A mudança nas expectativas do mercado após a eleição presidencial provocou uma reprecificação dos ativos brasileiros e ampliou as incertezas em relação à trajetória da economia nos próximos anos. A avaliação é de João Neves, analista da EQI Research, que destaca os efeitos do cenário fiscal, da alta dos juros e da desaceleração econômica sobre o desempenho da Bolsa.
Segundo a análise, a percepção de menor probabilidade de implementação de um ajuste fiscal considerado crível contribuiu para a deterioração das expectativas. O histórico político do presidente eleito, as medidas defendidas durante a campanha e as sinalizações feitas em discursos influenciaram a avaliação dos investidores sobre as contas públicas.
O movimento se refletiu em diferentes mercados. O real acumulou desvalorização de aproximadamente 7,5% frente ao dólar após o resultado eleitoral, enquanto os juros futuros avançaram cerca de 210 pontos-base ao longo da curva.
Na Bolsa, o Ibovespa chegou a recuar 17% no início do pregão de segunda-feira, acionando o mecanismo de circuit breaker. Após uma recuperação parcial, o índice encerrou a sessão de 26 de outubro com queda de 13,88%.
Empresas mais expostas à economia doméstica sofrem maior pressão
A correção das ações não ocorreu de maneira uniforme. De acordo com a análise da EQI Research, empresas que haviam acumulado as maiores valorizações ao longo do ano estiveram entre as mais penalizadas após a revisão das expectativas, devolvendo parte dos ganhos anteriores.
As perdas também apresentaram diferenças setoriais. Companhias mais dependentes da atividade econômica doméstica foram mais pressionadas, enquanto empresas com receitas vinculadas ao mercado externo tiveram desempenho relativo mais favorável.
O nível de endividamento também contribuiu para explicar as diferenças entre as empresas. Companhias mais alavancadas tendem a ficar mais expostas à elevação dos juros, embora o impacto dependa de fatores como os indexadores das dívidas, os prazos de vencimento e a composição do financiamento.
A alta das taxas de juros afeta as empresas por três canais principais. O primeiro é a desaceleração das vendas, já que o crédito mais caro tende a restringir o consumo e os investimentos.
O segundo é o aumento do custo de capital, que eleva as taxas utilizadas para descontar os fluxos de caixa futuros e reduz o valor presente dos negócios.
Oterceiro é o crescimento das despesas financeiras, especialmente para companhias com dívidas atreladas a taxas flutuantes ou que precisam refinanciar seus compromissos a custos mais elevados.
Ibovespa volta a negociar com múltiplos mais baixos
A desvalorização das ações levou o Ibovespa a níveis de avaliação próximos de um desvio-padrão abaixo da média histórica dos últimos 20 anos, segundo o relatório. Os múltiplos também passaram a se aproximar da média observada nos cinco anos anteriores, período marcado por juros reais elevados.
A composição do índice ajuda a explicar parte desse movimento. Empresas tradicionalmente negociadas a múltiplos mais baixos ganharam participação no Ibovespa, enquanto companhias com perspectivas de crescimento mais elevadas perderam espaço relativo. Dessa forma, a avaliação agregada do índice também reflete mudanças no perfil das empresas que o compõem.
Nesse contexto, a EQI Research avalia que o desempenho das ações tende a variar conforme a exposição de cada companhia aos juros domésticos, ao câmbio e ao crescimento econômico.
Setor elétrico tem previsibilidade, mas sente a alta dos juros
As empresas de utilidades públicas estão entre as mais sensíveis à elevação das taxas de juros de longo prazo. O setor costuma operar com níveis elevados de alavancagem, e os negócios regulados dependem de parâmetros definidos pelas agências reguladoras, entre eles o custo médio ponderado de capital regulatório, conhecido como WACC.
Essas características ajudam a explicar a pressão sobre as ações do segmento após a mudança das expectativas econômicas. Ao mesmo tempo, as empresas de serviços essenciais tendem a apresentar maior resiliência diante de uma desaceleração da atividade, em razão da natureza dos serviços prestados e das características dos contratos de concessão.
A previsibilidade da geração de caixa, contudo, varia conforme a atividade, o modelo regulatório e a exposição de cada empresa ao risco de demanda.
Construção civil e varejo enfrentam desafios
O setor de construção civil também tende a enfrentar dificuldades em um ambiente de juros elevados. A alta das taxas futuras pode encarecer o financiamento imobiliário, reduzindo a capacidade de compra das famílias e pressionando a demanda por imóveis.
Além disso, uma eventual desaceleração econômica pode afetar o emprego e a renda, ampliando os obstáculos para as empresas do segmento. O desempenho das companhias, porém, dependerá também de fatores específicos, como o público atendido, o padrão dos empreendimentos e as condições de financiamento disponíveis.
No varejo, os principais riscos estão relacionados à perda de confiança dos consumidores, à desaceleração da atividade e ao comprometimento da renda com o pagamento de dívidas. Com menos recursos disponíveis para compras, as empresas podem enfrentar dificuldades para sustentar o crescimento das vendas.
Essas pressões tendem a ser mais relevantes para companhias que dependem do consumo doméstico e do acesso ao crédito, embora a intensidade dos efeitos varie entre os diferentes segmentos do setor.
Exportadoras podem se beneficiar do real mais fraco
Na direção oposta, empresas de materiais básicos com elevada participação das exportações em suas receitas tendem a apresentar maior proteção relativa diante da deterioração do cenário doméstico.
A desvalorização do real pode favorecer as margens de exportadoras que recebem em dólares e mantêm parte de seus custos em moeda brasileira. Além disso, companhias menos dependentes do consumo interno ficam relativamente menos expostas à desaceleração da economia nacional.
O benefício cambial, entretanto, não é uniforme. O resultado depende da estrutura de custos, do nível de endividamento, da exposição a insumos importados e das condições dos mercados internacionais de commodities.
Carteira Buy & Hold acompanha a pressão do mercado
A carteira Buy & Hold analisada pela EQI Research também registrou desempenho negativo no acumulado do mês, com retorno ligeiramente inferior ao do Ibovespa. O resultado foi influenciado pela desvalorização das empresas mais sensíveis à atividade econômica doméstica e à alta dos juros futuros.
Por outro lado, as ações de exportadoras e produtoras de commodities apresentaram desempenho relativo mais favorável, ajudando a atenuar parte das perdas.
O cenário reforça a importância de observar não apenas os indicadores gerais da Bolsa, mas também as diferenças entre setores e empresas. Em um ambiente de juros elevados, câmbio depreciado e menor crescimento econômico, a estrutura de capital, a origem das receitas e a capacidade de geração de caixa tornam-se fatores relevantes para compreender o comportamento das ações.






