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Federal Reserve: Mercado já considera aumento do juro

Federal Reserve: Mercado já considera aumento do juro

BofA vê 75 pontos-base de altas como cenário central, mas descarta tanto uma alta isolada de 25 pontos-base quanto um ciclo completo

Os mercados financeiros nos EUA já praticamente não veem mais cortes do Federal Reserve nos juros em 2026, avalia o Bank of America em um relatório enviado a clientes nesta sexta-feira (20). “Os clientes estão começando a perguntar sobre os riscos de elevações”, aponta Aditya Bhave, economista para os EUA do banco.

O BofA identifica ao menos três condições para que o Fed eleve as taxas: mercado de trabalho estável (desemprego abaixo de 4,5%), nova aceleração da inflação core (PCE core acima de 3,2%) e Jerome Powell, atual presidente da autoridade monetária, ainda no comando.

Essas condições têm maior probabilidade de ser atendidas se o choque do Irã for sustentado, mas moderado – o que o banco chama de “zona ideal” para altas, com o petróleo WTI entre US$ 80 e US$ 100 por barril.

Preço de mercado da variação cumulativa da taxa de juros do Fed até junho e dezembro de 2026 (pontos-base)

Fonte: Bloomberg e Bank of America

A alta contínua nos preços de energia e o tom cauteloso (hawkish) do Fed, do BCE (Banco Central Europeu) e do Banco da Inglaterra provocaram um forte ajuste nos juros curtos globais. Com isso, os mercados praticamente eliminaram as apostas em cortes do Fed até o final de 2026, Há menos de três semanas, 60 pontos-base em cortes ainda estavam precificados.

No Brasil, o corte também foi reduzido, passando de 50 pontos-base para 25 p.b..

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“Outra forma de interpretar o cenário: os investidores agora enxergam riscos equilibrados entre cortes e altas. Choques de oferta criam riscos bimodais para a política monetária, dependendo se os formuladores de política estão mais preocupados com a inflação ou com o mercado de trabalho”, destaca Bhave.

O BofA vê três gatilhos para o Fed elevar o juro ainda este ano.

Empregos EUA
(Imagem: Unsplash)

Mercado de trabalho

Para considerar uma alta, o Fed precisa ter confiança de que o mercado de trabalho está resistindo.

“Em 2022, o banco central subiu os juros de forma agressiva mesmo em meio a uma recessão técnica porque a taxa de desemprego estava abaixo de 4% e a criação de empregos média era de quase 400 mil vagas por mês”, diz o banco.

Na visão do BofA, a taxa de desemprego precisaria permanecer abaixo de 4,5% para que o Fed voltasse a subir os juros. Além disso, uma demanda do consumidor resiliente facilitaria a decisão de subir os juros.

Inflação

O segundo ponto seria alguma evidência de que o choque do Irã está afetando a inflação core — e não apenas os preços de energia. O BofA ressalta que este indicador já está em nível “desconfortável”.

O banco e o Fed projetam 3% ao ano em fevereiro.

Uma nova alta para 3,2% ou mais exigiria que o PCE core registrasse 0,24% ao mês ou mais nos próximos três meses – o que poderia ser um passo longe demais para os formuladores de política”, pontua a análise.

Jerome Powell dá entrevista após decisão do Fomc
Foto: Divulgação/Fed

Powell no comando

O BofA classifica Jerome Powell como um dovish moderado, ou seja, que priorizará o mercado de trabalho sobre a inflação se os riscos dos dois lados estiverem equilibrados.

“Contudo, ele é significativamente menos dovish do que o provável indicado para sucedê-lo, Kevin Warsh“, explica Bhave.

Segundo o economista, Warsh é difícil de interpretar: foi muito hawkish no passado, inclusive durante a crise financeira global – postura que se mostrou equivocada – e criticou o Fed por ficar atrás da curva durante a alta de inflação de 2021-2022.

Apesar disso, seus comentários recentes enfatizaram a necessidade urgente de cortar os juros, o que torna difícil imaginar que ele reverta para sua visão hawkish ao assumir o cargo.

Quanto ao calendário, o BofA assumia que Warsh seria confirmado a tempo de presidir a reunião de junho. No entanto, os riscos de atraso cresceram. O governo parece determinado a investigar Powell.

Apesar disso, ele confirmou que permanecerá no Fed até que sua situação seja resolvida “com transparência e definição”, e que presidirá a reunião de junho caso um novo presidente não tenha sido confirmado.

Federal Reserve
Adobe Stock

Sobe ou desce?

O BofA ainda considera cortes mais prováveis do que altas. Se o choque do petróleo arrefecer rapidamente, o Fed provavelmente o ignorará e retomará o viés dovish que Powell descartou na coletiva de março. Apesar disso, se o choque for grande demais, o Fed provavelmente estará preocupado demais com o mercado de trabalho para subir os juros.

Caso o Fed acabe subindo os juros, o BofA vê 75 pontos-base de altas como o cenário central.

“O Fed poderia levar as taxas de volta ao patamar anterior aos cortes do ano passado, com base no argumento de que o mercado de trabalho se estabilizou e os riscos de inflação são semelhantes aos do início de 2025”, calcula o banco.

As altas de 50 pontos-base (menos agressivo) ou de 100 a 150 pontos-base (mais agressivo) também estão no radar. No entanto, o banco não espera uma alta isolada de 25 pontos-base – o que transmitiria uma falsa precisão sobre a transmissão da política monetária – nem um ciclo completo de altas, já que o Fed não está tão claramente atrás da curva como estava em 2022.

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