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Dólar sofre risco real de perder status de “reserva global”

Dólar sofre risco real de perder status de “reserva global”

Os desdobramentos em Washington sobre o Federal Reserve podem ir além de e chegar às reservas dos bancos centrais em dólar

A dominância do dólar como reserva de valor pode ser testada nas próximas semanas, caso a Suprema Corte dos EUA decida enfraquecer a independência do Federal Reserve em um caso com potencial de redefinir a relação entre política e política monetária.

O tribunal ouviu argumentos em 20 e 21 de janeiro de 2026 sobre a tentativa do governo de remover a diretora do Fed Lisa Cook, sob alegações de fraude hipotecária que ela nega – um movimento que, segundo críticos, abriria precedentes para maior controle político sobre o banco central.

A questão central é o alcance do poder presidencial para demitir um diretor do Fed “por justa causa” e qual devido processo se aplica; uma decisão é aguardada ainda neste período da sessão judicial.

Além disso, em janeiro de 2026, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell revelou que o Departamento de Justiça entregou intimações, no contexto de uma investigação criminal relacionada ao seu depoimento ao Congresso sobre as reformas realizadas no prédio do BC americano.

Participação do dólar nas reservas globais diminuiu gradualmente
Participação nas reservas cambiais globais (em porcentagem)

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Até 30 de junho de 2025 – Fonte: FMI e AllianceBernstein

Dólar como reserva global

Para Eric Winograd, Diretor de Pesquisa Econômica para Mercados Desenvolvidos e Economista‑Chefe para os EUA na AllianceBernstein, os desdobramentos podem ir além de Washington e chegar às reservas dos bancos centrais.

Em análise, ele escreve que uma eventual perda de independência do banco central “teria um longo e inglório histórico de gerar inflação persistente”, corroendo o valor de ativos dolarizados.

Segundo Winograd, se “a Suprema Corte decidir os casos pendentes a favor da Administração” e o Fed ficar sujeito a maior tutela política, “os gestores de reservas acelerarão significativamente sua diversificação para longe do dólar”.

A avaliação vem em um momento em que fatores estruturais já pressionam a moeda norte‑americana. Winograd lembra que o dólar segue caro em termos de taxa de câmbio efetiva real e que a participação do dólar nas reservas globais – ainda perto de 60% – cai gradualmente ao longo do tempo.

Em 2025, esse processo teria se intensificado após a onda de tarifas impostas pelos EUA, que incentivou parte dos gestores a reduzir exposição ao dólar, ainda que forças cíclicas (como fluxo para ações de tecnologia/IA nos EUA) tenham dado suporte à moeda no fim do ano.

Independência “estilhaçada”

O caso na Suprema Corte ganhou relevo porque, se permitir a remoção sumária de um governador do Fed, poderia “enfraquecer, se não estilhaçar, a independência” da autoridade monetária, como alertaram ministros durante a audiência, sinalizando ceticismo em relação à tese governamental. Cook segue no cargo por decisões de instâncias inferiores enquanto o mérito é analisado.

Para Winograd, o cenário base para 2026 é de volatilidade sem direção clara do dólar, mas choques institucionais podem quebrar o equilíbrio. “Se a independência do banco central for percebida como comprometida, a diversificação de reservas tende a se acelerar”, diz.

Já o oposto – um salto de produtividade com IA -poderia atrair fluxos e sustentar a moeda. Por ora, o dólar “deve oscilar” enquanto o mercado acompanha de perto o desfecho na Suprema Corte.