A Braskem (BRKM5) iniciou um processo de mediação e protocolou pedido de Tutela de Urgência Cautelar perante a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, em uma tentativa de suspender suas obrigações financeiras e preservar condições de liquidez enquanto as negociações com credores avançam de forma ordenada.
As medidas envolvem apenas os credores financeiros, sem afetar fornecedores e demais passivos.
“As medidas buscam uma suspensão das obrigações financeiras da companhia, preservando as condições financeiras de liquidez, para que as negociações com credores avancem de forma ordenada”, avaliaram os analistas Yuri Machado e Roberto Pasqualini, do Banco Safra.
O movimento é o desdobramento mais recente de um processo iniciado em setembro de 2025, quando a Braskem contratou assessores financeiros para otimizar sua estrutura de capital.
Ciclo petroquímico adverso e excesso de oferta global
O ciclo prolongado de baixa no setor petroquímico vem pressionando os resultados operacionais da companhia nos últimos trimestres. O cenário global é marcado por excesso de oferta e demanda comprimida, com a China planejando mais de 40 novas unidades petroquímicas e incremento de cerca de 71% na capacidade instalada de eteno e 52% de propeno até 2030.
“O descompasso entre oferta e demanda postergou a previsão de recuperação, e a tendência de médio prazo, excluindo o efeito do conflito no Irã, segue pressionada”, destacaram Machado e Pasqualini.
A companhia esperava uma retomada gradual do ciclo para 2025, mas fatores como tarifas comerciais, menor crescimento da demanda chinesa e juros elevados nos EUA e na Europa arrefeceram o consumo de resinas.
Proposta rejeitada e credores exigem mais
A proposta inicial da Braskem contemplava extensão de cinco anos nos vencimentos de todos os instrumentos financeiros, opção de capitalização de juros de 100% entre julho de 2026 e dezembro de 2028, redução de 200 pontos-base nas taxas e criação de nova linha de cartas de crédito de até US$ 1,5 bilhão. Contudo, a proposta foi rejeitada em 19 de junho pelo comitê de credores.
“Qualquer reestruturação deverá contemplar aumento de cupom, extensões de prazo alinhadas às reais necessidades de liquidez, contribuição dos acionistas e restrições ao uso de caixa”, exigiu o comitê, segundo informações divulgadas pela companhia.
Entretanto, a Braskem preservava na proposta a ausência de garantias reais, não redução do principal e ausência de conversão em participação acionária.
Diagnóstico financeiro aponta caixa zerado em dezembro
A Braskem encerrou abril de 2026 com dívida financeira bruta de US$ 9,5 bilhões, composta por US$ 7,0 bilhões em bonds, US$ 0,7 bilhão em debêntures e CRAs locais, US$ 0,5 bilhão em dívidas bilaterais e ECAs e US$ 1,0 bilhão na linha de crédito rotativo com vencimento em dezembro de 2026. Nos próximos 12 meses, juros e amortizações somam US$ 1,3 bilhão.
“Sem a aprovação da reestruturação, o caixa livre se esgota em dezembro de 2026, com o fluxo tornando-se negativo a partir de julho após os vencimentos programados”, alertaram Yuri Machado e Roberto Pasqualini.
A maior torre de vencimentos ocorre já em julho, com US$ 306 milhões, seguida de US$ 100 milhões em agosto e US$ 166 milhões em setembro.
O serviço da dívida projetado para o terceiro trimestre soma US$ 878 milhões, com concentração relevante nas cartas de crédito utilizadas para financiamento de importação de nafta.






