As preocupações dos investidores com os impactos das canetas emagrecedoras sobre o setor de varejo farmacêutico ganharam força nos últimos meses, mas analistas avaliam que parte desse movimento pode ter sido excessivo.
Em relatórios recentes, Itaú BBA e XP Investimentos reconhecem os desafios de curto prazo para o mercado de medicamentos da classe GLP-1, mas mantêm uma visão construtiva sobre o potencial de crescimento da categoria nos próximos anos.
O Itaú BBA reduziu o preço-alvo das ações da RD Saúde (RADL3) de R$ 27 para R$ 20, mantendo recomendação neutra. A revisão incorpora os resultados do primeiro trimestre, um cenário de juros mais elevados e uma postura mais cautelosa em relação à evolução do mercado de medicamentos GLP-1, utilizados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.
Apesar da redução na projeção para a varejista, o banco afirma que o pessimismo em torno das canetas emagrecedoras parece exagerado. Desde fevereiro, as ações da RD Saúde acumulam queda de aproximadamente 40%, refletindo a preocupação do mercado com possíveis mudanças na dinâmica de preços e rentabilidade da categoria.
Desempenho inferior
A XP compartilha parte dessa avaliação. Segundo a corretora, as varejistas farmacêuticas registraram desempenho inferior ao mercado devido às dúvidas sobre a evolução do segmento de GLP-1, especialmente diante da maior comparabilidade nas vendas do Mounjaro e da chegada de alternativas à semaglutida, que vêm pressionando os preços dos medicamentos.
Na avaliação da XP, o principal desafio não está na demanda estrutural pelas canetas emagrecedoras, mas na dificuldade de estimar como diferentes fatores poderão influenciar o comportamento dos consumidores e a rentabilidade das empresas.
Entre as variáveis apontadas estão a disposição dos pacientes para iniciar o tratamento conforme os preços recuam, o aumento da oferta de opções de parcelamento, a entrada de novos concorrentes, a evolução das margens de lucro e até fatores sazonais, como inverno e Copa do Mundo, que podem alterar temporariamente o ritmo das vendas.
Mesmo diante dessas incertezas, a XP estima crescimento de 54% para o mercado de GLP-1 em 2027. Em um horizonte mais longo, a corretora acredita que o mercado poderá quadruplicar de tamanho, impulsionado pelo aumento do número de pacientes tratados e pela maior acessibilidade proporcionada pela queda dos preços.
Os analistas também destacam que a redução dos preços não necessariamente implica perda de rentabilidade para o setor. Segundo a XP, o avanço esperado no volume de vendas tende a compensar a compressão das margens, ampliando o lucro bruto nominal gerado pela categoria.
Para avaliar diferentes cenários, a corretora desenvolveu um modelo que separa o mercado entre medicamentos à base de Mounjaro e de semaglutida. A expectativa é que o Mounjaro mantenha uma dinâmica própria de crescimento no curto prazo, enquanto a semaglutida deverá enfrentar maior concorrência de produtos similares e genéricos, intensificando a pressão sobre os preços.
Apesar desse ambiente mais competitivo, a XP considera que as avaliações atuais das redes farmacêuticas já incorporam um cenário bastante negativo. A corretora afirma que, mesmo em uma hipótese considerada improvável de queda anual de 10% nas vendas de GLP-1 em 2027 e margens brutas reduzidas para 16%, os múltiplos de negociação das empresas permanecem atrativos.
Por isso, a XP reiterou recomendação de compra para as principais varejistas farmacêuticas sob sua cobertura, mantendo a RD Saúde como sua principal escolha por considerar que a companhia apresenta perfil mais defensivo diante das transformações no mercado das canetas emagrecedoras.
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