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Na era da SAF, o futebol se prepara também para o pequeno investidor

Na era da SAF, o futebol se prepara também para o pequeno investidor

Redação EuQueroInvestir

Redação EuQueroInvestir

02 Abr 2022 às 19:00 · Última atualização: 24 Jun 2022 · 7 min leitura

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02 Abr 2022 às 19:00 · 7 min leitura
Última atualização: 24 Jun 2022

Foto de Ronaldo durante entrevista no Cruzeiro. O futebol busca amadurecimento no mercado para receber o pequeno investidor

Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

O futebol brasileiro ganhou uma nova sigla nos últimos meses: a possibilidade de se transformar em SAF, a sociedade anônima do futebol, abriu espaço para a chegada de investidores que prometem mudar a realidade de alguns dos maiores clubes.

Mas e o pequeno investidor, também terá sua vez? É preciso ser um milionário famoso (e estrangeiro) ou é possível a qualquer um colocar dinheiro no futebol em busca de retorno?

As possibilidades estão no horizonte. Mas o amadurecimento do futebol brasileiro, enquanto mercado, está só no começo. Há um caminho longo a desbravar e, certamente, a vez do pequeno investidor também vai chegar.

“O pequeno investidor vai entrar aos poucos, conforme o mercado vai ficando maduro. O varejo é a última ponta do grau de maturidade de um mercado de capitais. Você começa com um mercado mais institucional, vão saindo pequenas possibilidades institucionalizadas em condomínios, fundos, até que chega o momento em que você consegue levar o produto para o mercado de capitais de uma forma mais democrática. É um processo”, explica Claudio Pracownick, CEO da Win The Game, empresa que oferece soluções inovadoras para conectar negócios e esportes.

Vamos começar do começo: o que é SAF?

Sigla para “sociedade anônima do futebol”, a SAF é um modelo jurídico aprovado no ano passado que permite aos clubes entregar a gestão do futebol profissional a um grupo privado. Além da gestão, o grupo controlador assume os ativos (jogadores sob contrato e recebíveis de patrocínios e direitos de TV) e, em troca, serve como garantidor dos passivos (em geral, dívidas de grande porte, muitas delas com vencimentos próximos e taxas altas).

Parte do faturamento da SAF é destinado, inclusive, ao pagamento dessas dívidas. Os acordos para a aquisição do controle também devem prever mecanismos para a quitação dos débitos e outras compensações.

Hoje, no Brasil, os casos mais notórios são os do Cruzeiro, que teve 90% de sua SAF adquiridos pelo ex-jogador Ronaldo Fenômeno, que começou a carreira no clube, nos anos 1990; e o Botafogo, que tem sua SAF agora sob controle do empresário norte-americano John Textor, que já detém o comando de um clube de futebol, o Crystal Palace, da Inglaterra.

Outros clubes já manifestaram o interesse de receber investimentos nesse formato. Para isso, seus dirigentes, a partir de detalhes estatutários de cada clube, devem primeiro aprovar a criação de uma SAF, uma nova pessoa jurídica, para depois proceder a venda de controle aos investidores.

Um processo longo

Se os jogadores brasileiros são profissionais oficialmente desde 1933 (e muito antes alguns já recebiam para jogar), o processo de profissionalização da gestão no futebol brasileiro começou muito depois. Apenas na década de 1980 começou-se a falar da importância de gerenciamento qualificado, com profissionais especializados e pagos para isso.

Aprovada em 1999, a Lei Pelé, fruto de negociações realizadas enquanto o Atleta do Século foi ministro do Esporte, no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-98), trouxe pela primeira vez a possibilidade legal para que os clubes de futebol fossem transformados em empresas.

À princípio, a ideia era que essa transformação fosse obrigatória. Depois, passou-se a um processo opcional, com oferta de benefícios fiscais para quem escolhesse mudar seu regime. Algumas experiências mal sucedidas aconteceram e a discussão esfriou, para ser retomada apenas nos últimos anos.

“Ainda existe muita desinformação, temos um mercado descalibrado, sem benchmarks, em busca de um equilíbrio”, avisa Claudio Pracownick, da Win The Game. “Como a gente ainda não tem elementos para a formação do preço de um ativo, de uma maneira muito clara, consistente, provada, é difícil entrar para o mercado varejista, mais fracionado. Essa primeira onda vai ser mesmo uma onda institucional.”

