A explosão do uso de inteligência artificial está levando grandes empresas de tecnologia a avaliar soluções cada vez mais ambiciosas, incluindo a instalação de data centers no espaço. Segundo análise da consultoria Wood Mackenzie, o custo dessa alternativa ainda é um obstáculo significativo, embora a pressão crescente sobre infraestrutura terrestre esteja acelerando o debate.
A demanda global de energia por data centers deve saltar de 460 TWh em 2026 — equivalente a cerca de metade de toda a geração elétrica do Japão — para 1.280 TWh em 2030 e atingir 3.700 TWh até 2040, um crescimento de 703%. Esse avanço reflete, principalmente, a evolução da inteligência artificial, com agentes capazes de consumir até 40 mil vezes mais poder computacional por tarefa em relação aos chatbots atuais.
Infraestrutura sob pressão impulsiona soluções espaciais
No ambiente terrestre, a expansão da capacidade enfrenta gargalos estruturais relevantes. Nos Estados Unidos, a conexão de novos projetos à rede elétrica pode levar até sete anos, enquanto equipamentos críticos, como turbinas a gás, enfrentam atrasos até o fim da década.
Além disso, em regiões mais secas, sistemas de resfriamento competem por recursos hídricos escassos, enquanto custos de construção seguem pressionados por mão de obra e insumos mais caros. Esse conjunto de restrições tem levado empresas a considerar alternativas fora do planeta, incluindo data centers orbitais.
Custo ainda é principal barreira
Apesar do interesse crescente, a viabilidade econômica ainda está distante. Um data center orbital de 1 gigawatt teria custo estimado em US$ 170 bilhões — mais de três vezes o valor de uma instalação equivalente em terra.
Segundo a Wood Mackenzie, cerca de 60% desse total está relacionado a custos de lançamento e produção de satélites. Para que o modelo se torne competitivo, seria necessária uma redução de aproximadamente 70% nesses custos, dependente da continuidade do avanço tecnológico e da queda exponencial nos preços de lançamentos espaciais.
SpaceX lidera corrida em um mercado concentrado
Há sinais de que essa redução pode ocorrer. O número de lançamentos orbitais chegou a 324 em 2025, alta de 25% em relação ao ano anterior, com operadores comerciais responsáveis por 70% das missões. Os custos já caíram cerca de 90% em comparação com foguetes antigos, impulsionados por tecnologias reutilizáveis.
Nesse contexto, a SpaceX (SPCX34), em parceria com a xAI, lidera os planos mais ambiciosos, com projetos para adicionar até 100 gigawatts de capacidade computacional orbital por ano — um volume dez vezes superior à soma dos demais concorrentes globais. O setor, por enquanto, permanece altamente concentrado em empresas americanas.
Mesmo com esse movimento, o investimento em infraestrutura terrestre segue dominante. A Wood Mackenzie projeta US$ 9 trilhões em investimentos acumulados entre 2026 e 2040 para a construção de cerca de 395 gigawatts de capacidade em data centers convencionais.
Segundo Robert Liew, diretor de pesquisa da consultoria, as limitações no modelo atual são reais, mas não devem ser resolvidas rapidamente. Ainda assim, ele ressalta que a alternativa orbital depende de avanços relevantes na curva de custos para se tornar competitiva.

A visão de Elon Musk
Elon Musk defende que a viabilidade dessa infraestrutura depende de um salto sem precedentes na capacidade de lançamento de cargas.
Em texto recente, o executivo destacou que, ao longo da história da exploração espacial, nunca houve veículos capazes de transportar as “megatons de massa” necessárias para sustentar data centers orbitais em larga escala, além de bases permanentes na Lua ou cidades em Marte.
Mesmo em 2025, considerado um ano recorde para lançamentos, apenas cerca de 3 mil toneladas foram colocadas em órbita.
Segundo Musk, o desenvolvimento do foguete Starship deve mudar esse cenário. A proposta envolve atingir um ritmo de lançamentos extremamente elevado, potencialmente com voos a cada hora, transportando até 200 toneladas por missão.
Esse avanço permitiria enviar milhões de toneladas ao espaço por ano, criando as condições para uma infraestrutura orbital robusta voltada à computação.
Na prática, cada tonelada de satélites poderia gerar cerca de 100 kW de capacidade computacional, o que viabilizaria a adição de até 100 gigawatts anuais de processamento para inteligência artificial.
O executivo argumenta que, em um horizonte de dois a três anos, a computação no espaço pode se tornar a alternativa mais barata para suportar o crescimento da inteligência artificial. Esse ganho de eficiência abriria caminho para avanços tecnológicos relevantes, ao permitir o treinamento de modelos em escala inédita.
Em uma visão mais ampla, Musk afirma que a expansão de data centers orbitais também serviria como base para projetos mais ambiciosos, incluindo a industrialização da Lua e o desenvolvimento de uma civilização em Marte, com impacto potencial na exploração espacial e no uso de energia em larga escala no futuro.
Leia também:






