O cenário de juros elevados por mais tempo no Brasil está levando analistas a revisarem suas apostas no setor de construção civil. Em novo relatório, o JP Morgan promoveu mudanças relevantes em suas recomendações para as principais incorporadoras listadas na Bolsa, reforçando sua preferência por empresas focadas no segmento de baixa renda e reduzindo o otimismo em relação à MRV (MRVE3).
A principal mensagem do banco é que, em um ambiente de crédito mais caro e condições financeiras mais restritivas, companhias com operações mais resilientes, forte geração de caixa e exposição ao programa habitacional voltado à baixa renda tendem a navegar melhor pelos desafios do mercado imobiliário.
Nesse contexto, o JP Morgan elevou a recomendação da Cury (CURY3) de neutra para compra. Embora tenha reduzido o preço-alvo da ação de R$ 47,50 para R$ 43,50, o banco avalia que os papéis ainda apresentam potencial de valorização atrativo e negociam a múltiplos considerados descontados.
A mesma visão foi aplicada à Direcional (DIRR3), cuja recomendação também passou de neutra para compra. Diferentemente da Cury, a construtora teve seu preço-alvo elevado de R$ 18,50 para R$ 19,00. Segundo o relatório, a companhia combina uma operação sólida no segmento de habitação popular com perspectivas adicionais de crescimento associadas ao seu banco de terrenos em Belo Horizonte e à parceria firmada com a Moura Dubeux (MDNE3) para expansão no Nordeste.
Na avaliação do banco americano, tanto Cury quanto Direcional reúnem características que se tornam ainda mais valiosas em períodos de juros elevados: disciplina operacional, boa execução dos projetos e maior previsibilidade de resultados.
MRV perde espaço entre as preferidas
Em construção civil, ganharam a confiança dos analistas, a MRV seguiu o caminho oposto. O JP Morgan rebaixou a recomendação da companhia de compra para neutra e reduziu de forma expressiva o preço-alvo da ação, de R$ 11 para R$ 7.
A decisão está diretamente ligada às perspectivas para a Resia, subsidiária da MRV nos Estados Unidos focada no segmento multifamily, voltado para empreendimentos residenciais destinados à locação.
Nos últimos anos, a operação americana foi vista como uma importante avenida de crescimento para a companhia. No entanto, o ambiente econômico mais desafiador nos Estados Unidos e as dificuldades enfrentadas pelo setor imobiliário local levaram o banco a revisar significativamente suas projeções para o negócio.
Segundo o relatório, o processo de desinvestimento da Resia ainda pode gerar perdas adicionais, pressionando os resultados consolidados da MRV e reduzindo a visibilidade sobre a evolução dos lucros nos próximos anos.
Para os analistas, o principal desafio não está necessariamente na operação brasileira da companhia, mas na incerteza em torno da velocidade e do impacto financeiro da reestruturação dos ativos americanos.
Baixa renda segue como principal aposta
A revisão das recomendações reforça uma tendência observada por diversos analistas nos últimos meses: o segmento de habitação popular continua sendo visto como o mais defensivo dentro do setor de construção civil.
Programas habitacionais, demanda estrutural por moradia e condições de financiamento mais favoráveis ajudam a sustentar as vendas das empresas focadas na baixa renda, mesmo em um ambiente de juros elevados.
Refletindo essa visão, a ordem de preferência do JP Morgan para o setor é liderada pela Tenda (TEND3), seguida por Direcional, Cury, Cyrela, Eztec (EZTC3) e MRV.
A classificação mostra que o banco continua enxergando oportunidades relevantes na construção civil brasileira, mas de forma mais seletiva. Em vez de uma aposta ampla no setor, a estratégia recomendada passa por privilegiar empresas com maior capacidade de execução e menor exposição a riscos externos.
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