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O elefante na sala do próximo presidente

O elefante na sala do próximo presidente

À medida que nos aproximamos do fim do ano, o debate sobre as perspectivas para 2026 ganha força

À medida que nos aproximamos do fim do ano, o debate sobre as perspectivas para 2026 ganha força. No entanto, para compreender quais investimentos tendem a se destacar no período, é essencial olhar além do horizonte imediato e avaliar a dinâmica fiscal que moldará o país nos próximos anos. Esse é o ponto central desta newsletter.

Independentemente do resultado eleitoral, o próximo governo enfrentará a necessidade urgente de promover um ajuste fiscal capaz de reequilibrar as contas públicas e interromper a trajetória ascendente da dívida. Segundo o Instituto Fiscal Independente (IFI), um dos principais referenciais técnicos em monitoramento fiscal no Brasil, o país avança em direção a um verdadeiro estrangulamento fiscal. 

O diagnóstico é claro: apenas para estabilizar a dívida bruta, seria necessário um superávit primário de aproximadamente 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Entretanto, a meta estabelecida para este ano é de resultado neutro (0%) – e mesmo essa meta não deve ser alcançada. 

As projeções apontam para um déficit próximo ao limite inferior da banda de tolerância, de -0,25%, o que ainda dependeria da realização de cerca de R$ 27,1 bilhões em superávit primário até o fim do ano, um desafio significativo diante do desempenho recente das contas públicas. 

A deterioração fiscal ocorre apesar de um ambiente de forte arrecadação. Nos últimos anos, a carga tributária vem subindo de maneira consistente, com 2024 registrando o maior patamar da série histórica.  

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Ainda assim, o avanço da despesa supera o crescimento da receita, e a dívida pública segue acelerando, aproximando-se novamente dos níveis mais imediatos pós-pandemia – o ponto mais elevado desde o início do Plano Real – e acima do observado no início do atual governo, em 2022, conforme ilustrado no gráfico abaixo.

As projeções reforçam a preocupação: a relação dívida/PIB deve atingir 77,6% ao final de 2025 e 82,4% em 2026, mantendo tendência de alta até pelo menos 2035. Esse nível já se mostra elevado para economias emergentes, como evidencia abaixo o comparativo internacional baseado nos dados do FMI.

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O quadro se agrava quando analisamos o engessamento orçamentário. As despesas obrigatórias – que incluem saúde, educação, Previdência, programas sociais e emendas parlamentares – já ultrapassam 90% do orçamento federal.

Segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, esse percentual deve continuar avançando até praticamente esgotar o espaço para despesas discricionárias por volta de 2029.

Com a compressão das despesas discricionárias, o governo perde capacidade de investimento, reduzindo o potencial de expansão da economia.

Esse dinamismo mais fraco limita a expansão da arrecadação, enquanto as despesas obrigatórias seguem crescendo, aprofundando a deterioração fiscal.

Uma alternativa natural seria ampliar ainda mais a arrecadação. No entanto, a carga tributária já atingiu níveis historicamente elevados, e os sinais de esgotamento político e econômico são evidentes.

O governo tem enfrentado dificuldades para aprovar novas medidas tributárias no Congresso, como demonstram a rejeição inicial da MP 1.303/25 e a derrubada do aumento do IOF, posteriormente revertido pelo Supremo Tribunal Federal. 

A combinação entre forte rigidez orçamentária, endividamento crescente e limitações para elevar a arrecadação cria as condições para um estrangulamento fiscal, cenário em que as contas públicas deixam de ser financeiramente sustentáveis sem mudanças estruturais.

Há, portanto, um grande “elefante na sala” à espera do próximo presidente. Seja qual for o eleito, o espaço para postergar o ajuste fiscal praticamente se esgotou, e o impacto sobre o orçamento de 2027 já será relevante caso medidas não sejam tomadas rapidamente.

A condução adequada desse ajuste tem implicações diretas para os ativos brasileiros. Um plano fiscal robusto e crível reduziria de maneira significativa o risco-país, abriria espaço para uma forte queda da curva de juros futuros e teria impacto positivo sobre ativos de risco.

Por outro lado, a ausência de credibilidade pode produzir o efeito inverso: elevação da curva, depreciação cambial e maior dificuldade para o Tesouro rolar a dívida. Por isso, entendemos que a dinâmica fiscal será um dos temas centrais para a construção de portfólios no Brasil em 2026 e nos anos seguintes.

Os cenários possíveis são distintos e exigirão atenção redobrada por parte dos investidores. Afinal, ignorar o ajuste fiscal é como fingir que o elefante não está na sala – ele já ocupa espaço, influencia os mercados e, mais cedo ou mais tarde, exigirá uma resposta à altura.

João Neves
Escrito porJoão Neves Analista de Renda Fixa da EQI Research

Economista formado pelo Insper, com mestrado em Applied Finance na Australian Graduate School of Management, da Universidade de New South Wales. João atuou por 5 anos na Skopos Investimentos antes de se juntar à EQI em 2022, onde atua como analista de renda fixa.