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Gucci aposta no “Made in China” e desafia um dos códigos do luxo italiano

Gucci aposta no “Made in China” e desafia um dos códigos do luxo italiano

Novos modelos da maison são produzidos na China em uma mudança rara para a Gucci, que tenta recuperar consumidores enquanto preserva a herança ligada ao “Made in Italy”

Uma pequena etiqueta no interior de um tênis colocou a Gucci diante de uma questão importante para o mercado de luxo. A maison começou a vender novos modelos de sneakers com a indicação “Made in China”, rompendo com uma tradição de fabricação profundamente associada à Itália e à própria identidade da grife.

A mudança aparece no Drip, modelo futurista apresentado como o primeiro tênis de Demna para a Gucci. Segundo a Reuters, o calçado já está à venda e foi encontrado em uma loja da marca em Paris com a etiqueta que confirma sua fabricação chinesa. Um segundo modelo slip-on de couro, pertencente à mesma coleção Primavera, também é produzido no país.

A decisão chama atenção porque, entre os calçados da Gucci que informam o país de origem em seu site, os demais são fabricados na Itália.

Por que a Gucci está produzindo tênis na China?

A explicação oficial está ligada à tecnologia necessária para desenvolver os novos modelos. Em comunicado citado pela Reuters, a Gucci afirmou que a Itália “sempre estará no centro do modelo de produção e da identidade da Gucci”.

Segundo a empresa, a escolha do fornecedor chinês seguiu uma lógica semelhante à adotada anteriormente com parceiros de outros países, como Suíça e Japão, na fabricação de categorias específicas, incluindo relógios e óculos.

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“O parceiro selecionado ofereceu o conhecimento tecnológico e as capacidades mais adequadas para atingir os padrões de desempenho e qualidade que buscávamos”, afirmou a Gucci. A maison também disse que não existem planos amplos de transferir sua produção para fora da Itália.

O próprio design ajuda a entender a decisão. Sem cadarços e produzido em materiais como nylon, canvas ou camurça, o Drip tem formato semelhante a uma meia e se distancia visualmente do clássico Ace, sneaker de couro branco que se tornou um dos modelos reconhecíveis da Gucci.

A estética também carrega a assinatura de Demna. O desenho volumoso remete aos sneakers que marcaram sua passagem pela Balenciaga e ajudaram a definir parte do streetwear de luxo no fim da década de 2010.

Um sneaker de US$ 1 mil fabricado na China

Divulgação Gucci

O endereço de fabricação ganha outra dimensão quando entra em cena o preço. O Drip custa cerca de 800 euros na Europa e US$ 1 mil nos Estados Unidos. Embora esteja abaixo do preço de diversos calçados da Gucci, continua posicionado claramente no território do luxo.

É justamente aí que a etiqueta “Made in China” deixa de ser apenas um detalhe da cadeia produtiva.

A China é um dos principais polos globais de produção de sneakers e reúne fabricantes que trabalham com marcas de diferentes segmentos. Para uma maison italiana, porém, a discussão envolve também o valor simbólico da procedência.

Design, materiais, artesanato, história, marca e origem participam da construção do desejo em torno de um produto de luxo. Quando uma dessas peças muda, surge uma pergunta inevitável sobre a forma como o consumidor interpreta o preço.

O peso do “Made in Italy” para a Gucci

Analistas ouvidos pela Reuters enxergam justamente esse ponto de tensão. “Acreditamos que isso cria uma potencial tensão entre a procedência e o posicionamento de luxo que a Gucci busca recuperar”, afirmaram analistas do Berenberg.

Simon Whitehouse, consultor do setor de luxo baseado em Milão, foi ainda mais direto: “Made in China is not a good look”.

A questão chega em um momento delicado para a maison. Principal marca do grupo Kering (EPA: KER), a Gucci viu suas vendas caírem pela metade nos últimos três anos. A retração pressionou as margens e levou o grupo a fechar dezenas de lojas.

Captura de tela stocks Google

Ao mesmo tempo, a marca tenta reconquistar os chamados consumidores aspiracionais, compradores de luxo mais sensíveis aos preços do que clientes ultrarricos. Fontes da Kering disseram à Reuters que a Gucci também começou a reduzir os preços de determinados produtos, inclusive na China, em uma tentativa de recuperar participação de mercado.

Quando a origem entra na equação do luxo

A combinação entre preços menores em algumas categorias e produtos fabricados na China despertou atenção entre analistas e investidores.

“Algumas pessoas estão se perguntando: devemos continuar comprando Gucci se o preço está caindo?”, afirmou Carole Madjo, analista do Barclays, à Reuters. Para ela, a presença de produtos fabricados na China pode alimentar o debate em torno da relação entre preço e valor da marca.

É esse ponto que torna o Drip particularmente interessante. O tênis chega em um momento de transformação criativa e comercial da Gucci, com Demna encarregado de renovar o desejo pela maison enquanto a Kering busca recuperar vendas e margens.

A etiqueta “Made in China”, portanto, coloca sob os holofotes um código historicamente valioso para a moda italiana: a procedência.

Para o consumidor, fica a questão que ultrapassa o sneaker de US$ 1 mil: quanto do valor percebido de uma Gucci está no design, no nome e na criatividade da maison, e quanto ainda depende das palavras “Made in Italy”?

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