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Com El Niño e sem dragagem no Tapajós, Rumo tem oportunidade

Com El Niño e sem dragagem no Tapajós, Rumo tem oportunidade

A falta de dragagem pode atrapalhar as hidrovias, comprometer a safra de 2026/2027 e encarecer o preço dos fretes nas rodovias

A decisão do governo federal de vetar a dragagem do Rio Tapajós, ainda em fevereiro desse ano, deixou os empresários e moradores da região apreensivos após previsão de um episódio forte de El niño, o que pode colocar em risco o escoamento e transporte de grãos.

O cenário caótico, entretanto, pode ser benéfico para a Rumo Logística (RAIL3). A empresa pode aproveitar as tarifas de fretes agrícolas mais elevadas, que podem compensar uma eventual demanda menor por conta dos problemas climáticos.

“O potencial de captura é limitado, uma vez que estimamos que apenas cerca de 10% da capacidade da companhia ainda esteja disponível, dado o avanço das negociações de contratos para o restante do ano”, afirmam os analistas do Bradesco BBI André Ferreira e Ricardo Rosalen.

Os fretes rodoviários subiram em quatro regiões das cinco regiões brasileiras em agosto. No Centro-Oeste, por exemplo, o reajuste chegou a 4,7% na comparação mensal.

Segundo a Frete.com, apesar da leve queda de 3,03% em agosto no preço do frete rodoviário, considerando todos os segmentos de carga, a demanda pelo transporte de grãos aumentou impulsionada pelo fluxo de exportação.

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Dragagem do Tapajós

A interrupção do projeto de dragagem do Rio Tapajós, resultado do veto da Presidência da República, pode causar prejuízos de até R$ 850 milhões para o setor.

O principal agragavante é ofenômeno o El Niño, que reduz o nível do rio e a capacidade de transporte de carga e pode impedir a sua navegabilidade comercial, mesmo que temporariamente.

O Rio Tapajós é essencial para toda a logística do arco norte brasileiro, saindo de 100 mil toneladas registradas em 2010 para 16,8 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 14,3% em relação ao ano anterior.

O modal hidroviário também é considerado mais seguro e eficiente que o realizado pelas rodovias da região, por combinar baixo custo e menor impacto ambiental.

“Caso a navegação seja interrompida por um período de 3 a 4 meses, até 5 milhões de toneladas de grãos poderão ser desviadas da hidrovia, gerando um impacto financeiro estimado entre R$ 500 milhões e R$ 850 milhões”, estimam os analistas.

Além do efeito econômico, a falta da dragagem de manutenção pode colocar em risco tanto as populações locais, que utilizam o rio para se deslocarem.

A dragagem de manutenção é um tipo de procedimento que pode ajudar nesses cenários climáticos extremos, retirando os sedimentos acumulados pelo assoreamento do rio sem alterar as suas características originais.

Impacto do El Niño

O El Niño se intensificou ainda mais durante agosto e, segundo o Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (CPC/NOAA), há uma probabilidade superior a 90% de que um evento muito forte ocorra durante a primavera e o verão de 2026–2027 no Hemisfério Sul. Além de uma probabilidade de 75% de ser o mais forte desde 1950.

O fenômeno climático pode prolongar a estiagem de algumas áreas e aumentar a vulnerabilidade aos incêndios florestais, além de reduzir a disponibilidade hídrica.

Anomalia da Temperatura do Oceano Superior Equatorial (°C)

Obervações: Anomalia da temperatura média da área do oceano superior (0-300m) no Pacífico equatorial (5°N-5°S, 180°-100°W), calculada como o desvio em relação à média pentadal (de 5 dias) do período base de 1991-2020. Dados: GODAS.

Veto do planalto

O processo começou pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT), que seria o responsável pela dragagem junto com a Associação Nacional de Navegação Interior (Abani), sem nenhum custo para a União. O plano do DNIT já estava aprovado pela Marinha e pela secretaria de Meio Ambiente do Pará.

Porém, ao fim de julho, o Palácio do Planalto decidiu interromper o processo em decorrência da ausência de manifestações técnicas sobre a necessidade da dragagem e após reações negativas das comunidades indígenas e ribeirinhas. De certa forma, a percepção que ficou segundo relatos, é que o governo preferiu esperar o fim do processo eleitoral.

Ainda assim, técnicos e o setor privado continuam preocupados com o riscos atrelados ao El niño, e as perspectivas receosas para 2027, e não veem motivos para o embargo. A preocupação vem do histórico recente de cenários climáticos instáveis como o que ocorreu em 2024, quando a estiagem parou a navegação por 45 dias.

O governo apresentou uma alternativa caso a navegabilidade seja afetada, escoando as cargas por via terrestre pela BR-163, o que poderia ser benéfico para a Rumo por conta do custo mais elevado no modal rodoviário.

Mas o setor privado continua resistente por considerar essa opção mais cara e perigosa. Outra opção complementar seria fazer o transporte pelo Sul do país, por via terrestre, até Santos ou Paranaguá.

O que dizem as organizações

O ocorrido de 2024 foi usado como parte da argumentação das associações Abani, Moveinfra, Confederação Nacional de Transporte (CNT), Confederação Nacional da Indústria (CNI), Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), e a Federação de Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), entre outras, em uma carta enviada ao presidente Lula no início de agosto que pedia uma reunião urgente com o presidente.

“O primeiro quadrimestre de 2026 já mostra um comportamento parecido com o de 2023, o que torna a repetição do problema bastante provável”, afirmam as instituições no ofício.

A Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), se manifestou defendendo a sua posição a favor da dragagem e retificando que desenvolvimento e conservação não são conceitos incompatíveis, além de defender que qualquer intervenção deve respeitar integralmente a legislação ambiental.

E no caso, as opções complementares por via terrestre emitiriam, aproximadamente, 55 mil toneladas adicionais de CO₂.

“Causa ainda mais estranheza que um processo dessa relevância tenha permanecido sem definição no âmbito do governo federal, enquanto os impactos econômicos, sociais e logísticos já eram amplamente conhecidos”, diz o presidente da FIEPA, Alex Carvalho.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), já havia encaminhado um documento ao governo solicitando medidas para garantir a dragagem, porém até então nenhuma medida foi tomada.

“A paralisação da hidrovia coloca milhares de caminhões em rodovias precárias e aumenta as emissões de carbono. Isso é proteger o meio ambiente? É a incoerência total nas políticas de Estado. O resultado é frete mais caro e risco de não escoar a safra, fatores que impactam os custos de produção e os preços para o consumidor”, afirma a vice-presidente da FPA e senadora, Tereza Cristina (PP-MS).

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