Os bancos brasileiros seguem enfrentando um cenário de deterioração na qualidade do crédito, especialmente nas linhas de varejo sem garantia. Dados divulgados pelo Banco Central do Brasil (BCB), referentes a maio de 2026, mostram desaceleração no crescimento da carteira de crédito, redução nas concessões de crédito consignado e avanço da inadimplência, reforçando um ambiente mais desafiador para o setor financeiro.
Na avaliação do Safra, os indicadores confirmam a postura mais cautelosa adotada nos últimos meses em relação à evolução da qualidade dos ativos. O aumento dos índices de inadimplência e dos saldos das linhas rotativas continua sendo motivo de atenção, principalmente no crédito destinado às pessoas físicas.
Entre os principais destaques do levantamento está a forte retração das concessões de crédito consignado privado, que caíram 22,8% na comparação mensal. As concessões do crédito consignado vinculado ao INSS também recuaram significativamente, com queda de 25,4% no período.
Ao mesmo tempo, o crescimento da carteira total de crédito do sistema desacelerou para 8,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior, ligeiramente abaixo dos 8,3% registrados em abril. No varejo, a expansão permaneceu em 11,2% na comparação anual, enquanto o crédito corporativo apresentou crescimento de 0,7% frente ao mês anterior, com destaque para o segmento de pequenas e médias empresas (PMEs), que acelerou para alta de 9,6% em 12 meses.
Inadimplência segue pressionando bancos brasileiros
O principal fator de preocupação para os bancos brasileiros continua sendo a evolução da inadimplência nas operações de varejo sem garantia. A taxa de atraso superior a 90 dias no sistema financeiro aumentou 10 pontos-base em maio, alcançando 4,7%.
Nas linhas voltadas às pessoas físicas, os maiores avanços ocorreram no crédito consignado privado, cuja inadimplência subiu 40 pontos-base, atingindo 7,9%. Também houve elevação expressiva nos cartões de crédito, com aumento de 30 pontos-base, e nos empréstimos pessoais, que avançaram 40 pontos-base no mês.
Segundo o Safra, esses movimentos reforçam a pressão contínua sobre as modalidades de crédito sem garantias reais, consideradas mais sensíveis ao ambiente econômico e ao comprometimento da renda das famílias.
Por outro lado, houve um sinal parcialmente positivo nos indicadores de curto prazo. A inadimplência entre 15 e 90 dias no varejo apresentou melhora em relação ao mês anterior, indicando que parte da pressão está concentrada principalmente nas operações rotativas de cartão de crédito.
Crédito cresce em ritmo mais moderado
Apesar da desaceleração, algumas modalidades continuam sustentando o crescimento da carteira de crédito. O crédito consignado privado registrou expansão de 4,8% no estoque durante maio, seguido pelo consignado do setor público, com alta de 0,9%, e pelos cartões de crédito, que avançaram 0,5%.
Dentro da carteira de cartões, o crédito rotativo segue sendo um dos principais motores de crescimento, acumulando alta anual de 20,1%, enquanto o parcelado com juros cresceu 17,8% em relação ao mesmo período de 2025, embora ambos apresentem desaceleração frente aos meses anteriores.
No segmento rural, as novas concessões recuaram levemente na comparação mensal, mas ainda mantiveram crescimento anual de 5,6%, acima dos 5,3% observados em abril.
Agronegócio também preocupa
Além do varejo, o Safra destaca que o agronegócio continua apresentando sinais de deterioração. A inadimplência entre 15 e 90 dias aumentou 88 pontos-base em maio, enquanto os atrasos superiores a 90 dias avançaram 10 pontos-base.
O cenário preocupa especialmente diante da concentração dos vencimentos de dívidas do setor entre abril e setembro, período que pode elevar o reconhecimento de perdas de crédito, sobretudo nos bancos públicos com maior exposição ao segmento, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Spreads permanecem estáveis
Os spreads das novas concessões apresentaram pouca variação em maio. O indicador recuou apenas 10 pontos-base, encerrando o mês em 22,1%. Nas operações destinadas ao varejo houve redução de 20 pontos-base, enquanto os spreads do crédito corporativo permaneceram praticamente estáveis.
Já o Índice de Custo do Crédito (ICC), que mede o spread médio da carteira, permaneceu em 15,3%, sinalizando estabilidade no custo médio das operações.
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