Como as empresas distribuem os dividendos? Como identificar as melhores pagadoras de dividendos? Qual a importância de reinvestir os proventos? Especialistas que participaram nesta terça-feira (31) do evento Meu Primeiro Dividendo, da EQI, responderam a essas e a outras perguntas.
Foco de muitos investidores na bolsa de valores, os dividendos são uma forma de receber parte dos lucros das empresas, mas geram muitas dúvidas para os iniciantes no mundo da renda variável.
Quer entender melhor sobre dividendos? Confira abaixo um resumo de três painéis do evento Meu Primeiro Dividendos.
Primeiros passos para receber dividendos
O primeiro painel desta terça-feira (31), “Recebendo dividendos”, contou com a mediação de Elias Wiggers, assessor de investimentos e sócio da EQI, e os convidados Raphael Figueredo, sócio e analista da Eleven Research, e Marcio Macedo, gerente da B3 Educação.
Raphael explicou o conceito de dividendos, que são uma parte dos lucros distribuídos pelas companhias. “Ou seja, se a empresa tem lucro, ela distribui uma parte aos acionistas em forma de remuneração por ser acionista, acreditar no projeto. A cada trimestre as empresas vão reportar seus resultados e, a partir do momento que percebemos que a empresa tem capacidade de geração de caixa, já é um bom sinal para entender que ela pode ter lucro e remunerar seus acionistas”, afirma o analista da Eleven.

É papel da B3 fornecer a infraestrutura para o mercado de capitais funcionar. Assim, a bolsa interage com os bancos, as corretoras, empresas e os investidores desse ecossistema para que cada dividendo distribuído caia na conta dos acionistas. “O recurso das empresas chega na B3, que faz uma distribuição por agentes de custódia (corretoras), e esse dividendo é encaminhado para as contas dos acionistas. É um processo criterioso e auditado”, explica Marcio Macedo, da B3.
As empresas de capital aberto precisam vir a público periodicamente para anunciar a data-base para recebimento de dividendos. Assim, o investidor consegue saber a data que ele precisa ter as ações para poder receber os dividendos.
Marcio ressalta que a transparência é fundamental na relação empresa-investidor. Existem três canais que o investidor pode acessar para saber sobre os dividendos das empresas: o site de RI (relacionamento com investidores) da própria companhia, a área Plantão de Empresas da B3, e uma área com login e senha que o investidor pode acessar na plataforma da B3 assim que começa a investir.
Como identificar boas pagadoras de dividendos
O segundo painel desta terça-feira (31) foi o “Cases de sucesso: como identificar boas pagadoras de dividendos”, com Guilherme Tiglia, sócio e analista na NORD Research.
Guilherme ressaltou que alguns setores são mais propensos a distribuir dividendos. “É uma questão de ciclo, de momento operacional, de maturidade, são setores mais consolidados e perenes: elétrico, telecomunicações, seguros e bancos”, afirmou.
Ele elencou quatro pontos que o investidor precisa ficar atento na hora de avaliar empresas pagadoras de dividendos.
- Dividend Yield: retorno obtido com os proventos que a empresa está distribuindo. É a relação entre dividendos e o preço em um número percentual.
- Payout: é o percentual do lucro que a empresa distribui na forma de dividendo ou juros sobre capital próprio. “O ideal é buscar empresas que distribuem menos do que o seu lucro, por que uma parcela pode ser usada para remunerar o acionista com dividendo e a outra parte para reinvestir no próprio negócio”, diz Guilherme.
- Crescimento de lucros e dividendos e a volatilidade: avaliar como a empresa demonstrou esses números ao longo do tempo. Quanto mais estável e mais crescimento, melhor.
- Solidez financeira: indicador dívida líquida/Ebitda. “Uma empresa muito alavancada pode trazer um risco para o negócio e pode acabar comprometendo a distribuição de dividendos”, pontua o analista.

