A Gerdau (GGBR4) pode enfrentar um impacto mais moderado do que o esperado com a eventual reconfiguração do acordo comercial norte-americano conhecido como USMCA, segundo análise do banco Safra.
As estimativas indicam que, em um cenário-base de rearranjo das regras, a empresa veria uma redução de 7% a 9% no EBITDA normalizado na América do Norte — número significativamente inferior ao recuo de 19% projetado pelo consenso de mercado para o longo prazo. A leitura reforça a percepção de que o risco de revisões positivas nos resultados pode estar subestimado.
O USMCA (Acordo Estados Unidos-México-Canadá) é o tratado que substituiu o Nafta e estabelece as regras de comércio entre os três países. Ele define tarifas, cotas e condições de acesso a mercados, sendo especialmente relevante para setores industriais como o aço.
Nos últimos anos, no entanto, o acordo tem sido tensionado por políticas comerciais mais protecionistas dos Estados Unidos, o que vem motivando discussões sobre sua revisão ou flexibilização.
Cenário-base indica estabilidade com pressões limitadas
Para os analistas Ricardo Monegaglia e Caique Isidoro, o cenário mais provável é o chamado “Zombie USMCA”, em que o acordo permanece formalmente em vigor, mas na prática é substituído por negociações bilaterais entre os Estados Unidos e seus parceiros. “Nossa análise reforça o risco de uma revisão positiva dos resultados na América do Norte nos próximos anos”, afirmam. Nesse contexto, a estabilidade relativa do comércio regional viria acompanhada de tarifas estruturalmente mais elevadas.
Segundo o Safra, esse arranjo tende a limitar as perdas da Gerdau, uma vez que os preços mais baixos do aço nos EUA seriam parcialmente compensados por ganhos operacionais em México e Canadá.
“A flexibilidade do USMCA é negativa na margem, pois a queda de preços nos EUA supera os benefícios capturados nos outros mercados”, escrevem os analistas.
México ganha protagonismo, enquanto Canadá enfrenta pressão
A dinâmica das negociações aponta para avanços mais rápidos entre Estados Unidos e México, deixando o Canadá em uma posição mais delicada. O relatório destaca que o país pode enfrentar negociações prolongadas até 2027, mantendo tarifas elevadas por mais tempo.
“Vemos o México estrategicamente melhor posicionado sob a atual dinâmica de negociação”, dizem Monegaglia e Isidoro.
Esse movimento pode beneficiar os preços do aço mexicano, especialmente se houver normalização do comércio bilateral com os EUA. Já o Canadá, mais dependente das exportações para o mercado americano, tende a seguir absorvendo os efeitos tarifários, aumentando sua exposição a riscos.
Protecionismo segue como pilar estrutural do setor
Outro ponto central da análise é a consolidação da política comercial dos Estados Unidos como instrumento estrutural, e não apenas conjuntural. Tarifas e restrições à importação passaram a funcionar como mecanismos permanentes de suporte à indústria local.
“As tarifas deixaram de ser medidas temporárias e passaram a representar uma ferramenta estrutural de política industrial”, destacam os analistas.
Apesar disso, o Safra ressalta que o principal desafio global do setor não está na demanda americana, que permanece relativamente estável, mas sim no excesso de oferta provocado pela expansão da produção chinesa ao longo das últimas décadas. Esse desequilíbrio global continua moldando os fluxos comerciais e pressionando os preços, especialmente fora dos Estados Unidos.
No balanço geral, a possível reconfiguração do USMCA, longe de representar um choque negativo agudo, pode acabar criando um ambiente mais previsível — ainda que com maiores restrições — para a atuação da Gerdau na América do Norte.
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