistas.






