A Wiz (WIZC3) anunciou a venda de sua participação de 39,75% na Inter Seguros ao Banco Inter por R$ 409,5 milhões, em uma operação que marca a saída da corretora de um de seus negócios de maior crescimento e coloca a estratégia de alocação de capital da companhia no centro das atenções.
Em relatório, o BTG Pactual avalia que a transação pode abrir espaço para uma distribuição de recursos aos acionistas, mas alerta que a Wiz precisará encontrar novas fontes de expansão para sustentar seus resultados nos próximos anos.
O negócio avalia a Inter Seguros em aproximadamente R$ 1,03 bilhão, equivalente a cerca de nove vezes o lucro projetado para 2026. O pagamento será feito integralmente em dinheiro no fechamento da operação, com correção pela variação do CDI desde 2 de outubro. Não há previsão de pagamentos adicionais condicionados ao desempenho futuro da corretora.
Com a conclusão da transação, sujeita às aprovações do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o Banco Inter passará a deter o controle integral da operação, desconsideradas as ações em tesouraria.
Para os analistas Ricardo Buchpiguel, Eduardo Rosman e Antonio Pascale, do BTG Pactual, a venda representa a monetização de um investimento bem-sucedido, realizado em 2019, quando a Wiz buscava diversificar suas atividades para além da parceria com a Caixa Econômica Federal. Ao longo de aproximadamente seis anos, o investimento gerou um retorno total de cerca de 2,5 vezes o capital aplicado.
A decisão também reflete a evolução da parceria entre as empresas. Segundo a análise do banco, o Inter já vinha buscando consolidar o controle da corretora, especialmente diante de sua expansão internacional e da menor necessidade de contar com um parceiro local.
A participação da Wiz na operação também se tornou menos relevante à medida que o negócio amadureceu, uma vez que a distribuição de seguros ocorre principalmente pelos canais digitais do banco, enquanto a expertise da Wiz está mais associada a modelos com força de vendas física.
Outro fator é a maturidade da Inter Seguros, que já reúne cerca de 10 milhões de contratos ativos. Com uma base dessa dimensão, sustentar taxas de crescimento tão elevadas tende a se tornar mais difícil.
Distribuição de recursos pode elevar atratividade das ações
Um dos principais pontos levantados pelo BTG é o destino dos R$ 409,5 milhões que entrarão no caixa da Wiz. O fato relevante divulgado pela companhia informa que os recursos permanecerão em caixa até uma nova deliberação de seus órgãos de administração.
Para os analistas, devolver parte dos recursos aos acionistas seria uma alternativa coerente, considerando o desconto com que as ações são negociadas e o tamanho do pagamento em relação ao valor de mercado da empresa.
O banco destaca que a Wiz gera aproximadamente R$ 250 milhões anuais em fluxo de caixa livre (FCF, na sigla em inglês) e negocia a cerca de 5,7 vezes essa geração de caixa. Caso uma parcela relevante dos recursos da venda seja devolvida aos investidores, a companhia poderia passar a negociar a menos de cinco vezes os lucros em caixa estimados para 2026, com um free cash flow yield de aproximadamente 22% e praticamente nenhuma dívida líquida.
Na avaliação do BTG, esse cenário poderia tornar as ações ainda mais baratas sob a ótica dos múltiplos financeiros. Por outro lado, os analistas ponderam que o preço da transação, equivalente a nove vezes o lucro projetado para 2026 da Inter Seguros, não representa necessariamente uma avaliação elevada para um ativo que esteve entre os principais motores de crescimento da Wiz. O múltiplo, porém, encontra respaldo no fato de o próprio Banco Inter negociar abaixo desse patamar.
Desafio será substituir o crescimento perdido
Apesar do potencial benefício de curto prazo decorrente de uma eventual distribuição de capital, a saída da Inter Seguros reduz a exposição da Wiz a um de seus negócios mais dinâmicos. O BTG avalia que o mercado não atribuía um prêmio expressivo às ações da companhia por sua participação na corretora, o que limita o impacto negativo da venda sobre a percepção de valor do grupo.
O desafio, agora, será definir como os recursos serão utilizados e quais iniciativas poderão sustentar o crescimento futuro. Entre as alternativas estão aquisições e a formação de novas joint ventures, que exigiriam decisões cuidadosas de alocação de capital.
O banco alerta que, sem novas fontes de expansão, a Wiz corre o risco de se tornar uma value trap, expressão usada no mercado para descrever uma ação aparentemente barata, mas cujo desconto não se traduz em valorização porque o crescimento dos lucros perde força.
A companhia terá de equilibrar duas demandas: atender à pressão dos investidores por uma utilização mais eficiente do caixa no curto prazo e preservar recursos para financiar oportunidades de crescimento ao longo dos próximos cinco anos.
Diante da falta de clareza sobre os próximos passos da estratégia de capital e da incerteza quanto aos retornos de eventuais novos investimentos, o BTG vê espaço para uma reação negativa das ações no pregão seguinte ao anúncio.
A avaliação dos analistas é que a venda pode aumentar a atratividade financeira da Wiz no curto prazo, sobretudo se houver distribuição de recursos, mas a sustentação dessa tese dependerá da capacidade da companhia de transformar o caixa disponível em novas fontes de lucro e crescimento.






