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Trump escolhe Kevin Warsh para o Fed após embate com Powell

Trump escolhe Kevin Warsh para o Fed após embate com Powell

A indicação ocorre em meio a críticas de Trump a Jerome Powell, investigação do DOJ e questionamentos sobre a independência do banco central americano

O presidente Donald Trump anunciou nesta sexta-feira (30) a indicação de Kevin Warsh para assumir a presidência do Federal Reserve a partir de maio de 2026, quando se encerra o mandato de Jerome Powell. A decisão ocorre após meses de críticas públicas de Trump à condução da política monetária e em meio ao debate sobre a independência do banco central americano.

Em publicação no Truth Social, Trump classificou Warsh como “um dos grandes presidentes do Fed, talvez o melhor”, afirmando que o ex-diretor da instituição é “figura de elenco (central casting)” e “nunca decepcionará”. A escolha encerra um processo que incluiu outros nomes ventilados em Washington, como Christopher Waller, Rick Rieder e Kevin Hassett.

O anúncio de Trump e a sucessão no comando do Fed

O mandato de Powell termina oficialmente em maio de 2026. Embora ele possa permanecer como membro do Conselho de Governadores até 2028, a indicação de Warsh sinaliza a intenção da Casa Branca de promover uma inflexão na política monetária assim que o ciclo atual se encerrar.

Nos bastidores, aliados de Trump avaliam que a troca representa o fim de um período considerado excessivamente cauteloso na redução dos juros. O presidente vinha intensificando a pressão por cortes mais rápidos, sobretudo diante dos sinais de desaceleração da economia americana.

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O embate entre Trump e Powell e a questão da independência do Fed

A relação entre Trump e Powell se deteriorou ao longo dos últimos meses. O presidente passou a responsabilizar o Fed pelo nível elevado do custo do crédito, acusando a autoridade monetária de reagir de forma lenta ao arrefecimento da inflação.

O conflito ganhou novos contornos após a abertura de uma investigação pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre gastos na reforma da sede do Fed, em Washington. Powell classificou o episódio como um “pretexto político” e reiterou, em declarações recentes, a necessidade de preservar a autonomia da instituição frente a pressões do Executivo.

Mesmo sob ataque, Powell indicou que pretende cumprir seu mandato como presidente e, se possível, permanecer no conselho até 2028 — movimento interpretado por analistas como uma tentativa de proteger a institucionalidade do banco central.

Quem é Kevin Warsh e por que seu nome agrada ao mercado

Aos 55 anos, Warsh reúne experiência no mercado financeiro, no governo e no próprio banco central. Formado em políticas públicas por Stanford e em Direito por Harvard, construiu carreira no Morgan Stanley antes de atuar como assessor econômico no governo George W. Bush.

Ele foi o mais jovem diretor da história do Fed, com mandato entre 2006 e 2011, período marcado pela crise financeira global de 2008. Naquele momento, Warsh participou ativamente das decisões de socorro ao sistema financeiro, funcionando como elo entre o Fed, Wall Street e o Tesouro americano.

Diferentemente de outros nomes cogitados, vistos como excessivamente corporativos ou ideologicamente alinhados ao trumpismo, Warsh é percebido como um quadro técnico com posicionamento próprio — característica que ajuda a explicar sua boa recepção inicial pelo mercado.

A leitura da Avenue: Warsh como o “melhor nome” entre os cotados

Na avaliação de William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a escolha de Warsh foi a mais bem recebida entre as alternativas discutidas.

“Entre os nomes aventados, eu consideraria o Warsh o melhor e também o mais bem visto pelo mercado”, afirmou.

Segundo ele, outros candidatos poderiam levantar dúvidas relevantes. “Havia nomes muito ligados ao mundo corporativo, que poderiam gerar desconfiança, e outros mais alinhados a uma agenda política explícita, o que colocaria em xeque a independência do Banco Central.”

Para Castro Alves, Warsh se diferencia justamente por já ter exercido o cargo de diretor do Fed e por ter demonstrado autonomia intelectual ao longo da carreira.

“Ele tem experiência independente, pensamento firme e uma visão clara de qual deve ser o papel do Fed”, disse.

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De 2008 ao presente: o crítico do quantitative easing

Warsh esteve no centro das decisões durante a crise de 2008 e defende que, naquele contexto, o socorro aos bancos e a injeção de liquidez foram necessários. No entanto, tornou-se um crítico contundente da manutenção dessas políticas de forma permanente.

“Ele participou do quantitative easing naquele momento e reconhece que foi importante. Mas depois passou a ser um crítico ávido da expansão do balanço do Banco Central e dessa ideia de o Fed atuar continuamente para sustentar a economia”, explicou Castro Alves.

Na visão do estrategista, Warsh defende um banco central mais conservador, focado essencialmente na proteção da moeda e na preservação da credibilidade institucional.

Hawkish ou conservador? Como o mercado interpreta Warsh

Embora frequentemente rotulado como hawkish, Warsh não é visto pela Avenue como um defensor automático de juros elevados. “Eu não vejo ele como hawkish. Vejo como um crítico das políticas keynesianas que foram sendo adotadas no Fed nos últimos anos”, afirmou Castro Alves.

A distinção é relevante para o mercado. A leitura predominante é que Warsh tende a ser mais rigoroso no combate à inflação e na redução do balanço do Fed, sem necessariamente adotar uma postura restritiva em qualquer cenário de desaceleração econômica.

Reação dos mercados: dólar, juros e ouro no radar

A indicação de Warsh provocou reação imediata nos mercados. O dólar se fortaleceu e os rendimentos dos Treasuries avançaram, refletindo a percepção de uma política monetária potencialmente menos permissiva no médio prazo.

Segundo Castro Alves, o movimento também reacendeu o debate sobre o chamado debasement do dólar.

“Já estamos vendo questionamentos dessa ideia de dólar estruturalmente mais fraco. O ouro se mexeu, e o mercado começa a precificar um Fed com postura mais firme”, disse.

Reforma e legado: o que Warsh pode tentar mudar no Fed

Além da política monetária, Warsh tem defendido uma reformulação mais ampla da atuação do Fed. Ele fala em reduzir burocracia, modernizar processos e redefinir o papel da instituição na economia americana.

“Tenho a impressão de que ele quer deixar um legado para o Fed, mudar a forma como o banco central atua”, avaliou Castro Alves. “Ele é mais jovem, reformista, mas com pulso firme.”

Senado e próximos capítulos

Antes de assumir o comando do Fed, Warsh precisará passar pela sabatina no Senado, onde deve ser questionado sobre a independência da instituição e sua relação com a Casa Branca. O processo pode ser marcado por tensões políticas, especialmente enquanto persistirem investigações envolvendo a atual gestão do banco central.

Além disso, permanece a incerteza sobre o futuro de Powell no Conselho de Governadores. A eventual permanência do atual presidente no board pode funcionar como contrapeso institucional durante a transição.

Para o mercado, os próximos capítulos serão decisivos para avaliar se a troca no comando do Fed representará apenas uma mudança de nomes — ou uma transformação mais profunda na condução da política monetária americana.