O humor dos investidores americanos em relação ao Brasil mudou em dois meses e agora veem o país como uma “armadilha de valor”, segundo um relato de um roadshow recente do BTG Pactual nos Estados Unidos.
A percepção marca uma virada relevante em relação a abril, quando o Brasil ainda era considerado um porto relativamente seguro dentro dos mercados emergentes.
“A mudança de tom foi bastante clara em relação ao nosso último roadshow”, afirmam os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, em um relatório enviado a clientes nesta sexta-feira (19).
Desde então, o desempenho dos ativos brasileiros tem decepcionado, com o ETF EWZ acumulando queda de 14% no período e diversas ações recuando mais de 20%.
De porto seguro a preocupação com juros
Em abril, a principal tese favorável ao Brasil estava ligada à expectativa de queda de juros, o que diferenciaria o país de outros mercados. Esse cenário, porém, se deteriorou rapidamente com a revisão das projeções para a Selic.
“As expectativas para a taxa de juros subiram de forma consistente, reduzindo um dos principais pilares da tese construtiva”, dizem os analistas.
A projeção que antes apontava para níveis entre 11% e 12% agora se aproxima de 14%, o que pressiona tanto empresas quanto consumidores.
Curiosamente, as eleições presidenciais de outubro aparecem como um fator secundário nas discussões.
“As eleições foram menos relevantes do que esperávamos nas conversas com investidores”, afirmam.
A principal preocupação recai sobre o custo do capital e seus efeitos sobre crescimento e lucros.
Qualidade dos ativos no centro das discussões
A qualidade dos ativos passou a dominar praticamente todas as reuniões, com foco especial no sistema financeiro e na evolução do crédito. Segundo o BTG, esse tema já havia surgido anteriormente, mas ganhou ainda mais peso com o cenário atual.
“A preocupação com qualidade de crédito aumentou significativamente nas últimas semanas”, destacam os analistas.
O receio gira em torno do impacto de juros elevados por mais tempo sobre inadimplência e provisões, especialmente em um cenário de possível desaceleração econômica em 2027.
Além disso, mudanças estruturais no sistema financeiro brasileiro, como o crescimento de fintechs e do crédito digital, tornam mais difícil a comparação com ciclos anteriores. Ainda assim, investidores seguem cautelosos.
Programas e crédito geram dúvidas
Outro ponto de atenção é o papel dos programas governamentais na sustentação do consumo e da qualidade de crédito. Medidas como renegociação de dívidas e expansão do crédito consignado privado estão sendo vistas com certa cautela.
“Muitos investidores acreditam que políticas recentes podem estar mascarando pressões subjacentes na qualidade dos ativos”, dizem Rosman, Buchpiguel e Pascale.
Nesse contexto, mesmo alguns trimestres de desempenho sólido podem não ser suficientes para dissipar as preocupações.
A possibilidade de deterioração mais à frente, especialmente em um cenário de atividade mais fraca, continua no radar dos investidores estrangeiros.
Valuation atrativo, mas sem gatilhos
Apesar do aumento do ceticismo, há consenso de que os ativos brasileiros ficaram mais baratos após a correção recente.
“As avaliações parecem mais atrativas, e essa foi uma visão amplamente compartilhada nas reuniões”, afirmam os analistas.
No entanto, a ausência de catalisadores de curto prazo — tanto do lado político quanto econômico — limita o apetite por risco. A combinação de juros elevados, inflação persistente e incertezas externas contribui para esse cenário.
Risco de “armadilha de valor”
Diante desse contexto, cresce o receio de que o Brasil possa se transformar em uma “value trap”, ou seja, um mercado com ativos baratos, mas sem fatores que impulsionem sua valorização.
“Com poucas notícias positivas no horizonte, o risco de o Brasil ser percebido como uma armadilha de valor aumentou”, concluem os analistas.
O fortalecimento do dólar, impulsionado por fatores globais como investimentos em inteligência artificial e postura mais dura do Federal Reserve, também contribui para um ambiente menos favorável aos mercados emergentes.
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