A demanda global por whisky escocês registrou uma queda expressiva após 15 anos de crescimento acelerado, período que ganhou ainda mais força durante a pandemia de Covid-19. O cenário levou várias destilarias na Escócia a interromper a produção.
A medida busca evitar um whisky loch, termo usado para descrever um cenário de excesso de oferta diante da queda da demanda.
Recentemente, a destilaria GlenWyvis, de propriedade comunitária e localizada nas Highlands, anunciou que nomearia administradores judiciais após enfrentar persistentes pressões financeiras. Além disso, trabalhadores de Cameronbridge, maior destilaria da Diageo, iniciaram uma greve diante da possibilidade de demissões nas operações da empresa na Escócia.
A crise afeta desde gigantes do setor, como a Diageo, responsável por cerca de um terço das garrafas de whisky escocês produzidas no mundo, incluindo marcas como Johnnie Walker, até destilarias menores, algumas delas alvo de rumores de venda.
“Pessoas que compraram whisky na pandemia porque não tinham mais nada para fazer perceberam que provavelmente tinham o suficiente em casa para dois ou três anos. Há uma conscientização crescente sobre questões de saúde. Muitos estão optando por beber menos, e as bebidas alcoólicas ficaram muito caras durante os bons anos para o setor”, afirmou Nick Morgan, veterano do setor, ao jornal britânico The Guardian.
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A produção do whisky escocês segue regras estabelecidas por lei, entre elas a maturação por no mínimo três anos em barris de carvalho na própria Escócia. Algumas variedades permanecem em envelhecimento por décadas, chegando a 40 anos. Esse longo processo dificulta o planejamento da produção, já que as destilarias precisam antecipar uma demanda que só existirá anos depois.
Esses longos períodos de maturação tornam as oscilações da demanda especialmente difíceis de administrar em um mercado de exportação avaliado em £5,36 bilhões.
Por que a demanda por whisky escocês perdeu força?
Em abril de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou o chamado “Dia da Libertação”, com novas tarifas sobre produtos de diversos países. Segundo a Scotch Whisky Association, a medida resultou em uma queda de 15% nas exportações de whisky escocês para os EUA. No início deste ano, Trump retirou as tarifas sobre o produto após a visita de Estado do rei e da rainha à Casa Branca.
O setor de bebidas já atravessava um período de desaceleração desde o fim do impulso de consumo observado durante a pandemia. Cinco dos maiores produtores de bebidas alcoólicas listados em bolsa acumulam um recorde de US$ 22 bilhões em bebidas destinadas ao envelhecimento, segundo o Financial Times.
A demanda na França, até recentemente o maior mercado em volume, caiu, enquanto o mercado chinês não avançou como esperado.
Os impactos sobre as destilarias
A Destilaria Holyrood está entre as empresas escocesas que suspenderam a produção diante das dificuldades enfrentadas pelo setor. Os grandes alambiques de cobre, que normalmente estariam em funcionamento, agora permanecem parados.
Rob Carpenter, cofundador da destilaria, diz não saber quando a situação poderá se normalizar e destaca a dificuldade de prever a demanda futura. Segundo ele, a indústria pode estar produzindo atualmente cerca de um terço do volume habitual.
“Ninguém tem uma bola de cristal, então ninguém sabe o que vai acontecer daqui a 10 anos. Você tenta antecipar onde as coisas vão chegar. É uma maldição da indústria, de certa forma”, comenta Carpenter.
A Holyrood ainda conta com uma importante fonte de receita: o turismo. Cerca de 40 mil pessoas visitam anualmente o edifício de pedra de aproximadamente 200 anos onde funciona a destilaria. As visitas representam cerca de metade da receita atual da empresa.
“Não é que as pessoas tenham parado de beber destilados […] Mas os consumidores estão receosos. Todos nós vemos o que está acontecendo no mundo. Não há muita previsibilidade atualmente, e as pessoas estão apenas tomando mais cuidado com a forma como gastam seu dinheiro. Este é um produto de luxo”, acrescentou Carpenter.
O setor já enfrentou crises semelhantes
Na década de 1980, a indústria do whisky escocês enfrentou uma crise semelhante à atual, marcada pela demanda fraca e pelo excesso crônico de oferta, cenário que levou ao fechamento de várias destilarias pelo país.
A crise foi prolongada pela ascensão dos produtores japoneses, pela recessão econômica global e pelo excesso de confiança gerado pelo boom dos anos 1970. Hoje, porém, poucos acreditam que a crise atual represente o início de uma mudança permanente no setor.
Para Morgan, o momento exige cautela. “O mercado de whisky é um jogo de paciência. Se você olhar os dados de vendas, toda vez que há uma dessas quedas, as vendas voltam a subir. No momento, o negócio está em baixa. Posso praticamente garantir que, daqui a cinco anos, quando a demanda realmente aumentar de novo, eles vão perceber que não têm whisky suficiente e terão que retomar toda a produção”, afirma.
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