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Brasil entrou na ‘Zona da Morte’ financeira, diz Paulo Rabello

Brasil entrou na ‘Zona da Morte’ financeira, diz Paulo Rabello

Economista critica modelo do Banco Central por não computar os custos financeiros da perseguição à meta de inflação de 3%

O economista Paulo Rabello de Castro, ex-presidente do BNDES, publicou artigo no jornal O Estado de Minas com uma tese provocadora: o Brasil ingressou na “Zona da Morte” do custo financeiro. A metáfora vem do alpinismo, e a analogia é precisa.

A Zona da Morte é o nome dado pelo médico suíço Edouard Wyss-Dunant para descrever os efeitos letais da exposição acima de 8 mil metros de altitude, onde o organismo humano literalmente começa a morrer por falta de oxigênio.

Impossível não lembrar dos efeitos devastadores de uma escalada ao Everest quando comparamos a métrica da perda de oxigênio com a perda do oxigênio financeiro à medida que a taxa Selic avança além dos 8% acima da variação do IPCA“, escreveu o economista.

Juros como sinal, não como punição

O ponto central do artigo é que os juros perderam sua função original. “Juros, tal como preços num supermercado, representam um sinal, uma referência de abundância ou escassez. Nada mais”, afirmou Rabello de Castro.

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Como o juro básico puxa para cima todas as demais camadas de risco do sistema financeiro, seu efeito se espalha do capital de giro das empresas ao financiamento imobiliário, passando pelo crédito ao consumidor e pelos investimentos em infraestrutura.

“O sinal dos juros, no seu movimento de alta, deve ser referência para toda a economia moderar seu consumo, valendo, com prioridade, para o grande consumidor: o governo em sentido amplo, seus três poderes e os três níveis de governo”, escreveu o economista.

É exatamente aí que está o nó do problema.

Gasto público sem freio transfere o arrocho para o setor privado

Como o governo não contribui para a contenção do consumo pelo lado fiscal, o peso recai inteiramente sobre famílias e empresas.

“Se o governo, pelo lado do seu gasto fiscal, não contribuir nada ao freio do consumo, tal inércia corresponderá a um arrocho extra nos gastos das famílias e empresas”, alertou.

O resultado já aparece nas estatísticas: pedidos de recuperação judicial em alta contínua e superendividamento em níveis que o economista compara a uma pandemia financeira.

Os juros deixaram de ser referência de moderação do consumo para todos e viraram arma mortífera sobre as atividades produtivas“, escreveu Rabello de Castro.

Para ele, os esforços de economistas que defendem a política atual como inevitável se tornam, nesse patamar de juros, “um contrassenso e, no limite, uma completa estupidez”.

Modelo do BC não calcula o custo de manter o alpinista no cume

A crítica mais direta é ao modelo matemático do Banco Central, que projeta o retorno da inflação à meta de 3% ao ano apenas em 2028.

“Esse modelo, por ser simplório e não levar em conta os custos financeiros dessa perseguição à meta, arrisca manter o alpinista exposto por tempo demais no cume do Everest, apreciando a vista gloriosa, até a morte chegar”, comparou.

“Portanto, nesse nível de juros, o modelo do Banco Central não é apropriado nem aponta a solução de menor custo social. Defender esse modelo de controle torna-se fútil e, eventualmente, fatal”, concluiu Paulo Rabello de Castro.

O artigo chega num momento em que o debate sobre dominância fiscal e os limites da política monetária ganha força crescente entre economistas e no mercado financeiro brasileiro.