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Com múltiplos baixos, a AB InBev compraria o restante da Ambev?

Com múltiplos baixos, a AB InBev compraria o restante da Ambev?

Analistas não descartam que nova rodada de queda de múltiplos reacenda debate sobre consolidação pela controladora belga

A pergunta é direta e desconfortável: com múltiplos significativamente mais baixos, a AB InBev teria incentivo para consolidar a Ambev (ABEV3) e internalizar esses lucros? É com esse questionamento que os analistas do BTG Pactual encerram sua análise sobre o valuation da maior cervejaria da América Latina — e a provocação não é retórica.

O ponto de partida do banco é a natureza peculiar do múltiplo da Ambev.

Diferente de outras empresas brasileiras de consumo, a ação raramente se comporta como uma história puramente local.

“O múltiplo da Ambev tende a se mover com o complexo global de cervejarias”, aponta o BTG.

Com cerca de 60% das receitas no Brasil e o restante em mercados onde o custo de capital também não é baixo, investidores locais vivem o dilema de precificar o ativo: como cervejaria global ou como consumo doméstico brasileiro?

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Valuation da Ambev

A métrica de PEG (Preço/Lucro/Crescimento) — que incorpora o crescimento implícito ao múltiplo — ajuda a calibrar a discussão.

“O PEG de 2,3 vezes da Ambev está abaixo da AB InBev (3 vezes), das cervejarias globais (3,5 vezes) e dos pares de bebidas em geral (3,1 vezes)”, calcula o banco. O contraponto doméstico é brutal: o consumo listado no Brasil negocia a PEG de 0,6 vez. Enxergar a Ambev apenas por essa lente local, porém, seria um erro, na visão do BTG.

“Cautela contra enquadrar o valuation puramente através de uma ótica de consumo doméstico” é a recomendação dos analistas.

Nos anos dourados, a Ambev negociava com prêmio frente aos pares globais, sustentada por retornos superiores que mais do que compensavam o custo de capital embutido em sua exposição geográfica.

Hoje, o cenário é outro: retornos mais baixos, ambiente de mercado mais difícil e perfil de crescimento mais modesto empurraram a ação para um desconto frente ao grupo global. Ainda assim, o BTG não vê como caso-base uma convergência completa ao patamar de consumo doméstico.

Há também uma camada prática que ancora o valuation no referencial global: para muitos investidores internacionais, a Ambev segue sendo uma das poucas formas líquidas e escaláveis de acessar o consumidor latino-americano e o mercado de cerveja na região.

E é exatamente essa lógica que torna a pergunta final do BTG tão relevante: se o desconto se aprofundar, a AB InBev pode simplesmente decidir que vale mais comprar do que esperar.