A primeira coletiva de imprensa de Kevin Warsh como presidente do Federal Reserve gerou reações distintas entre os economistas de Wall Street. Enquanto o Goldman Sachs interpretou o discurso como dovish, o UBS levantou críticas mais profundas sobre os fundamentos dos argumentos do novo chairman.
A reunião do FOMC encerrou com a manutenção das taxas de juros e sem orientação sobre os próximos passos da política monetária.
“Tínhamos esperado que a maioria dos votantes do FOMC não quisesse subir os juros, porque os dados de inflação de junho mostraram melhora substancial em relação aos meses anteriores”, afirma David Mericle, economista-chefe dos Estados Unidos no Goldman Sachs Research.
Tom dovish surpreende o mercado
Warsh fez uma série de comentários durante a coletiva que o Goldman interpretou como sinalizações dovish. O presidente do Fed minimizou as pressões de preços relacionadas à inteligência artificial, sugerindo que elas estão isoladas das tendências de preços mais amplas.
Quando questionado sobre se a alta das taxas de juros reais indicava que o mercado achava que o Fed deveria subir os juros, Warsh conectou o movimento à força recente da economia — e não a uma necessidade de aperto monetário.
O presidente também insinuou que a alta das taxas de mercado poderia substituir um aumento formal nos juros, ainda que sem afirmá-lo explicitamente.
Por fim, ao ser questionado se o Fed precisaria elevar os juros para conter a inflação, sugeriu que um compromisso mais crível com a meta inflacionária poderia, por si só, reduzir as expectativas de inflação e, consequentemente, a inflação em si.
“Isso contrasta com nossa leitura das evidências da pesquisa econômica, que sugere que é difícil para o Fed influenciar a inflação pelo canal das expectativas”, escreve Mericle, “porque a maioria das empresas e consumidores presta pouca atenção aos bancos centrais.”
UBS questiona premissa central de Warsh
O economista-chefe do UBS, Paul Donovan, foi ainda mais crítico. Em sua análise, o ponto mais preocupante não foi o conteúdo do discurso em si, mas a premissa que o sustenta.
Warsh afirmou que “para algumas famílias, cinco anos de inflação elevada deixaram a impressão equivocada de que a meta de inflação do Fed estava de alguma forma acima de 2%.”
Para Donovan, o problema é que Warsh parece acreditar que os consumidores americanos conhecem e se preocupam com o que o Fed faz — o que os dados desmentem. Uma pesquisa da Ipsos realizada em 2022 mostrou que apenas 34% das famílias americanas sabem que o Fed tem o mandato de estabilizar os preços.
A pesquisa de expectativas de inflação da Universidade de Michigan ficou abaixo de 2% em apenas oito dos seus 48 anos de existência — o que sugere que poucos americanos acreditam na meta do Fed, independentemente do que o banco central comunique.
Reunião anticlimática, incerteza permanece
Antes da reunião desta semana, os mercados sinalizavam o maior nível de incerteza em três décadas sobre se os formuladores de política monetária iriam ou não elevar os juros. No fim, a reunião foi, nas palavras do próprio Goldman Sachs, “um tanto anticlimática”.
O FOMC manteve as taxas inalteradas, sem oferecer orientação sobre a direção futura dos juros e sem detalhar como o comitê interpreta o impacto da inflação no atual cenário.
A ausência de clareza deixa o mercado em compasso de espera para as próximas reuniões — especialmente setembro, quando três membros do FOMC já votaram pela alta dos juros na sessão anterior.






