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Minério de ferro: mercado está errado ao precificar sobreoferta

Minério de ferro: mercado está errado ao precificar sobreoferta

Projeções indicam possível déficit relevante de minério até meados da próxima década, explicam os analistas do BTG

A tese de que o mercado global de minério de ferro caminha para uma sobreoferta estrutural vem sendo questionada por análises recentes do BTG Pactual. Com base em discussões do Singapore Iron Ore and Steel Forum, os analistas destacam sinais de que o equilíbrio entre oferta e demanda pode estar mais apertado do que o consenso sugere.

Segundo o banco, projeções apresentadas pela Rio Tinto indicam que o mundo precisará de cerca de 650 milhões de toneladas anuais adicionais de minério até 2035. No entanto, apenas cerca de 300 milhões de toneladas em nova capacidade estão atualmente comprometidas.

“Os números sugerem um potencial déficit relevante de oferta, caso novos projetos não avancem”, afirmam Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo.

Na prática, isso colocaria em xeque a leitura predominante de excesso estrutural de minério de ferro, apontando para um cenário mais equilibrado — ou até deficitário — no longo prazo.

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Oferta limitada e efeito da depleção

Um dos principais fatores por trás dessa visão é a depleção das reservas existentes, frequentemente subestimada pelo mercado. A indústria registra taxas de esgotamento entre 60 milhões e 80 milhões de toneladas por ano, o que implica uma redução significativa da oferta ao longo do tempo.

“Grande parte da capacidade futura deverá repor produção perdida, e não necessariamente expandir a oferta líquida”, destacam os analistas do BTG Pactual.

Nesse contexto, projetos como o Simandou, na África, com capacidade de 120 milhões de toneladas anuais, devem ser vistos mais como substituição do que expansão.

Essa dinâmica reduz o impacto de novos investimentos sobre o equilíbrio global e diminui o risco de excesso estrutural de oferta, como alguns investidores ainda projetam.

Demanda resiliente e novos vetores

Do lado da demanda, o cenário também se mostra mais robusto do que o esperado. Embora o consumo de aço ligado à construção na China tenha recuado de forma significativa ao longo da década, outros segmentos vêm compensando essa queda.

Infraestrutura, manufatura, transição energética e exportações impulsionam a demanda chinesa, mantendo níveis elevados de produção de aço.

“A resiliência da demanda chinesa continua sendo subestimada, especialmente fora do setor imobiliário”, afirmam os analistas.

Além disso, novos polos de crescimento estão ganhando relevância, com destaque para Índia e Sudeste Asiático. A Índia, em particular, planeja expandir fortemente sua capacidade de produção de aço, o que pode transformá-la em um importador relevante de minério nos próximos anos.

Dividendos Vale são esperados para os próximos trimestres
Foto: Adobe Stock

Preços e implicações para o setor

Outro argumento central da análise é a inclinação da curva de custos do setor. Uma parcela significativa da produção global depende de preços relativamente elevados para ser economicamente viável, com volumes relevantes exigindo cotações acima de US$80 a US$90 por tonelada.

“Uma parte relevante da oferta global é economicamente sensível, o que reforça um piso estrutural para os preços”, apontam os analistas do BTG Pactual. Esse fator limita quedas mais acentuadas e sustenta um ambiente mais favorável para produtores.

Diante desse conjunto de fatores, o banco avalia que o consenso de preços convergindo para níveis próximos a US$80 por tonelada pode estar excessivamente pessimista. “O cenário de preços mais altos por mais tempo parece subprecificado pelo mercado”, dizem Correa, Arazi e Gotardo.

Nesse contexto, empresas como a Vale (VALE3) aparecem como potenciais beneficiárias, ainda negociando a múltiplos considerados descontados frente ao seu potencial de geração de caixa. A revisão do equilíbrio global de oferta e demanda pode, assim, trazer implicações relevantes para valuations no setor.