Os protestos que tomam as ruas do Irã nas últimas semanas reacenderam o debate sobre a estabilidade do regime liderado por Ali Khamenei e a possibilidade — cada vez mais mencionada por analistas — de uma queda histórica. Em análise assinada por Ian Bremmer, presidente da Eurasia Group, o cenário atual é descrito como um momento de ruptura sem precedentes desde o levante “Mulheres, Vida, Liberdade” em 2022 e, possivelmente, desde o Movimento Verde de 2009.
Segundo Bremmer, “por mais de duas semanas, iranianos têm tomado as ruas nas maiores manifestações que o país viu” em mais de uma década. A faísca inicial foi econômica: comerciantes de Teerã fecharam suas lojas no fim de dezembro para protestar contra “uma moeda em queda livre e uma inflação galopante que elevou os preços dos alimentos em mais de 70% no último ano”, escreve o analista.
Em poucos dias, os protestos se espalharam pelas 31 províncias e atraíram grupos sociais que, em outros ciclos de turbulência, permaneceram em casa — como a classe média e trabalhadores de meia-idade.
O impacto político foi imediato. Multidões passaram a gritar “morte ao ditador”, levando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a declarar que o povo havia “assumido o controle” — algo que Bremmer corrige com ironia: “fact‑check: não tão rápido”.
A resposta do Estado iraniano, entretanto, foi ainda mais brutal que em episódios anteriores. Diante do apagão de internet e restrições severas à imprensa, é difícil obter números precisos. Mesmo assim, autoridades iranianas admitiram cerca de 3.000 mortos até agora — “o número real provavelmente é muito maior”, diz Bremmer. Se confirmado, seria “a repressão mais sangrenta dos 47 anos da República Islâmica”.
Diante de tamanha violência, a pergunta tornou inevitável: o regime está perto do colapso? Bremmer destaca a análise do especialista Karim Sadjadpour, segundo quem o Irã cumpre quase todos os critérios clássicos de queda revolucionária — de “crise fiscal, elites alienadas e oposição ampla” a um ambiente internacional hostil. Sadjadpour descreve o país como um “regime zumbi”.
Mas um elemento impede o desfecho: as forças de segurança continuam leais. Como escreve Bremmer, “enquanto os homens armados permanecerem leais, o regime pode resistir”. Khamenei escolheu a dedo os comandantes das forças armadas e da Guarda Revolucionária, e até agora não há sinais de fissuras.
O papel dos EUA
O envolvimento dos Estados Unidos adiciona outro nível de incerteza. Trump prometeu “resgatar os manifestantes iranianos” e acenou com sanções e possíveis ataques militares. Segundo Bremmer, o presidente quer ser visto como decisivo, mas os possíveis bombardeios seriam “limitados e simbólicos”, visando principalmente milícias como a Basij ou instalações ligadas à Guarda Revolucionária. No entanto, ele alerta que tais ataques podem “dar ao regime a narrativa que deseja” — a de que os protestos são obra de potências estrangeiras.
No balanço final, Bremmer prevê um impasse: “Trump lança ataques simbólicos. O Irã absorve o golpe. As queixas permanecem — e o abismo entre um Estado ilegítimo e um povo que quer ser livre só aumenta.” Khamenei pode sobreviver a este ciclo, mas, como conclui o analista, “a República Islâmica está vivendo de tempo emprestado. Seus dias estão contados”.
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