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Impacto dos preços de energia sobre a inflação: um choque e seus efeitos

Impacto dos preços de energia sobre a inflação: um choque e seus efeitos

Stephan Kautz

Stephan Kautz

01 Set 2022 às 11:56 · Última atualização: 02 Set 2022 · 5 min leitura

Stephan Kautz

01 Set 2022 às 11:56 · 5 min leitura
Última atualização: 02 Set 2022

foto posto de gasolina

Nesta coluna de estreia no portal EuQueroInvestir, buscamos responder à pergunta: quais são os efeitos da evolução recente benigna dos preços de energia sobre os núcleos de inflação?

Será que choques pontuais na inflação podem gerar efeitos adicionais ao longo do tempo? Em caso positivo, qual a magnitude dessas contribuições? Além disso, essas influências são relevantes para a política monetária?

Desde abril, os preços de energia (energia elétrica e gasolina) vêm apresentando uma evolução mais benigna. Em meados daquele mês, foi anunciada a adoção da bandeira tarifária verde sobre as contas de energia elétrica. Com isso, no acumulado de abril e maio, a média nacional da tarifa caiu um pouco mais de 14%.

Além disso, ao final de junho foi aprovada uma rodada de desoneração a nível nacional e estadual de impostos incidentes sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicação. Essa decisão levou o IPCA a apresentar deflação de 0,68% no mês de julho, a menor variação já registrada desde agosto de 1999.

Apesar da variação mais benigna do IPCA no curto prazo, o Banco Central do Brasil (BCB) busca sempre limpar os efeitos desses choques para entender a evolução da inflação.

Com esse objetivo, o BCB faz uso dos núcleos de inflação que, por construção, buscam excluir os efeitos de primeira ordem de choques transitórios, sejam estes positivos ou negativos.

O gráfico abaixo mostra a evolução recente das médias dos cincos núcleos utilizados pela autoridade monetária e o IPCA.

IPCA x média dos 5 núcleos: variação trimestral móvel anualizada e sessazonalizada. Fonte: EQI Asset

Vale ressaltar a diferença na volatilidade (magnitude das oscilações) entre as séries.  Além disso, o IPCA já apontou forte redução na margem, refletindo os impactos dos choques de energia. No entanto, a média dos núcleos permanece com variação acima de dois dígitos, próxima das máximas recentes.

Apesar de os núcleos de inflação tentarem limitar os efeitos de primeira ordem dos choques, muitas vezes a variação brusca dos preços de energia e alimentos pode trazer uma percepção diferente de inflação para os agentes e se propagar para os outros preços da economia, gerando impactos de segunda ordem.

Sendo assim, busca-se entender se diante dos choques recentes há espaço para uma redução significativa dos núcleos de inflação nos próximos trimestres.

Como mostram as figuras abaixo, nossas estimativas indicam que há impactos estatisticamente relevantes para o núcleo da inflação em trimestres seguintes. Ou seja, a influência dos choques não se exaure no momento corrente a influência no IPCA.

Fonte: EQI Asset
Fonte: EQI Asset

Além disso, nossas simulações apontam que choques de 1 ponto porcentual (p.p) nos preços de energia elétrica têm um impacto limitado a dois trimestres à frente e sensibilizando a média anualizada dos núcleos em apenas 0,05/0,06 p.p.. No caso dos preços de gasolina, o efeito de segunda ordem é 0,1 p.p..

Mesmo que, a priori, essas magnitudes sugiram impactos limitados, vale ressaltar que a variação acumulada dos choques em energia, desde abril até julho com o que é esperado para agosto e setembro, chegamos a oscilações próximas a -30% para gasolina e -20% para energia elétrica.

Dessa forma, ao simularmos ambos os choques concomitantemente – figura abaixo – nossas estimativas apontam para uma possível redução de 3 p.p. dos núcleos ao longo do primeiro trimestre de 2023. Sendo assim, o atual nível dos núcleos acompanhados pelo BCB poderia ser reduzido em, aproximadamente 1/3.

Simulação de ambos os choques em energia. Fonte: EQI Asset

Em resumo, buscamos mostrar que há efeitos secundários na inflação gerados pelos choques recentes nos preços de energia. Especialmente nas medidas de núcleo, que influenciam a dinâmica de médio prazo da inflação e são referências importantes para o BCB na calibragem da política monetária.

Com isso, uma desaceleração da média dos núcleos no início de 2023 será relevante para a definição da taxa de juros ao longo do ano que vem. Atualmente, estimamos que a taxa Selic poderá começar a ser reduzida em junho de 2023.

Por Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Asset, e João Paulo Rabe, economista da EQI Asset

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