O Relatório de Política Monetária (RPM), divulgado pelo Banco Central nesta quinta-feira (18), trouxe ajustes pontuais nas projeções de atividade econômica, mas carregou um recado mais duro no horizonte mais longo da política monetária: a inflação só converge para a meta de 3% no fim do período projetado, em 2028. O detalhe técnico foi apontado pelo mercado como o principal destaque do documento.
Na avaliação de Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, o documento passou longe de trazer mudanças relevantes no curto prazo.
“Não trouxe grandes novidades”, afirmou o economista ao comentar o relatório.
Segundo ele, as alterações nas projeções de crescimento foram marginais e pouco relevantes do ponto de vista macroeconômico.
PIB melhora no curto prazo, mas desaceleração segue no radar
O Banco Central revisou a projeção de crescimento do PIB de 2025 de 2% para 2,3% e, para 2026, de 1,5% para 1,6%. Para Kautz, essa melhora ajuda a fotografia de curto prazo, mas não altera o diagnóstico para o ciclo econômico à frente, marcado por desaceleração da atividade e efeitos defasados da política monetária.
O economista também chamou atenção para a projeção de crédito praticamente estável em 2026, algo que classificou como surpreendente diante dos sinais de desaceleração já observados neste ano, com impactos que tendem a se estender para o próximo.
Essa leitura é compartilhada por outros analistas do mercado. Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, a revisão positiva do PIB tem efeito limitado sobre a trajetória futura da economia, enquanto o foco permanece nos desafios de 2026.
Já Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX, avalia que o número funciona mais como confirmação de cenário do que como surpresa, deslocando a atenção para a qualidade do crescimento e seus impactos inflacionários.
Inflação só na meta em 2028 é o ponto central do relatório
O principal destaque do RPM, segundo Kautz, está nas projeções de inflação para além do horizonte relevante da política monetária.
“O principal destaque foi a projeção olhando para além do horizonte relevante”, afirmou. Nesse intervalo — do terceiro trimestre de 2027 ao segundo trimestre de 2028 — a inflação só converge para a meta de 3% no fim do período.
O economista lembrou que havia expectativa de convergência já no fim de 2027, mas que, no novo horizonte relevante — que passa a ser o terceiro trimestre de 2027 — a projeção do Banco Central é de 3,2%. Ele também destacou o papel do câmbio nesse resultado, considerando que o BC trabalha com uma taxa de R$ 5,30, abaixo dos níveis observados atualmente, o que pode pressionar revisões futuras.
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Juros: menos espaço para cortes do que sugere o consenso
Diante desse cenário, Kautz avalia que o RPM traz “um pouquinho mais duro” do ponto de vista da comunicação, ainda que se trate de uma mudança técnica. Para ele, o documento sugere mais cautela por parte do Banco Central e reduz o espaço para cortes de juros em relação ao que está embutido no Boletim Focus.
Segundo o economista, as projeções da EQI para a Selic seguem acima do consenso, com taxa de 12,5% em 2026 e entre 11% e 11,5% no fim de 2028, enquanto o Focus ainda indica números mais baixos. Nesse contexto, ele avalia que “tem espaço para uma correção do Focus”, movimento que já começa a aparecer na curva de juros.
Na leitura final, Kautz resume o documento como “um relatório de política monetária que não trouxe grandes novidades, talvez um pouquinho mais duro”, com a curva de juros já reagindo não apenas aos fundamentos econômicos, mas também ao ambiente político.
Na avaliação da EQI Investimentos, o Relatório de Política Monetária não muda o cenário imediato para a economia, mas endurece a discussão sobre juros ao empurrar a convergência da inflação para um horizonte mais distante. O ponto central está menos nas revisões marginais de PIB e mais na mensagem que o Banco Central envia para o médio prazo.
“O principal destaque foi a projeção olhando para além do horizonte relevante, onde a inflação só converge para o três, cravado em 28, quando havia expectativa de que isso pudesse acontecer já no final de 2027. No fim das contas, é um relatório talvez um pouquinho mais duro, justamente por conta dessas projeções no horizonte mais longo, o que sugere mais cautela do Banco Central e um espaço menor para corte de juros do que o que aparece hoje no Focus”, afirmou Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos.
Na prática, essa leitura sustenta a visão de que o ciclo de flexibilização monetária tende a ser mais lento do que o consenso ainda embute. Com a inflação projetada acima da meta no novo horizonte relevante, a EQI segue trabalhando com projeções de Selic superiores às do Boletim Focus, enquanto a curva de juros já começa a incorporar um prêmio maior, tanto por fundamentos quanto por ruído político.






