A recente derrocada das as ações de empresas de software reacendeu o debate: se de fato existe uma “bolha da inteligência artificial (IA)”, será que ela está estourando sozinha?
A correção global ganhou proporções tão amplas que parte do mercado já a apelidou de “SaaSpocalypse”, um colapso desencadeado pela ascensão de agentes de IA capazes de substituir diversas categorias de software corporativo.
Parte do fenômeno ocorre porque ferramentas como o Claude Cowork, da Anthropic, executam fluxos completos de trabalho antes atendidos por plataformas tradicionais — impacto que se espalhou rapidamente e derrubou companhias de tecnologia ao redor do mundo.
A pressão atual guarda semelhanças históricas, mas também diferenças marcantes. Em análise recente, Jim Reid, chefe global de pesquisa do Deutsche Bank, afirma que existem “paralelos intrigantes entre a atual rotação das ações americanas e a dinâmica de mercado que ocorreu no ano 2000”.
Ele destaca que, desde o pico de tecnologia em outubro, energia, materiais e bens de consumo avançaram fortemente, enquanto o setor de tecnologia caiu mais de 11%. Reid observa que o movimento lembra o início dos anos 2000, quando “um mercado conseguiu absorver uma rotação prolongada… até que a intensidade das perdas em tecnologia finalmente arrastou todo o índice para baixo”.
Retorno dos setores do S&P no período de 27 de março de 2000 a 29 de dezembro de 2000

Retorno dos setores do S&P desde 29 de outubro de 2025

Softwares: O elo mais fraco da IA
O Bank of America, por sua vez, oferece um diagnóstico mais estrutural. Para os analistas Claudio Irigoyen e Antonio Gabriel, a corrida pela IA representa um jogo de “winner takes all”, no qual prevalece quem atingir escala global primeiro.
Eles afirmam que “os investidores começaram a punir as empresas de software percebidas como o elo mais fraco nessa corrida”.
O processo se intensifica porque muitos projetos de IA são financiados por crédito privado, que é pouco líquido. Segundo os analistas, “os investidores têm apenas uma forma de hedge: vendendo ações e exacerbando a pressão”, desencadeando efeitos em cadeia à medida que outros investidores também buscam proteção vendendo ativos líquidos correlacionados.
Ainda assim, o Bank of America ressalta que isso “não implica necessariamente que o mercado esteja supervalorizado… é apenas o efeito depurativo da própria corrida tecnológica”.
Quando somados, os diagnósticos revelam um setor sob estresse simultâneo:
• uma reprecificação estrutural acelerada pela IA;
• uma rotação setorial reminiscentes de 2000;
• e um efeito dominó provocado por mecanismos de hedge e crédito privado.
O chamado “SaaSpocalypse” sintetiza esse novo momento: não é apenas uma onda de vendas, mas uma mudança profunda na forma como o mercado precifica software. A “bolha da IA”, se existir, pode não estar estourando sozinha — é o próprio mercado que está redefinindo o valor do software na era dos agentes autônomos.
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