O CPI dos EUA (Índice de Preços ao Consumidor) de dezembro trouxe um alívio para o mercado, mas ainda não o suficiente para destravar, de forma definitiva, um novo ciclo de cortes de juros. A avaliação é de William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, após a divulgação do dado pelo Bureau of Labor Statistics (BLS) nesta terça-feira (13).
O índice cheio subiu 0,3% em dezembro, na comparação mensal com ajuste sazonal, e avançou 2,7% em 12 meses. Já o núcleo — que exclui alimentos e energia e é acompanhado de perto por investidores por capturar melhor a tendência inflacionária — teve alta de 0,2% no mês e de 2,6% em 12 meses.
“Eu diria o seguinte: a inflação nos Estados Unidos segue perdendo força, mas ainda não tá dando um sinal verde definitivo para cortes de juros”, disse Castro Alves.
Na leitura do estrategista, o mercado reagiu de forma imediata ao dado. Os futuros de ações avançaram e os juros dos Treasuries recuaram. Ainda assim, ele pondera que o CPI, por si só, não resolve a equação do Fed (Federal Reserve) — até porque a autoridade monetária costuma dar mais peso ao núcleo do PCE (índice de gastos com consumo pessoal) como termômetro de longo prazo.
O ponto é que, apesar da desaceleração, a inflação ainda segue acima da meta de 2% perseguida pelo banco central americano — o que reforça a postura de cautela para os próximos passos.
A “caixa preta” do CPI: moradia segue como vilão
Quando se abre a composição do CPI, o alívio do número cheio perde um pouco de força. Segundo o BLS, o índice de shelter (moradia) subiu 0,4% em dezembro e foi o principal fator de alta do CPI no mês, refletindo o peso que esse componente tem dentro do indicador.
O relatório também mostrou que os preços de alimentos subiram 0,7% no mês, com avanço tanto da alimentação em casa quanto fora do domicílio. Já o índice de energia teve alta de 0,3%.
Para Castro Alves, é justamente essa dinâmica que torna a leitura do CPI mais “mista” do que a reação inicial do mercado sugeriu.
O estrategista também chamou atenção para o comportamento de alguns grupos que ajudaram a aliviar o índice, principalmente entre bens. O BLS destacou queda em categorias como comunicação (-1,9%) e carros e caminhões usados (-1,1%), além de recuo em itens de mobiliário e operações domésticas (-0,5%).
Ao mesmo tempo, alguns segmentos seguiram pressionando — especialmente dentro de serviços. Entre os itens que subiram em dezembro, o BLS citou recreação, passagens aéreas, cuidados médicos, vestuário, educação e cuidados pessoais.
No caso da recreação, o BLS apontou alta de 1,2% no mês, o maior avanço mensal já registrado para o índice desde o início da série, em 1993.
Inflação desacelera, mas ainda não “libera” o Fed
A leitura da Avenue é que o CPI ajuda a sustentar a narrativa de desinflação, mas ainda não permite que o Fed declare vitória. Em outras palavras: o “incêndio” não voltou, mas as brasas ainda estão quentes.
“O resumo da ópera aqui é que a inflação ela não tá reacesa, mas também não foi totalmente domada. Essa que é verdade”, avaliou Castro Alves.
O estrategista também afirmou que as tarifas — tema que vinha gerando ruído em discussões recentes sobre inflação — não apareceram como um problema relevante no dado de dezembro. Ainda assim, ele ressaltou que o assunto segue no radar, principalmente por conta do componente político que pode influenciar expectativas e decisões.
Diante desse quadro, a avaliação é que o Fed tende a manter uma postura de cautela no curto prazo, acompanhando a maturação dos efeitos dos cortes realizados em 2025 e aguardando novos dados para confirmar se a inflação continuará convergindo para a meta.
“O Fed tende a seguir no modo esperar para ver”, disse o estrategista-chefe da Avenue.
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O que esperar dos juros: “ajuda, mas não resolve”
Para quem espera juros mais baixos já no início do ano, o CPI de dezembro é um dado favorável — mas insuficiente para destravar uma mudança imediata na taxa básica.
Na avaliação de Castro Alves, a tendência segue sendo de manutenção no curto prazo, com espaço para cortes apenas mais à frente, caso a trajetória de desaceleração se confirme e os componentes mais persistentes — como moradia e serviços — percam tração.
“Para quem espera juros mais baixo no curto prazo, eu diria que o dado ajuda, mas não resolve”, concluiu.
Agora, o mercado volta as atenções para os próximos indicadores de inflação e atividade, que devem ajudar a calibrar o cenário para 2026 — e, principalmente, indicar se o Fed terá espaço para cortar juros sem reacender pressões sobre os preços.






