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Custo de vida, IA e propósito: o novo mapa de escolhas da Geração Z e dos millennials

Custo de vida, IA e propósito: o novo mapa de escolhas da Geração Z e dos millennials

Pressão financeira, inteligência artificial, bem-estar e propósito estão mudando a forma como duas gerações planejam carreira, liderança e decisões pessoais

Comprar uma casa, subir rapidamente na carreira, assumir um cargo de liderança, formar uma família. Durante décadas, esses passos ajudaram a construir uma espécie de roteiro para a vida adulta. Para a Geração Z e os millennials, porém, o caminho parece cada vez menos linear.

A 15ª edição do Deloitte Global Gen Z and Millennial Survey mostra que essas gerações continuam ambiciosas, mas estão reorganizando prioridades diante de um cenário marcado por custo de vida elevado, mudanças rápidas no trabalho e avanço da inteligência artificial. O estudo ouviu mais de 22,5 mil pessoas da Geração Z, nascidas entre 1995 e 2007, e millennials, nascidos entre 1983 e 1994, em 44 países.

O retrato que emerge é o de pessoas interessadas em crescer profissionalmente, desde que isso faça sentido dentro da vida que pretendem construir.

O custo de vida entrou no planejamento da vida

Pelo quinto ano consecutivo, o custo de vida aparece como a principal preocupação das duas gerações. Ele é citado por 38% da Geração Z e 42% dos millennials, à frente de questões como desemprego, segurança, instabilidade política e mudanças climáticas.

Essa pressão já interfere em decisões que ultrapassam a planilha mensal. 55% da Geração Z e 52% dos millennials afirmam ter adiado decisões importantes, como casamento, filhos, abertura de um negócio ou continuidade dos estudos, por causa da situação financeira.

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A moradia também pesa, para 69% da Geração Z e 64% dos millennials, disponibilidade e preço dos imóveis influenciam diretamente decisões de carreira e até onde é possível trabalhar. Entre os entrevistados, 51% da Geração Z e 40% dos millennials dizem não ter condições financeiras de comprar uma casa.

Há, porém, alguns sinais de melhora. A parcela que vive de salário em salário caiu para 47% nas duas gerações, ante 52% no levantamento anterior. Além disso, 53% da Geração Z e 45% dos millennials esperam melhorar sua situação financeira nos próximos 12 meses.

Crescer na carreira, mas sem viver para o cargo

O levantamento também ajuda a desmontar a ideia de que os profissionais mais jovens simplesmente perderam o interesse em crescer.

Quando perguntados sobre o objetivo principal de carreira, apenas 6% colocam a conquista de uma posição de liderança no topo da lista. Isso não significa que cargos de gestão tenham perdido completamente o apelo.

Ao longo da carreira, 76% da Geração Z e 67% dos millennials afirmam ter interesse em chegar a uma posição executiva ou de alta liderança. Outros 80% da Geração Z e 73% dos millennials consideram assumir funções de supervisão ou gestão.

A diferença está no ritmo e nas condições.

Entre a Geração Z, 44% preferem uma trajetória de crescimento constante, enquanto 25% buscam avanços acelerados, com promoções e mudanças de título. Entre os millennials, 46% preferem a evolução gradual e 21% optariam por uma progressão rápida.

Stress e burnout ajudam a explicar essa cautela. Entre quem não prioriza cargos de liderança, esses fatores são apontados por 50% da Geração Z e 49% dos millennials. Responsabilidade excessiva e dificuldade para preservar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal também aparecem entre os principais obstáculos.

A fala de Nic Scoble-Williams, global future of work leader da Deloitte, resume a mudança: “É interessante que tão poucos estejam priorizando cargos de liderança, mas não acho que isso signifique que ‘ninguém quer liderar’. É apenas que isso não é a única coisa que importa para eles.”

IA deixa de ser novidade e entra na rotina

Se algumas decisões estão sendo adiadas, a adaptação tecnológica ocorre em velocidade bem diferente.

74% da Geração Z e 74% dos millennials já usam inteligência artificial em algum grau no trabalho. Um ano antes, eram 57% e 56%, respectivamente.

E ela já extrapola tarefas operacionais. Segundo a pesquisa, 79% das duas gerações usam IA para encontrar oportunidades de aprendizado e desenvolvimento. A tecnologia também é usada para buscar orientação profissional por 72% da Geração Z e 69% dos millennials.

Há ainda um uso menos óbvio: lidar com a pressão do cotidiano. Cerca de dois terços afirmam recorrer à tecnologia para enfrentar o stress relacionado ao trabalho.

O entusiasmo não elimina as dúvidas. Aproximadamente um terço dos entrevistados considera que suas empresas ainda não estão suficientemente preparadas para as transformações provocadas pela IA. Falta de treinamento, pouca experiência e ferramentas que não conversam bem com os fluxos de trabalho aparecem entre as barreiras.

Para os profissionais, portanto, aprender a usar IA já faz parte da estratégia de carreira. Para as empresas, o desafio passa a ser acompanhar esse ritmo.

Propósito continua pesando na escolha de onde trabalhar

Salário e estabilidade importam, mas não encerram a conversa. Para 96% da Geração Z e 97% dos millennials, ter senso de propósito no trabalho é importante para a satisfação profissional e o bem-estar. O comportamento acompanha essa declaração: cerca de 40% já recusaram um potencial empregador por questões ligadas a valores pessoais, ética ou crenças.

A conexão com colegas também tem impacto concreto. Aproximadamente dois terços dizem ter pelo menos um amigo próximo no trabalho.

Entre integrantes da Geração Z que possuem amizades próximas no ambiente profissional, 48% esperam permanecer por cinco anos ou mais na empresa, contra 33% entre aqueles que não têm esse tipo de vínculo. Nos millennials, a diferença é de 61% contra 43%.

Em um mercado de trabalho cada vez mais digital, a relação humana segue influenciando a vontade de ficar.

Bem-estar melhora, mas o stress continua presente

Outro dado chama atenção: a percepção sobre saúde mental melhorou em relação ao ano anterior. Hoje, 63% da Geração Z e 66% dos millennials classificam sua saúde mental como boa ou muito boa. Em 2025, os índices eram de 52% e 58%.

Ainda assim, aproximadamente um terço afirma se sentir ansioso ou estressado durante a maior parte do tempo.

A própria tecnologia pode colaborar para esse desgaste. 58% da Geração Z e 54% dos millennials relatam fadiga digital, causada por alertas constantes e pela necessidade de lidar com diferentes ferramentas e plataformas durante o expediente.

É uma contradição característica deste momento: a tecnologia ajuda a ganhar eficiência e aprender novas habilidades, mas também pode aumentar a sensação de fragmentação do dia.

O sucesso ganhou outros critérios

Ao completar 15 anos acompanhando essas gerações, a pesquisa da Deloitte mostra uma mudança que passa por diferentes áreas da vida.

Geração Z e millennials não abandonaram planos de crescimento profissional, estabilidade financeira ou liderança. O que mudou é a disposição de alcançar esses objetivos seguindo uma sequência predefinida.

Comprar uma casa pode esperar. A liderança pode vir alguns anos depois. Uma mudança lateral na carreira pode fazer sentido antes de uma promoção. Aprender novas habilidades pode ser tão importante quanto conquistar um novo cargo.

Nesse desenho, estabilidade, flexibilidade, propósito, renda e saúde mental deixam de aparecer como assuntos separados. Eles passam a fazer parte da mesma decisão sobre como trabalhar e, principalmente, sobre como encaixar o trabalho na vida.

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