Quanto vale uma paixão?

De fato, não tem sido fácil fazer a avaliação sobre o valor de um clube. Afinal, além de ativos concretos, como estádios, centros de treinamento e contratos recebíveis, boa parte do valor de um clube de futebol está no intangível, no campo da paixão e do sentimento de uma pessoa.

Mas, como investidores não podem se medir por tais réguas, é preciso ter paciência, até que o mercado se regule. “À medida que você tem uma formação de preços mais transparente, com bons exemplos já concretizados, isso vai dar mais segurança para o pequeno investidor. Que, lógico, vai correr riscos, mais de uma maneira clara, metrificada, com uma noção maior do tamanho desses riscos”, avalia Pracownick.

Por outro lado, as empresas não esperam. O mercado se movimenta de forma acelerada, e as ideias já vão se acumulando à espera de ir para a rua. Por exemplo, a criação de FIDCs, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, ou de FIPs, Fundos de Investimento em Participações, atrelados ao desempenho de clubes e negociações de jogadores, no Brasil e no exterior.

“É um processo natural de evolução que pode até chegar ao clube realizando uma IPO (oferta pública de ações e efetivamente ir para a bolsa e oferecer uma cota de ações no varejo bancário”, diz o CEO da Win The Game.

Obstáculos legais e culturais

A ideia de um investimento similar a um fundo para a negociação de atletas já foi realizada algumas vezes. O Palmeiras fez uma experiência em 2007 chamada Cesta de Atletas, em que o dinheiro de investidores era usado para contratações e o lucro obtido pelo clube numa eventual negociação retornava aos investidores.

Hoje, porém, a Fifa veta a vinculação de direitos econômicos sobre os jogadores a pessoas físicas ou jurídicas que não sejam clubes de futebol. Assim, ideias similares que envolvam negociações de atletas precisam ser bem desenhadas para não ferir a legislação.

Outro obstáculo a uma gestão mais profissional vem de uma dúvida quase filosófica: se para uma empresa ter sucesso é obter lucro, para um clube de futebol – ou pelo menos para seu torcedor – a verdadeira realização é conquistar títulos.

Em muitos clubes geridos como empresas em países onde a legislação de clubes-empresa já existe há mais tempo, como o Reino Unido, proprietários que se contentam em investir pouco, para garantir seu lucro e recuperar os investimentos, sem se preocupar necessariamente com o sucesso esportivo, são duramente criticados por torcedores.

“O dono pode até querer ser o primeiro colocado, mas ele faz um plano de negócios e mede o risco: ele consegue chegar em sexto lugar com uma dose de investimento. Se ele quiser ser o primeiro, tem que investir muito mais e ainda corre o risco de não ser campeão. Vai depender do modelo de negócios que a empresa criar, e isso nem sempre bate com o desejo do torcedor”, comenta Pracownick.

Um pedacinho do clube

Já existe uma possibilidade aberta para quem quiser se sentir um pouquinho dono do seu clube do coração: os fan tokens. Por ora, não são ativos financeiros vinculados à legislação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas já há previsão legal para que isso aconteça, atrelando o resultado, por exemplo, a recebíveis do clube.

Os fan tokens já vendidos no mercado são ativos de utilidade que garantem ao proprietário direito a alguns benefícios, desde votação em enquetes a descontos na compra de produtos licenciados. E já existe um mercado secundário, ainda desregulamentado, de negociação dos tokens.

“Eles podem se valorizar à medida que uma ação do clube, como uma contratação de jogador, provoca a valorização do benefício – por exemplo, bater um pênalti com esse jogador. É uma operação de compra e venda de ativo que vai gerar lucro ou prejuízo dependendo do momento da compra ou da venda”, explica Claudio Pracownick.

Mas já há projetos em andamento para o lançamento de tokens de finalidade financeira. “Aí a gente entra numa legislação de envolve a economia popular e precisa de aval das autoridades do mercado”, completa. Por ser o começo de um caminho para se divertir, comemorar e, também, ganhar dinheiro com seu clube de coração.

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