A Blau Farmacêutica (BLAU3), no 4TRI25, entregou um resultado abaixo das expectativas do mercado, segundo avaliação de Samuel Alves, do BTG Pactual, com pressão sobre receita líquida, EBITDA, geração de caixa e maior incerteza no curto prazo. Entre os principais fatores estiveram o atraso em licitação federal, especialmente no segmento hospitalar e em Alphaepoetin, além do aumento de despesas operacionais em meio ao ciclo mais pesado de capex.
Na prática, a companhia reportou receita líquida de R$ 389 milhões no quarto trimestre, queda de 14,6% na comparação anual. O EBITDA somou R$ 68,7 milhões, recuo de 41,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto a margem EBITDA caiu para 17,7%. O lucro líquido ficou em R$ 37,4 milhões, também abaixo do registrado um ano antes.
Na leitura do BTG, o trimestre foi fraco “em toda a linha”, com desempenho inferior ao projetado pela casa. Samuel Alves destaca, de forma direta, que o resultado veio abaixo da estimativa principalmente por causa do atraso na licitação federal e pelo avanço das despesas operacionais, que reduziram a conversão da receita em rentabilidade.
Margem bruta resiliente não evitou deterioração operacional
Mesmo com o desempenho mais fraco em receita e EBITDA, a margem bruta da Blau mostrou alguma resiliência. Ela ficou em 39,4% no trimestre, com leve queda anual, mas ainda sustentada por ganhos de eficiência e por um mix de produção mais favorável. Esse foi um dos poucos pontos positivos do balanço, num contexto em que a operação perdeu tração comercial.
Ainda assim, a melhora industrial não foi suficiente para compensar o aumento das despesas com vendas, marketing e administrativas. A companhia ampliou esforços comerciais para apoiar lançamentos de produtos, ao mesmo tempo em que manteve investimentos ligados à expansão da estrutura. Na prática, a avaliação de Samuel Alves é que a pressão sobre o EBITDA veio menos da manufatura e mais da linha operacional abaixo do lucro bruto.
O relatório da companhia reforça essa leitura ao citar gastos pontuais com marketing para impulsionar novos produtos, como NOXX Multidose e Fillage. De forma indireta, isso converge com a análise do BTG de que o trimestre combinou receita mais fraca com custo operacional mais pesado, prejudicando a rentabilidade.
Geração de caixa negativa e capex reforçam cautela
Outro ponto que chamou atenção no 4TRI25 da Blau foi a geração de caixa. O BTG destacou que o fluxo de caixa para o acionista ficou negativo em R$ 65 milhões, em contraste com o resultado positivo de um ano antes. O principal motivo foi a aceleração do capex, que atingiu R$ 130 milhões no trimestre, equivalente a cerca de 33% da receita líquida.
Esse volume de investimento mostra que a Blau segue comprometida com a expansão de capacidade e com novas linhas de produção. A empresa também sustenta que esses aportes são estratégicos para apoiar o crescimento futuro, ampliar lançamentos e preparar a operação para ciclos mais robustos, inclusive no avanço de biossimilares e anticorpos monoclonais.
Samuel Alves, porém, adota tom mais conservador sobre o timing desse retorno. Na visão do analista, o ciclo intensivo de investimentos deve continuar pressionando o caixa, e os benefícios operacionais mais relevantes dificilmente serão percebidos antes de 2028. Por isso, mesmo com valuation considerado atrativo, a visibilidade para receita e geração de caixa segue limitada.
Licitação, capacidade e visibilidade seguem no centro das atenções
A leitura mais cautelosa do BTG também passa pela combinação entre restrição de capacidade e menor previsibilidade comercial. O atraso na licitação federal afetou o desempenho do trimestre, e o resultado abaixo do esperado com Alphaepoetin reforçou a percepção de um ambiente mais desafiador para a Blau no curto prazo.
A companhia, por outro lado, afirma que 2026 deve trazer melhora com novas linhas produtivas, aceleração dos lançamentos e avanço em contratos no canal público. Também informou que venceu licitação no início de 2026 com preço e volume superiores aos da rodada anterior, o que pode reduzir parte da volatilidade observada ao longo de 2025.
Mesmo assim, Samuel Alves manteve postura prudente. De forma indireta, sua mensagem é clara: a Blau preserva fundamentos industriais relevantes e uma estratégia de longo prazo consistente, mas ainda atravessa um período em que execução, despesas e consumo de caixa pesam mais do que a narrativa de expansão.
Mercado deve acompanhar execução antes de revisar expectativas
No fechamento da análise, o BTG manteve recomendação neutra para a Blau. A casa entende que a ação negocia em patamar que parece barato, mas isso não basta, neste momento, para compensar a fraqueza do momentum operacional e a expectativa de fluxo de caixa livre negativo nos próximos anos.
Para o mercado, o foco agora deve estar menos no potencial teórico dos investimentos e mais na capacidade de a Blau transformar expansão produtiva em crescimento real de receita, recomposição de margens e melhora consistente da geração de caixa. Até que isso apareça com mais clareza, a tendência é de manutenção de cautela.
O 4TRI25 da Blau Farmacêutica reforçou uma fotografia de transição: margens brutas ainda resilientes, mas com receita líquida, EBITDA e geração de caixa pressionados, em meio a um ciclo elevado de capex. Na visão de Samuel Alves, do BTG Pactual, o curto prazo permanece desafiador, e a tese depende, cada vez mais, de execução.






