A economista Zeina Latif falou na noite desta terça-feira (29) no Cognition, evento da Unisinos promovido pela EQI, sobre as “reformas econômicas e fiscais que o Brasil precisa enfrentar”.
O evento que começou hoje e vai até sexta-feira (2) é virtual e pode ser acessado neste link.
Latif procurou elucidar o cenário macroeconômico enfrentado pelo Brasil, agora agravado pela pandemia, mas não apenas sob esse aspecto.
O que a economista procurou sublinhar foi a importância das reformas.
Sem “bala de prata”
Na sua visão, “o Brasil é país muito difícil, com um complicado ambiente de negócios”.
Com a complexidade tributária, as dificuldades políticas, as incertezas cotidianas, fica tudo menos atraente para o investimento.
E isso reduz a produtividade. “É preciso ter ganho de produtividade”, ela salienta.
E a reforma tributária é importante neste cenário, para simplificar e para atrair o investimento.
Mas não é uma só a reforma tributária ou só “uma” reforma tributária.
“Não é uma bala de prata, é preciso atuar em várias frentes”, ela diz.
É preciso fazer toda hora ajustes nas políticas públicas, reformas constantes.
O que Latif deixa claro é que, como a sociedade muda, o ambiente internacional se altera.
É preciso estar a todo instante atento às necessidades de atualizar e alterar a própria sociedade para que ela permaneça atraente para o investimento e para o crescimento.
Entretanto, é preciso sempre passar o recado de que o país tem rigor fiscal.
Por isso, ela pede pela preservação do teto de gastos, aprovado em 2016.
Eficácia limitada do Banco Central
A dívida pública11 está caminhando para 100% do PIB, ela lembra.
Os investidores estão preocupados com o crescimento da dívida e fazem investimentos em papéis mais curtos do Tesouro Nacional, para terem maior liquidez.
“O Banco Central tem pouco o que fazer”, ela explica. A “eficácia dele é muito limitada” a um período curto.
São os governos que precisam atuar com mais segurança.
“O que o governo tem que desenhar claramente sua agenda, ter diálogo com o Congresso, tem que ter plano estruturado e capacidade de entrega e aqui a gente está falhando”, referindo-se não a um governo específico na nossa linha do tempo.
Entretanto, o atual tem “dificuldades de entregar reformas”.
Volatilidade do câmbio
“Para o setor produtivo, a volatilidade machuca muito”, ela reforça – e lembra: “a volatilidade fica”.
São muitas variáveis externas que trazem volatilidade ao câmbio. O quadro internacional é muito negativo para o mercado global.
“Nossa moeda sempre foi muito volátil, mas agora, durante a pandemia, está mais exacerbada. O real sempre teve um padrão de volatilidade maior que outras moedas, mas agora aumentou esse padrão”, diz.
Latif ensina que o comportamento do dólar perante o real, em média, é 70% influenciado pelo dólar no mundo.
Quando o comércio mundial está muito forte, como na primeira década do século, com a China crescendo em ritmo bastante acelerado, com o boom de commodities, fez o dólar se enfraquecer e a moeda dos emergentes subir.
Com a crise global de 2008, foram os Estados Unidos saíram mais rápido do buraco, o que fez o dólar se fortalecer, enquanto as outras moedas foram mais lentas.
Na atual crise, a China que controlou melhor a pandemia e se recuperou mais rapidamente, enquanto os Estados Unidos patinam.
Então, o dólar perdeu o vigor.
Mas o dólar alto ou baixo, a Selic alta ou baixa não resumem a economia: “cuidado com a intuição. A economia é muito mais complexa”.
Auxílio Emergencial e consumo reprimido
Para Latif, para além de estimular o consumo, algo que o Bolsa Família fez e agora com muito mais vigor o Auxílio Emergencial fez também, é preciso estimular a oferta.
Enquanto o Bolsa Família injeta algo em torno de R$ 32 bilhões por ano, o Auxílio coloca para rodar R$ 50 bi. Por mês.
Isos estimulou a economia nesse momento, em um país que tem o consumo muito reprimido.
Mas não é suficiente para fazer o empresário investir no país de forma continuada.
Por isso, a necessidade das reformas. Assim, no plural. E constantes.
Zeina Latif
Latif é economista com doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo.
Foi economista-chefe na XP Investimentos, de onde saiu em 2020. Já passou pelo Royal Bank of Scotland (RBS), ING, ABN-Amro Real e HSBC.
Além disso, escreve uma coluna semanal no jornal O Estado de S.Paulo.
Ela tem 52 anos e é considerada uma das mulheres mais influentes do Brasil na área econômica.






