A abstenção poderá ser o fiel da balança em uma eventual disputa de segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026. O risco é considerado maior para o petista porque o não comparecimento às urnas costuma ser mais elevado entre eleitores de baixa renda e escolaridade, segmentos nos quais Lula apresenta melhor desempenho.
A avaliação foi apresentada durante o painel “Eleições 2026: Pesquisas e Cenários”, realizado no Macro Day do BTG Pactual. Participaram Murilo Hildalgo, CEO do Instituto Paraná Pesquisas; Marcelo Tokarski, CEO da Nexus/FSB; Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa; e Andrei Roman, CEO da AtlasIntel. A moderação foi de Carlos Sequeira, sócio e head de Research do BTG Pactual.
O cenário poderá ser agravado caso as eleições para governador sejam resolvidas no primeiro turno em estados populosos. Sem uma disputa estadual em andamento, as campanhas presidenciais perdem estruturas locais importantes para mobilizar o eleitorado no segundo turno.
“Nos estados, é a campanha para governador que leva o eleitor e o empurra para a urna, principalmente no interior, onde Lula é bem votado. A abstenção talvez seja o fiel da balança se chegarmos ao segundo turno com uma diferença mínima entre o presidente e Flávio Bolsonaro”, afirmou Tokarski.
Segundo o executivo, quase metade do eleitorado está concentrada em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Ceará, estados nos quais as disputas estaduais poderão terminar já no primeiro turno. Parte significativa desse contingente está no Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula.
Economia e segurança pressionam Lula
O presidente também entra na campanha pressionado pela avaliação do governo. Dados apresentados pela Nexus/FSB apontam 46% de aprovação e 51% de reprovação. Embora a rejeição a Flávio Bolsonaro ainda preserve a competitividade de Lula em uma disputa direta, os participantes destacaram que a desaprovação limita a capacidade de crescimento do candidato à reeleição.
Para Hildalgo, dois assuntos deverão ocupar posição central na decisão do eleitor: a situação econômica das famílias e a segurança pública. O endividamento e os preços dos alimentos dificultam que o governo transforme indicadores macroeconômicos em uma percepção mais favorável no cotidiano da população.
“Hoje, os grandes problemas apontados pelo eleitor são a economia, especialmente o endividamento das famílias e o preço do supermercado, e a segurança. A picanha e a cerveja, que foram símbolos importantes na campanha passada, agora podem se tornar um problema porque as pessoas dizem que continuam sem conseguir comprá-las”, avaliou Hildalgo.
Cila observou que Lula conseguiu melhorar temporariamente sua avaliação com programas como o Desenrola, mas ainda não apresentou uma iniciativa com impacto comparável ao de medidas que alteraram estruturalmente a renda nas eleições anteriores.
“A vitrine do presidente Lula é muito escassa. Ele voltou em 2022 apoiado na memória afetiva de Lula 1 e Lula 2, associada a um período de prosperidade. Hoje, as pessoas se perguntam o que será um Lula 4, porque ele não tem essa mesma perspectiva para oferecer de forma tão contundente”, afirmou Cila.
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São Paulo pode definir disputa presidencial
Além da abstenção e da avaliação do governo, São Paulo deverá receber atenção especial das campanhas. Os institutos identificam uma diferença de aproximadamente 10 a 15 pontos percentuais entre as intenções de voto em Tarcísio de Freitas para o governo estadual e em Flávio Bolsonaro para a Presidência.
O descompasso indica a existência de eleitores que apoiam Tarcísio, mas preferem Lula na disputa nacional. Para Flávio, converter parte desse grupo será essencial para recuperar a vantagem obtida por Jair Bolsonaro no estado em 2022.
“Jair Bolsonaro venceu Lula em São Paulo com cerca de dez pontos de diferença. Hoje, essa vantagem de Flávio está em três ou quatro pontos. Se ele conseguir voltar para oito ou dez pontos, sua chance de ganhar aumenta muito. Se permanecer estável ou diminuir, ficará muito difícil”, afirmou Hildalgo.
A participação de Tarcísio em um eventual segundo turno também será determinante. Caso seja reeleito governador no primeiro turno, o nível de engajamento do governador paulista na campanha de Flávio poderá influenciar a mobilização do maior colégio eleitoral do país.
Para os dirigentes dos institutos, a eleição permanece aberta e deverá ser decidida por margens estreitas. Mais do que conquistar novos grupos, Lula e Flávio precisarão garantir que seus próprios eleitores compareçam às urnas — sobretudo em um segundo turno sem disputas estaduais capazes de estimular a participação.






