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De Calcutá para o mundo: Sabyasachi mira o posto de primeira maison global de luxo da Índia

De Calcutá para o mundo: Sabyasachi mira o posto de primeira maison global de luxo da Índia

De volta à New York Fashion Week após duas décadas, Sabyasachi Mukherjee aposta em moda, alta joalheria, artesanato e identidade cultural para construir uma casa de luxo indiana com alcance global

Vinte anos depois de sua última apresentação em Nova York, Sabyasachi Mukherjee está de volta à New York Fashion Week. Mas, desta vez, o desfile é apenas uma parte de uma ambição muito maior. O designer indiano quer provar que uma das próximas grandes casas globais de luxo pode nascer longe de Paris, Milão ou Londres.

Fundador e diretor criativo da Sabyasachi, Mukherjee construiu nas últimas duas décadas um negócio que já ultrapassa as fronteiras da moda. A marca reúne alta-costura, alta joalheria, bolsas, óculos e projetos ligados à decoração, enquanto novas categorias continuam em desenvolvimento.

A pergunta que acompanha esse movimento é inevitável: Sabyasachi pode se tornar a primeira grande maison global de luxo originária da Índia?

Os números indicam que a ambição está longe de ser apenas um exercício de imagem. No ano fiscal de 2026, a companhia registrou receita de aproximadamente US$ 68,2 milhões, tornando-se o maior negócio de moda da Índia em receita divulgada, segundo documentos citados pela Vogue.

De Calcutá para o mundo

Parte da força da Sabyasachi está justamente em algo que muitas marcas, durante décadas, tentaram suavizar ao buscar espaço internacional: sua origem.

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Mukherjee não procura construir uma versão indiana de uma maison europeia. A estratégia é transformar o repertório cultural da Índia em uma linguagem própria de luxo global.

Sabyasachi Mukherjee / Divulgação Sabyasachi Mukherjee

Sedas Banarasi, bordados Kantha, trabalhos em zari e referências a Bengala aparecem nas coleções e ajudam a formar uma identidade visual imediatamente reconhecível. Até o tigre de Bengala, símbolo da casa, reforça essa conexão.

O próprio designer define Calcutá como o ponto de vista da marca, mesmo quando seus clientes estão em Nova York, Londres ou qualquer outra parte do mundo.

Essa combinação entre tradição e alcance internacional também está presente na expansão física do negócio. A Sabyasachi conta hoje com seis lojas flagship, distribuídas entre cidades indianas e Nova York. A unidade de Delhi, inaugurada recentemente, ocupa cerca de 2,4 mil metros quadrados e reúne mais de uma centena de lustres e centenas de obras de arte. Já a loja de Mumbai ocupa um edifício histórico e foi reconhecida pelo Prix Versailles entre os grandes endereços de varejo do mundo.

Da couture à alta joalheria

Se as grandes maisons europeias construíram seus impérios expandindo seus códigos para diferentes categorias, Sabyasachi segue uma lógica parecida.

O caminho pode ser resumido como um ecossistema de luxo: couture, joias, bolsas, óculos, decoração e lifestyle.

A alta joalheria ocupa um lugar especialmente importante nessa estratégia. A categoria foi lançada pela marca em 2017 e hoje responde por aproximadamente um terço da receita, segundo a reportagem da Vogue.

Esse movimento tem um significado particular para a Índia. O país possui uma tradição secular na lapidação de pedras, ourivesaria, bordado, tecelagem e outras técnicas artesanais que, durante décadas, abasteceram silenciosamente algumas das maiores empresas de luxo do Ocidente.

Agora, a tentativa é capturar não apenas o valor da produção, mas também o valor da assinatura.

Ou seja: transformar conhecimento artesanal em propriedade intelectual, desejo e marca.

Um modelo de maison para os próximos cem anos

A entrada do conglomerado indiano Aditya Birla Fashion and Retail Limited, que adquiriu 51% da companhia em 2021, ajudou a dar escala a esse projeto. Na época, o negócio avaliou a Sabyasachi em cerca de US$ 107 milhões. Parte do investimento foi destinada à expansão nos Estados Unidos.

Mukherjee, porém, deixa claro que seu objetivo não é simplesmente construir a maior marca de moda da Índia.

Sua ambição passa por criar uma instituição capaz de sobreviver ao próprio fundador, com presença no varejo, força cultural, variedade de categorias, qualidade de produto e relevância de longo prazo.

É exatamente essa lógica que separa uma marca de moda de uma verdadeira maison.

Nova York como vitrine de uma nova fase

O retorno à New York Fashion Week reforça essa mensagem.

A coleção de primavera/verão 2027, chamada Bengal Byzantine Broadway, reúne referências de Bengala, da arte bizantina e da própria Nova York. O desfile também serve de palco para outra etapa importante da internacionalização da marca: uma colaboração de vários anos com o Metropolitan Museum of Art, envolvendo uma coleção de alta joalheria inspirada nos arquivos bizantinos do museu.

A Sabyasachi já possui loja na Christopher Street, em Nova York, além de presença em varejistas como Bergdorf Goodman, Saks Fifth Avenue e Harrods. A marca também acumulou colaborações com nomes como H&M, Christian Louboutin e Estée Lauder.

Mas talvez o aspecto mais relevante dessa expansão seja o fato de Mukherjee não enxergar o luxo europeu como uma identidade a ser reproduzida.

Ele observa sua estrutura comercial, mas prefere usar os próprios códigos culturais.

Durante muito tempo, a Índia participou da indústria global do luxo nos bastidores, produzindo bordados, tecidos, joias e peças sofisticadas para marcas estrangeiras. Agora, empresas como a Sabyasachi começam a disputar também aquilo que gera algumas das maiores margens do setor: a narrativa, a marca e o desejo.

É por isso que o retorno a Nova York representa mais do que um desfile.

Se o projeto de Mukherjee funcionar, Sabyasachi poderá ajudar a redefinir não apenas o lugar da moda indiana no mercado internacional, mas também a própria ideia de onde uma grande maison de luxo pode nascer.