A sinalização da China de que precisará ampliar estruturalmente suas importações de proteína nos próximos anos reforça uma perspectiva positiva para a carne bovina brasileira no longo prazo, avalia a Genial Investimentos. Segundo o analista Lucas Vello, o crescimento esperado da classe média chinesa sustenta esse cenário.
“O pano de fundo de demanda é genuinamente forte e plurianual, impulsionado pela expansão da classe média chinesa”, afirma Vello. A estimativa é que esse grupo atinja cerca de 700 milhões de pessoas até 2032, ampliando o consumo de proteína no país.
Ainda assim, o foco no curto prazo se desloca para a dinâmica das cotas de exportação. O Brasil opera hoje com um limite próximo de 1,1 milhão de toneladas, o que impõe restrições relevantes diante do ritmo atual de embarques.
A mecânica da cota e o efeito no curto prazo
Segundo a Genial, cerca de 70% da cota já havia sido utilizada até abril, o que indica esgotamento por volta de agosto. Considerando o tempo de trânsito até a China, os embarques efetivos devem começar a sofrer impacto ainda em junho.
“O esgotamento da cota é um evento mecânico e iminente, não uma hipótese remota”, diz Vello. Quando o limite é atingido, a tarifa salta de 12% para 55%, reduzindo significativamente a competitividade da carne brasileira.
A casa trabalha com o cenário base de que não haverá ampliação da cota no curto prazo. “Tratamos a possibilidade de renegociação como opcionalidade, não como premissa central para 2026”, afirma o analista.
Reação das empresas e fatores compensatórios
Diante desse cenário, exportadores brasileiros já começaram a ajustar sua estratégia, reduzindo embarques para a China e redirecionando volumes para outros mercados, especialmente os Estados Unidos.
“As empresas estão antecipando o risco e reorganizando fluxos para evitar operar fora da cota”, afirma Vello. Esse movimento também reduz o ritmo de abate no Brasil, o que pode aliviar o custo do gado.
Segundo a Genial, a arroba pode recuar de cerca de R$350 para uma faixa entre R$310 e R$315 no período. Ao mesmo tempo, a menor oferta nos EUA abre espaço para preços mais altos, criando uma arbitragem favorável. “A combinação de gado mais barato e prêmio nos EUA pode neutralizar o impacto negativo da China para os grandes players”, diz Vello.
Minerva (BEEF3): exposição alta com proteção operacional
A Minerva aparece como a mais exposta à dinâmica da China, mas também como uma das mais protegidas devido à sua estrutura multi-origem. A companhia pode redirecionar exportações para países como Argentina, Uruguai e Colômbia.
Segundo a Genial, a fatia diretamente impactada — carne de origem Brasil destinada à China — representa cerca de 8% a 9% da receita. “A presença multi-origem permite uma realocação eficiente dos fluxos, reduzindo o impacto consolidado”, afirma Vello.
Marfrig (MRFG3): impacto diluído na operação
No caso da Marfrig, a exposição direta é mais limitada. A operação de carne bovina na América do Sul representa uma fatia relativamente pequena dentro do grupo, que também conta com forte presença nos EUA e em aves.
A empresa já interrompeu temporariamente os embarques de origem Brasil para a China, redirecionando volumes para outros destinos. “O impacto tende a ser diluído, dado o peso reduzido da operação afetada dentro do consolidado”, diz Vello.
JBS (JBSS32): exposição moderada e ganho com arbitragem
A JBS também possui exposição à China por meio da operação brasileira, mas com impacto limitado no consolidado, dado o peso maior de outras geografias, especialmente na América do Norte.
Além disso, a companhia deve se beneficiar da arbitragem no mercado americano, onde a oferta restrita de gado sustenta preços mais elevados. “A JBS combina exposição com amortecimento operacional, além de capturar a arbitragem de margens no mercado dos EUA”, afirma Vello.
Por fim, a Genial destaca que o principal risco para todo o setor segue sendo uma eventual revisão da cota chinesa. Até que isso ocorra, o mercado deve continuar reagindo à mecânica de preenchimento do limite e à capacidade das empresas de ajustar suas operações.
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