A qualidade dos ativos dos bancos brasileiros preocupa, mas ainda está longe de um nível de alarme.
Essa é a leitura central do Bradesco BBI, em relatório assinado pelos analistas Marcelo Mizrahi e Renato Chanes, que analisaram os dados mais recentes de inadimplência do Banco Central em um ambiente de juros elevados por mais tempo e endividamento crescente das famílias.
“A leitura dos dados sugere que a qualidade de ativos ainda não atingiu níveis alarmantes que justifiquem uma reação defensiva imediata em termos de concessão de crédito, embora os sinais de deterioração em alguns produtos exijam acompanhamento próximo nos próximos trimestres“, afirmam os analistas.
Mudança metodológica distorce comparações
Antes de mergulhar nos dados, o BBI faz um alerta importante sobre a interpretação dos números.
Desde janeiro de 2025, com a implementação da Resolução nº 4.966 do Banco Central, os empréstimos permanecem mais tempo em atraso antes de serem baixados, tornando o indicador de inadimplência acima de 90 dias pouco comparável ao histórico.
“O próprio Banco Central estimou que cerca de 70% da alta observada na inadimplência decorre dessa mudança metodológica”, destacam Mizrahi e Chanes.
Diante disso, o banco passou a focar na inadimplência em estágio inicial — entre 15 e 90 dias —, considerada “a métrica mais apropriada enquanto o histórico de atrasos acima de 90 dias não volta a ser plenamente comparável”.
Produtos com deterioração relevante
Os dados revelam um quadro heterogêneo entre os produtos de crédito.
Cartões, financiamento de veículos, crédito pessoal e consignado mostram desempenho relativamente melhor, ainda que com leve piora. Contudo, consignado do INSS, consignado privado, crédito rural, financiamento imobiliário e capital de giro de longo prazo apresentam deterioração mais relevante.
“Alguns segmentos estão se aproximando dos picos do pós-pandemia”, alertam os analistas — sinalizando que o monitoramento desses produtos deve se intensificar nas próximas divulgações.
Programa de renegociação no horizonte
Um potencial programa governamental de renegociação de dívidas para pessoas físicas com renda de até cinco salários-mínimos — cerca de R$ 8,1 mil por mês — começa a ganhar relevância no debate.
O público elegível concentra carteira ativa de R$ 584 bilhões, com R$ 77,8 bilhões em créditos vencidos acima de 90 dias, sendo R$ 49 bilhões em cartões, R$ 25 bilhões em crédito pessoal e R$ 4 bilhões em cheque especial.
“Se implementado nos moldes atualmente discutidos, ele tende a ser positivo para a liquidez do sistema, ao reduzir o estoque de créditos problemáticos e aliviar a restrição financeira das famílias de menor renda”, avaliam Mizrahi e Chanes.
Entretanto, o desenho final da iniciativa permanece incerto.
O BBI conclui com visão equilibrada: “o cenário demanda vigilância reforçada, mas não aponta, até o momento, para uma deterioração sistêmica iminente da qualidade de crédito”.