Análise prática sobre Vivo (VIVT3), Gerdau (GGBR4) e Taesa (TAEE11)
Com os conceitos explicados, Guilherme Tiglia, sócio e analista na NORD Research, analisou três empresas pagadoras de dividendos.
Confira abaixo as análises:
- Telefônica Brasil – Vivo (VIVT3): empresa tem consistência de dividendos nos últimos 10 anos. O payout é elevado e sem comportamentos agressivos de volatilidade – payout médio desde 2011 é de 98%. Os resultados tendem a ser mais estáveis do que a média da bolsa. A entrega de dividend yield é bastante elevada, na casa de 7,2% na última década. A dívida líquida/Ebitda é de 0,07x, com forte geração de caixa.
- Gerdau (GGBR4): a empresa tem provendo diminuindo nos últimos anos e payout não muito elevado. A média histórica desde 2011 é de 22,3% de payout, considerado um patamar baixo. Não existe trajetória clara de crescimento e os resultados são bem voláteis, impactados pelas mudanças no câmbio e no preço dos minérios de ferro. O dividend yield médio é de 2%. A solidez financeira é confortável, com dívida líquida/Ebitda de 0,65x.
- Taesa (TAEE11): histórico de bons lucros e proventos, com consistência elevada. O payout médio é de 91,4% desde 2011, indicando que a distribuição de dividendos é sustentável. A empresa que gera bastante caixa, distribui proventos aos acionistas de forma relativamente estável. Pagou 11% em média de dividend yield nos últimos 10 anos. A solidez financeira registrou dívida líquida/Ebitda de 4,6x. Apesar de ser uma relação alta, a Taesa dispõe de alta previsibilidade de geração de caixa.
Guilherme ressalta que estas não são recomendações de compra dos ativos.
Juros sobre juros e o efeito bola de neve
No painel “Efeito bola de neve: a importância de reinvestir os dividendos”, a jornalista Fabiana Panachão entrevistou o professor Eduardo Mira, analista CNPI e especialista em renda variável do Me Poupe.
Segundo ele, se você reinveste os dividendos você está colocando mais dinheiro no total que você acumula ao longo dos anos. “Você pode reinvestir os dividendos ou não. Mas se você reinveste, ele vai crescer mais”.
Para abordar o efeito bola de neve, Eduardo explicou os conceitos de juros simples e juros compostos. De forma resumida, nos juros simples o valor usado para o cálculo é sempre o valor original, não levando em consideração os juros gerados. Nos juros compostos, o valor original é corrigido a cada novo período, gerando o efeito de juros sobre juros.
Assim, por exemplo, se você investir R$ 1.000 a uma taxa de 10% em 5 meses, terá R$ 1.500 ao fim do quinto mês levando em conta os juros simples. Mas se levar em conta os juros compostos terá, ao fim de 5 meses, R$ 1.610,51.
“Nos juros compostos eu tenho um retorno ao longo do tempo muito maior. E é possível fazer esse efeito de juros compostos na renda variável quando eu reinvisto os dividendos. Quanto mais ações eu tenho mais eu recebo dividendos. Se eu compro mais ações eu recebo mais dinheiro. Você pode comprar mais ações com os aportes e com os dividendos recebidos”, diz ele.
Eduardo explica ainda a importância de o investidor ficar de olho no crescimento da renda passiva e não apenas no patrimônio total. “O que vai te entregar a liberdade financeira é o quanto de renda passiva você tem para pagar suas contas e não poder mais trabalhar. O crescimento do patrimônio não gera necessariamente o crescimento dos dividendos – e o contrário também é verdade”.

Crescimento x dividendos
Eduardo Mira destaca ainda a diferença entre empresas que focam em crescimento e as que focam em dividendos.
“Quanto maior o percentual do lucro for distribuído em dividendos menor pode ser o crescimento, e quanto menor o percentual do lucro for distribuído em dividendos maior tende a ser o crescimento da empresa”, explica.
Assim, se é uma empresa que distribui altos dividendos é madura e saudável (mas não tem tanto potencial de crescimento), a melhor forma é reinvestir os dividendos que você recebeu. “Então se você tem mais empresas pagadoras de dividendos passa a ser ainda mais importante o reinvestimento de dividendos”.
Fica bem claro que reinvestir dividendo colocar seu resultado muito pra cima. “Se você também fizer novos aportes e tirar dinheiro do seu bolso, você ganha uma capacidade explosiva de crescimento. Se você está começando o seu aporte mensal é mais importante do que o dividendo, por que provavelmente você vai começar recebendo um dividendo muito pequeno, pois você está na fase de construção do patrimônio”, ressalta Eduardo Mira.
Por isso, ele destaca que o preço de compra das ações é importante. “O investidor iniciante tem que focar na queda (do preço das ações). Ele tem que rezar todo dia para a bolsa cair. Por que quem está começando geralmente tem um capital menor, então quanto mais caem as ações, mais barato fica. Aí você consegue comprar boas empresas por preços mais baixos”.
Por fim, para quem está começando, o professor dá a dica. “Compre boas empresas e reinvista os dividendos nessas mesmas empresas. Se você ficar comprando diversas empresas, daqui a pouco você tem 40, 50 empresas e você não sabe nem como estão os resultados dessas empresas”, diz ele, que sugere ter cerca de 15 ativos em carteira.


