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Quiet Quitting: é hora de falar sobre isso

Quiet Quitting: é hora de falar sobre isso

Analisando alguns textos e falas que venho acompanhando na internet, quis trazer uma reflexão acerca desse assunto tão comentado nesse ultimo ano, o “quiet quitting“. O que é o quiet quitting Conforme o instituto Gallup, cerca de metade dos americanos adotaram o “quiet quitting”, termo que a instituição define como “pessoas que não vão além […]

Analisando alguns textos e falas que venho acompanhando na internet, quis trazer uma reflexão acerca desse assunto tão comentado nesse ultimo ano, o “quiet quitting“.

O que é o quiet quitting

Conforme o instituto Gallup, cerca de metade dos americanos adotaram o “quiet quitting”, termo que a instituição define como “pessoas que não vão além do esperado no trabalho”.

Mas essa discussão não se restringe aos americanos, sendo muito abordada em palestras pelo Brasil nos últimos tempos. A princípio esse pensamento parece descrever um funcionário preguiçoso, sendo um “mal da nova geração”, que teria crescido sendo mimado pelos pais e protegido de tudo e todos.

Esse é o discurso que ouvimos pela Faria Lima, quase como um discurso de adultos que dizem “hoje sou um homem forte, pois quando era criança não tinha esse ‘mimimi’, meu pai me batia e estou vivo até hoje”.

O que eu devo alertar ao mercado é que o quiet quitting não é nenhuma novidade e muito menos exclusiva da minha geração, conforme os dados da pesquisa do instituto Gallup.

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Na pesquisa do instituto, pouco menos de um terço dos trabalhadores americanos mostravam “engajamento” no trabalho, e quase um quinto deles exibiam “desengajamento ativo”.

Os quiet quitters seriam o grupo que não se encaixava em nenhuma dessas duas descrições. As proporções oscilaram um pouco, mas ainda estão em média com o que se tem sido observado dede 2000.

Aqui vem a opinião polêmica. Não vejo como quiet quitter uma pessoa que está indo todos os dias trabalhar e executando suas funções. Essas pessoas estão simplesmente trabalhando.

Muitas não fazem questão de se destacar na área que estão. Às vezes, suas motivações são puramente econômicas, só querem fazer suas funções designadas e receber por elas.

Já outras, sempre serão propensas a fazer mais do que lhes é pedido, por ambição, prazer, perfeccionismo ou medo, mas se você resume que todo mundo se comporte assim, cria-se um paradoxo e não podemos mais usar o termo “acima e além do dever”, pois não seria “a mais”, mas apenas o “normal” entregar o além do dever.

Além disso, contar que seu modelo de negócio vá funcionar na expectativa de que todos estão lá para trabalhar além do seu dever pode gerar diversos problemas.

Quiet quitting: Turnos extras nos dias de folga

Temos o exemplo na Inglaterra: operadoras como a Avanti contaram durante anos com que seu pessoal trabalhasse turnos extras voluntariamente em seus dias de folga. Quando a boa vontade dos trabalhadores se esgotou, o serviço entrou em crise e as greves explodiram.

Muitas vezes, a motivação que as empresas criam para seus colaboradores entregarem além do contratado são bônus e stock options, o que parece justo correto? Faz quem quer, ganha quem faz.

Porém, um jovem recém-inserido no mercado de trabalho, por mais que ele queira equilibrar sua vida pessoal e de trabalho, entregando o que ele consegue dentro de seus limites e obrigações, ao se deparar com seu colega virando madrugadas para obter um destaque, ele se sente na obrigação de adotar essa estratégia para si, acima do esperado, motivado pelo medo de ser excluído ao não entregar mais do que é sua função.

Quando falei sobre a vontade do trabalhador se esgotar, estou falando da exaustão precoce, tanto físico quanto mental em pessoas que não sustentam viver uma vida assim.

Já foram comprovados inúmeras vezes os malefícios de não se equilibrar a vida pessoal e o trabalho. Conheço diversos estagiários do mercado financeiro que trabalham muito acima das horas permitidas, pois esse comportamento já está tão enraizado no meio que não fazer isso pode ser visto de forma negativa e impedir que o estagiário seja efetivado.

“Matar-se de trabalhar quando jovem para ganhar dinheiro e se aposentar aos 40” é uma das frases que mais ouço na faculdade.

Com as redes sociais e fácil acesso à informação distorcida da realidade, comparamos nossa produtividade com a dos outros e minha geração alimenta uma bola de neve de ansiedade, antes mesmo de entrar no mercado de trabalho. Confundimos trabalho prescrito com trabalho real. Não é à toa que o número de patologias mentais relacionadas ao trabalho vem aumentando nos últimos anos.

Aos gestores, importante citar que forçar as pessoas a trabalhar demais tampouco é produtivo. Um estudo conduzido por Erin Reed, professora de gestão na Universidade McMaster, Canadá, descobriu que os gestores não conseguem distinguir entre pessoas que trabalham 80 horas semanais e pessoas que apenas fingem trabalhar.

Quiet quitting: O que fazer, então?

Como lidar, então? O quiet quitting é uma questão muito mais profunda.

No texto da Goya e Mansano – “Lacunas entre o trabalho prescrito e o trabalho real”, lemos que:

“Mas, além de trabalhar em sintonia com o grupo, o mercado exige que esse profissional alcance um lugar de destaque perante os demais profissionais, que não seja visto apenas como “mais um” integrante, arriscando ser dispensado por não demonstrar que realmente faz diferença para o crescimento da equipe. De acordo com Enriquez, essa configuração mais competitiva do trabalho persegue “objetivos inconciliáveis”, pois exige dos trabalhadores “um espírito individualista e um forte espírito de equipe”, o que, simultaneamente, provoca uma “confusão (deliberada) nos espíritos” (ENRIQUEZ, 2000, p. 25).”

“Sob essa perspectiva produtivista, qualquer atividade fora do trabalho é julgada como fútil ou é considerada uma perda de tempo. Daí a frequência com que se escutam relatos sobre a dificuldade de descansar nos finais de semana, de desligar-se do trabalho nos períodos de férias ou mesmo de não ter uma atividade predeterminada para realizar no dia. E, quando isso ocorre, emerge certo estranhamento ou sensação de culpa por não se estar trabalhando e produzindo. Sob essa perspectiva produtivista, o indivíduo avaliado socialmente como útil e comprometido é aquele que dedica todas as horas de sua vida para o aumento da produção.”

Resumindo minhas reflexões e pesquisas, as conclusões que cheguei foram:

  • Quiet Quitters são apenas trabalhadores normais que não fazem questão de se destacar ou que já chegaram a seus esgotamentos emocionais para entregar o além do prescrito. Seja pela aceleração de informações do ano em que vivemos, metas abusivas ou dificuldade de separar vida pessoal do trabalho.
  • Gerir uma empresa na expectativa de que seus funcionários sejam engajados o tempo inteiro e entreguem mais que o necessário não é sustentável a longo prazo.
  • Por fim, os empregadores não precisam atender a todas as necessidades psicológicas de seus empregados, e os empregados não precisam ser apaixonados por seus empregos. Que tal uma simples relação contratual de respeito mútuo e obrigações claramente definidas?

Essa discussão poderia ir longe e eu poderia abrir diversas outras variáveis sobre o assunto para discussão, porém espero que eu tenha aberto sua mente para refletirmos um pouco sobre o tema e como podemos melhorar nosso trabalho e nossa saúde mental em uma década de tanta informação e comparação. Até semana que vem!

Por Júlia Wazlawick, assessora de investimentos, influenciadora e criadora de conteúdo sobre finanças e educação financeira.